Vale-gasolina, psicoterapia, pet no escritório: veja benefícios de empresas após pandemia

Segundo o Índice de Tendências do Trabalho, divulgado este ano pela Microsoft, 71% dos trabalhadores brasileiros se dizem mais propensos a priorizar sua saúde e bem-estar sobre o trabalho atualmente do que antes da pandemia. Para atrair e reter funcionários, portanto, as empresas precisam, cada dia mais, prezar pela qualidade de vida de seus colaboradores.

— As pessoas passaram por uma pandemia e experimentaram o medo de morrer. Isso estimulou que elas repensassem o que é mais importante nas suas vidas. Mas também o tempo que foi economizado ao não se deslocar até o trabalho nesse período foi investido por muitos em exercício físico, meditações e atividades relacionadas ao bem-estar. E as pessoas gostaram disso — explica Kelly Garnier, professora e executiva de Recursos Humanos.

Não à toa o pedido mais popular entre colaboradores às suas empresas foi, no fim do isolamento social, a permanência do home office ou do regime híbrido de trabalho. E foram, em grande medida, atendidos. No grupo de alimentação Bimbo Brasil, por exemplo, é permitido atualmente trabalhar remotamente quatro dias na semana e ir apenas uma vez ao escritório.

Mas a qualidade de vida dos funcionários deve ser pensada além disso. Outro ponto estratégico para as empresas têm sido elaborar programas de atenção à saúde mental, que dão acompanhamento psicológico e aconselhamento em temas além da carreira, com sigilo, é claro, garantido. As iniciativas têm agradado a muitos.

O Programa Calmamente, para os colabores do Hospital Albert Einstein, por exemplo, tem visto a demanda crescer. No início de 2021, eram feitas cerca de 500 consultas mensais. No início de 2022, já tinha evoluído para 1.700. O hospital oferece assistência psicológica para colaboradores e dependentes.

— Quando a pandemia chegou, tudo foi intensificado, sobretudo no que diz respeito à rotina dos profissionais de saúde. Assim, começamos a triar nossos colaboradores e identificar, por meio de recursos especializados, as necessidades nesta parte emocional. Uma das ações foi a implementação da plataforma de psicoterapia, que oferece tratamento de saúde mental isento de coparticipação. Desta forma, conseguimos aumentar a adesão e não gerar custo para os colaboradores — relembra Luiz Gustavo Zoldan, chefe de Saúde Mental.

A empresa global de soluções de Tecnologia da Informação, Unisys, lançou, em 2021, o “Conte comigo”, um serviço de suporte a uma ampla gama de desafios, dentro e fora do trabalho, que fica disponível a colaboradores e seus familiares 24 horas por dia e sete dias por semana.

A percepção das famílias dos colaboradores como responsabilidade da empresa, aliás, é uma tendência do universo do trabalho. A Bimbo Brasil oferece, a partir do programa Acarinhe, a possibilidade do colaborador tirar uma licença de até seis meses, não remunerada, mas com o convênio médico mantido, para cuidar de familiar com doença crítica.

Direitos além da lei

Para atrair e reter talentos, ir além da lei na concessão de direitos é uma realidade em algumas empresas. Por exemplo, na CLT, mulheres têm direito a quatro meses de licença-maternidade, e os homens, apenas cinco. Desde julho de 2021, no Grupo Boticário, pessoas que gestam têm licença de 180 dias, e um segundo cuidador, de 120 dias. Em um ano, quase mil licenças parentais foram tiradas.

Na Amazon Brasil, um primeiro cuidador, independentemente do gênero, tem afastamento remunerado de 180 dias. E o segundo, seis semanas, conta Glenda Moreira, líder de Diversidade:

— Temos comprometimento de proporcionar um ambiente em que todas as equipes sejam tratadas com respeito e equidade, e agora atingimos um novo patamar com a licença parental para todas as possibilidades de família.

Sem exigência nenhuma por lei, a companhia Bimbo Brasil passou a permitir emendar feriados compreendidos em terças ou quintas-feiras e dar meio dia de folga ao colaborador em comemoração ao aniversário de filho ou cônjuge — além do já mais tradicional “day off” para quem aniversaria. Já o projeto “Sexta Curta” permite que a jornada de trabalho acabe às 14h, para aqueles colaboradores que consigam exercer suas atividades no período, não sendo obrigatório o término da jornada.

Carreira sonhada junto

Nos últimos anos, em muitas empresas tornar-se um profissional de destaque na área que ama deixou de ser um plano elaborado e executado individualmente. Isso porque cresceu o entendimento de que a realização profissional de um trabalhador traz ganhos para todos.

Na BRQ, empresa de Transformação Digital, os “feras”, como são chamados seus funcionários, ganharam este ano um Programa de Mentoria, conta Carolina Piombo, Chief People Officer:.

— Temos 71 mentores e 78 mentorados. O maior ganho para o mentorado é o aprendizado acelerado porque ele aprende com líderes experientes e recebe conselhos de como alcançar seus objetivos, sem necessariamente precisar errar para aprender.

