Vale do Anhangabaú, em SP, continua fechado após a 'reinauguração'

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***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, 23/07/2021, Vale do Anhangabaú. (Foto:Rivaldo Gomes/Folhapress)
***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, 23/07/2021, Vale do Anhangabaú. (Foto:Rivaldo Gomes/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quase quatro meses após a cerimônia de reinauguração de sua reforma, o vale do Anhangabaú (centro) segue fechado com grades ao público. Só a área para o uso de skatistas está aberta.

Depois de vários adiamentos, espaço foi reinaugurado em 25 de julho como área de lazer em um domingo, quando a cidade atingiu 80% da população adulta vacinada contra a Covid-19. Atualmente, nem aos fins de semana abre mais.

A reportagem esteve no local nesta sexta-feira (5) e registrou que quiosques, banheiros e fraldários seguem fechados. As fontes também mão funcionam e os canteiros apresentam vegetação alta.

O técnico de enfermagem, José Maicon, 24 anos, conta que mora no bairro há três anos, que gostou da iniciativa da reforma, mas critica a indefinição.

"Acompanhei a mudança e achei bem legal, pios a gente não tinha essa área como um espaço de lazer e agora teremos. O problema é que não consigo entender o motivo de ainda estar fechado, mesmo depois da inauguração", afirma Maicon.

O rapaz afirma que até tentou frequentar a única parte aberta, a pista de skate, mas que não se sentiu confortável. "Fica difícil para a gente ficar com criança e com cachorro no final de semana na parte do pessoal do skate porque é muito movimentado."

A área de skate está com acesso liberado pela prefeitura desde 22 de fevereiro. O equipamento fica perto do viaduto Santa Ifigênia e da estação São Bento da linha 1-azul do metrô.

Também morador da região, o administrador Cristiano Cordeiro, 35, tem opinião parecida. Ele conta que estava ansioso para ver o resultado da reforma, mas que se frustrou com a manutenção das grades mesmo após a reinauguração. "Ouvi dizer que há uma programação para abrir aos poucos, mas ninguém é avisado de nada".

Cordeiro ainda reclama que o espaço não está recebendo manutenção adequada. "A gente vê um descaso. As plantas não estão sendo cuidadas, os quiosques estão fechados e cheios de pó e não há comunicação", afirma o administrador.

Cordeiro comemora que a praça Ramos de Azevedo, que fica anexa ao vale do Anhangabaú, tenha sido preservada. "Pelo menos posso passear e trazer meu cachorro aqui", diz.

Outro tema levantado pelas pessoas ouvidas pela reportagem é o da segurança no local. Luiz Carlos, 40, é zelador em um prédio no vale do Anhangabaú há 22 anos. Ele afirma que a sensação de insegurança no local cresceu nos últimos meses, principalmente porque o local está fechado, sem acesso às pessoas.

"Estamos tendo mais roubos. Constantemente escuto alguém contanto que foi assaltado, principalmente próximo às escadas que dão acesso ao viaduto do Chá", afirma o zelador.

"Se você der uma olhada, vai ver que está tudo cheio de mato e esses quiosques estão abandonados. Eles falam que vão privatizar, que vai ter uma empresa que vai cuidar, mas até agora nada. Eu até perguntei para o pessoal da concessão, para os GCMs, mas ninguém sabe dizer".

A secretária Virgínia Oliveira, 44, mora e trabalha na região do vale do Anhangabaú. Para ela, a reforma tem aspectos positivos e negativos.

"Concordo que a obra vai ampliar as opções de lazer para os moradores do bairro e visitantes, mas também acho que é negativo a redução de verde na região. O centro da cidade já é um lugar sem muita área verde. O Anhangabaú era um dos poucos lugares que podíamos ter esse contato mais próximo", afirma.

Ela ainda aponta que a retirada de boa parte do verde do local e a colocação de piso deixou o ambiente mais quente e que, apesar de a prefeitura dizer que o local fica aberto ao público aos domingos, não tem visto isso acontecer.

"Eu só vi aberto no final de semana, com funcionamento das fontes também, uma vez. Tinha controle de acesso, inclusive. Depois eu nunca mais eu vi aberto", afirma a secretária.

As obras do projeto de revitalização do vale do Anhangabaú começaram em junho de 2019, com finalização prevista, inicialmente, para junho de 2020. Após sete adiamentos, o espaço foi reinaugurado em 25 de julho, quando a cidade atingiu a marca de 80% da população vacinada contra a Covid-19.

Segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), o projeto custou R$ 105, 6 milhões.

"Deste total, R$ 93,8 milhões correspondem ao valor do contrato e um aditivo, necessário para adequar o projeto básico da obra, feito pela gestão encerrada em 2016, ao projeto executivo, que detalha todas as etapas da obra. Os outros R$ 11,8 milhões correspondem ao reajuste previsto no contrato, com base na lei das licitações, para os casos de obras com duração superior a 12 meses", afirmou a prefeitura, em nota, na época reinauguração.

Em julho deste ano, a prefeitura fechou contrato no valor de R$ 49 milhões com a concessionária "Viva o Vale", liderado pela empresa Urbancom. O contrato tem duração de dez anos e contempla a gestão, manutenção, preservação e ativação sociocultural de toda a área.

Questionada sobre o fato da maior parte do Vale do Anhangabaú seguir fechado ao público, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Governo, afirmou que "a reabertura do vale do Anhangabaú está ocorrendo de modo gradual, por ocasião da transição da administração para a concessionária Viva o Vale, gestora privada do equipamento".

A prefeitura ainda disse que a abertura do espaço para o público aos domingos, único dia em que o acesso era permitido, não está mais acontecendo. Isso porque, segundo eles, "a parte do central do Vale do Anhangabaú está sob responsabilidade da empresa que vai assumir a gestão do equipamento. Assim, essa parte não pode ser acessada pelo público para preservação dos equipamentos que estão no local até que a empresa assuma".

Segundo a gestão Nunes a concessionária apresentará uma programação de eventos a serem validados pela prefeitura e que a Secretaria de Cultura também tem eventos previstos.

Sobre os questionamentos feitos em relação à manutenção do local, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras disse que "atualmente, as fontes do vale do Anhangabaú são operadas por uma empresa contratada por meio de licitação pública, e os equipamentos estão funcionando normalmente".

Segundo a pasta, o edital foi lançado em 26 de junho e a contratação se deu em 4 de agosto. "A empresa é responsável pelas fontes e bombas apenas no período de transição da gestão do espaço [da prefeitura para a iniciativa privada]".

A Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmou que "a Guarda Civil Metropolitana realiza policiamento com viaturas e efetivo a pé, diuturnamente, no Vale do Anhangabaú."

Já a Secretaria da Segurança Pública, da gestão João Doria (PSDB), afirmou, em nota que "as ações de policiamento preventivo e ostensivo, assim como as ações de polícia judiciária, na região central da cidade de São Paulo serão intensificadas, a fim de ampliar efetivamente a segurança e a sensação correspondente da população, e reduzir a incidência criminal".

Segundo dados fornecidos pela pasta, de janeiro a setembro deste ano, houve queda de 14,6% nos roubos e 4,4% nos furtos, em comparação com igual período de 2020, na área do 1° DP, que atende o vale do Anhangabaú.

"Também na região, foram presos e apreendidos 171 criminosos e retirada das ruas sete ilegais", afirma a secretaria, em nota.

O consórcio Viva o Vale foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até esta publicação.

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