Vale do Javari: como pesca ilegal e tráfico de drogas se articulam na região

A Terra Indígena do Vale do Javari é alvo constante de atividades ilegais. (Foto: AP Photo/Fabiano Maisonnave)
A Terra Indígena do Vale do Javari é alvo constante de atividades ilegais. (Foto: AP Photo/Fabiano Maisonnave)
  • Pesca ilegal exporta peixe proibido no mercado brasileiro para Colômbia

  • Contrabando financia tráfico de drogas para o Brasil

  • Bruno Pereira já havia denunciado atividade ilegal

O Vale do Javari ficou conhecido mundialmente após o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips desaparecerem na região no dia 5 de junho. De nome oficial Terra Indígena do Vale do Javari, o território fica nos municípios de Atalaia do Norte e Guajará, no oeste do estado do Amazonas. Apesar de protegido legalmente, a região é alvo de diversas atividades ilegais.

Nas águas do Vale do Javari é permitida a pesca apenas de pessoas que vivem lá. Ainda assim, a pesca ilegal ocorre intensamente no rio Itaquai e afeta diretamente a subsistência das comunidades indígenas que vivem no local.

Os pescadores ilegais chegam a retirar toneladas de pirarucu e piracatinga, peixe ameaçada cuja captura é proibida no Brasil - pela própria espécie e também porque pescadores matam jacarés e botos para servir de isca. A piracatinga não encontra mercado em território brasileiro, e por isso os contrabandistas levam a carga para a Colômbia.

O esquema de venda de peixe serve, inclusive, para lavar dinheiro do tráfico de drogas e serve para financiar a entrada de entorpecentes ilegais no Brasil.

Suspeito de envolvimento no desaparecimento era pescador ilegal

Amarildo da Costa Oliveira, de 41 anos, o “Pelado”, um dos suspeitos de participar do desaparecimento do indigenista do jornalista, pescava ilegalmente na região. Testemunhas relataram à polícia que ele já havia ameaçado diversas vezes Bruno Pereira e lideranças indígenas no Vale do Javari por denunciarem a pesca ilegal.

Desaparecimento de Dom e Bruno: tudo o que você precisa saber

Antes de desaparecer, o indigenista denunciou pescadores do Vale do Javari que estavam atirando contra equipes de fiscalização na região. A informação consta em áudio enviado por Bruno em maio, e foi divulgada pela TV Globo e Rede Amazônica.

No áudio, o indigenista cita uma reunião que ocorreria no dia 3 de junho na Comunidade São Rafael, local onde ele e Dom Phillips estiveram no dia em que desapareceram. O encontro tinha o objetivo de barrar o avanço da pesca ilegal de pirarucu na terra indígena.

"A gente está preparando uma reunião, uma articulação para a Câmara de Vereadores e a Prefeitura [de Atalaia do Norte] na Comunidade São Rafael. [...] Os maiores e grandes invasores da terra indígena aí. Eles vão perder o manejo do pirarucu que demorou 10 anos para eles tirarem", disse Bruno, no áudio.

Ainda na gravação o indigenista afirma que os pescadores que atuam ilegalmente atiraram contra equipes de fiscalização.

"São esses caras que estão atirando na equipe, esses caras que atiraram na base. Não só do São Rafael, [do] São Gabriel, os carinhas de Benjamin [Constant] e outros de Atalaia [do Norte]".

Apesar de marcada, a reunião prevista para ocorrer no dia 3 de junho não chegou a ser realizada. Segundo a Prefeitura de Atalaia do Norte, o prefeito Denis Paiva tinha um compromisso urgente em Manaus. Dois dias depois, Bruno e Dom desapareceram.

Mesmo diante disso, no dia 5 de junho, antes de voltar para Atalaia do Norte, o indigenista ainda tentou se reunir com um líder comunitário conhecido como "Churrasco", para falar sobre a Vigilância Indígena na região.

O encontro estava pré-agendado, no entanto, quando chegou na comunidade, o líder não estava e o indigenista conversou apenas com a esposa de Churrasco.

Denúncia da Unijava

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) emitiu um documento no dia 12 de junho no qual afirma que ‘Pelado’, junto com um grupo de quatro ou cinco pessoas, pescava no Vale do Javari, perto da aldeia Korubo, no dia 3 de abril, pouco antes do desaparecimento da dupla.

O comunicado afirma que "eles estariam de canoa pequena, no lago do Bananeira, na margem direita do rio Ituí, pescando peixe liso e pirarucu". No mesmo texto, a organização enfatiza que Amarildo já havia cometido atentados contra a Base de Proteção da Funai em 2018 e 2019.

O mesmo foi denunciado por um amigo do indigenista, que não quis se identificar. Na última sexta-feira (10), ele contou que Bruno sofreu ameaças de Amarildo um dia antes de desaparecer. Eles cruzaram com o suspeito e outros dois homens em seu trajeto.

"Os dois [que acompanhavam Amarildo] levantam a arma para cima, não apontando, mas sim mostrando a arma, dizendo que ali eles estavam presentes, tentando nos intimidar. O 'Pelado' estava com uma cartucheira em sua cintura, com praticamente 30 cartuchos de calibre 16. Nesse momento, o Bruno levanta e dá um bom dia", disse.

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