Em agosto deste ano, a Bimbo Brasil derrubou barreiras para permitir que seus colaboradores realizem cursos de até seis meses para desenvolver habilidades profissionais no exterior, trabalhando de qualquer lugar do mundo. O funcionário arca com custos da viagem e do curso, mas pode contar com a flexibilidade do expediente e a manutenção do salário e dos benefícios.

— Durante o período da pandemia, observamos que os nossos colaboradores sinalizaram interesse em trabalhar em diferentes regiões do país ou do mundo, aproveitando a oportunidade para enriquecer suas habilidades profissionais — diz Mário Escotero, vice-presidente de Gestão de Pessoas da empresa.

É possível personalizar o pacote de benefícios

A aplicação de pesquisas internas nas empresas — não apenas para avaliar trabalhadores, mas ouvi-los — é cada dia mais comum. E é através delas que empresas escutam demandas de seus funcionários e buscam atendê-las, como ocorreu na Epharma, para oferecer, desde abril, plano de assistência veterinária.

— Realizamos uma pesquisa interna e verificamos que 68% dos colaboradores possuem pets e, dos 32% que não possuem, 68% desejam. A pesquisa também mostrou que todos se interessam por um benefício que cuide do bem-estar dos bichinhos — diz Bruna Pereira, gerente de Remuneração e Benefícios.

Na Epharma, empresa de gestão de benefícios de medicamentos, os funcionários contam com pontos, de acordo com o cargo exercido, para comprar benefícios, personalizando, então, cada um o seu pacote de vantagens no emprego. A funcionária Luciane Matalani foi uma das que contrataram planos de assistência veterinária quando a empresa a disponibilizou.

— Para Cindy, que não tem muito problema de saúde, fiz um plano ambulatorial, que garante vacina, exame e consulta com médicos generalistas. Para o Oliver, que tem a saúde mais frágil e já passou até por cirurgia, fiz um plano mais completo, que inclui internação, exames de alta complexidade etc. Pago menos de R$ 20, e já vi no site da seguradora que o plano mais em conta custa, para pessoas físicas, R$ 49. Então, é muita vantagem — avalia a head de Marketing e Inovação .

A flexibilidade de benefícios é uma tendência. Já era comum, antes da pandemia, poder escolher entre vale-refeição ou vale-alimentação. Mas, agora, a forma de uso do benefício de transporte também fica a cargo do trabalhador. É assim desde setembro na empresa de soluções médicas Galderma.

— Após uma conversa com uma colaboradora e a implementação da política de home office três vezes por semana, observamos uma oportunidade, além de que, com a nova política, seria difícil controlar o pagamento de dias de vale-transporte através de créditos nos cartões de VT. Então, agora, disponibilizamos, através do cartão Flash, de benefícios na categoria Mobilidade, a verba de R$ 300 por mês, que pode ser utilizado para crédito em cartões de transporte público, fretados, aplicativos e postos de gasolina — diz o diretor de RH Guilherme Queiroz.

Esporte e lazer em pauta

Além das parcerias para funcionários terem descontos em academias, as empresas têm investido em outros planos para fazer funcionários suarem a camisa. A tecnologia é aliada.

A seguradora Prudential lançou em 2021, o programa Vitality, que conta por aplicativo os passos e batimentos cardíacos de funcionários. Dando vouchers de descontos em apps de alimentação, transporte e música para quem atinge metas semanais, o ap possui cerca de 65% de engajamento dos colaboradores.

Mas exercício também pode ser praticado no local de trabalho. Desde agosto deste ano, a rede varejista Magalu tem, em São Paulo, uma arena, com academia e área poliesportiva, abertas para uso de funcionários diretos e terceirizados.

— Existem horários temáticos, como às quartas, quando a quadra com gramado sintético de futebol é exclusiva para o futebol feminino. E há horários de aulas, como de beach tennis, beach soccer, tênis e vôlei que seguem um cronograma — conta Patricia Pugas, diretora de gestão de pessoas.

No local, também há churrasqueira para confraternizações. Aliás, grandes empresas têm apostado em ferramentas de lazer voltadas ao relaxamento dos funcionários durante o expediente. Após uma reforma de dois anos, o prédio da Walt Disney Company Brasil, em São Paulo, foi reaberto, com salas temáticas de filmes, espaços instagramáveis, e até mesa de totó. Por um ambiente mais divertido, há ainda empresa que faz ações, esporádicas, para permitir a entrada de pets nos escritórios: caso da Heineken.

— (Em setembro) Tivemos em torno de 25 pets (de funcionários) no escritório e mais diversos colaboradores foram para curtir esse momento. Estamos estudando com o condomínio a viabilidade de tornar a ida dos pets ao escritório uma rotina. Esperamos ter definições em breve — revela Carol Guido Steck, gerente de Desenvolvimento Organizacional e Cultura.