Valentina Bandeira lembra preconceito por fazer humor popular, abre bastidores de 'Todas as flores' e fala de declarações sobre pegação

Valentina Bandeira entra no aplicativo de vídeo para a entrevista pontualmente, às 11h, num feriado. É educada e, timidamente, quer saber se o conteúdo audiovisual vai fazer parte da publicação. "É só porque não me arrumei para aparecer (risos)", justifica, com o cabelo úmido e sorriso no rosto. Em seguida, ouve com atenção cada pergunta e se dedica a pensar para responder. É perceptível a responsabilidade da atriz de 28 anos ao se comunicar num veículo de imprensa. Quem só acompanha seus vídeos no Instagram e fica sugestionado a crer que seu comportamento será sempre o da personagem da web pode esquecer. A Valen caricata, que fala alto e capricha nas gírias, aparece quando a repórter admite só ter conhecido o funk "Tubarão, te amo", montagem do LK da Escócia, depois de a influenciadora postar no Instagram uma sequência de vídeos em referência à canção.

— Mentira?! Aí, ó! Bota isso aí! Bota isso aí, p***! Avisa para ele (risos) ! — entusiasma-se, na torcida para que a reportagem alcance o funkeiro.

Na internet, a atriz interpreta uma personagem com características próprias amplificadas, com trejeitos que aparecem quando está à vontade com os amigos. No streaming, seu papel é outro: o de Dira, de "Todas as flores", novela de João Emanuel Carneiro. Apaixonada, a figura da ficção tem obsessão por Oberdan (Douglas Silva), virou amante do músico e faz loucuras pelo amado, inclusive se candidatar ao trabalho de secretária de sua companheira, Jussara (Mary Sheila).

— Esse trabalho com a Globo veio no fim do contrato, que terminou há pouco tempo. Agora estou soltinha no pagode (risos)! — diz a ex-contratada, que ficou oito anos na emissora. — Eu achei legal fazer essa parada com o DG, uma novela do João Emanuel Carneiro, esse autor tão importante... E foi um golaço mesmo o canal colocar os capítulos no Globoplay. O alcance é alucinante. É bizarro. Na novela anterior ("Quanto mais vida, melhor!", que antecedeu a "Cara e coragem" no horário das 19h), eu não tinha tido um ganho de seguidores tão expressivo como o de agora. Foi uma aposta vitoriosa.

Valentina integra o núcleo cômico da produção. Sua experiência no gênero é consequência de trabalhos longos com a equipe de humoristas na emissora e fora dela. A parisiense radicada no Rio fez "Zorra" por quatro anos e, no cinema, atuou em filmes como "Uma quase dupla", protagonizado por Tatá Werneck e Cauã Reymond, e "L.O.C.A", comédia romântica dirigida por Claudia Jouvin. Ela lembra que, no passado, seu trabalho num humorístico popular como o "Zorra" era piada na rodinha de amigos e de artistas da Zona Sul carioca, meio onde cresceu:

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— Existia preconceito e zoação. Teve amigo meu de esqueda, esclarecido, entre aspas, que tinha a cabeça aberta, rindo na minha cara quando falei que ia para o "Zorra". Para eu estar no lugar que estou, ouvi e ignorei muita coisa. Só que é um comportamento que não tem como não perceber. Eu convivo com isso na rodinha dos artistas, no lugar onde cresci.

Ter se tornado um fenômeno na internet, a ponto de ver Anitta imitá-la e apresentá-la virtualmente a estrangeiros como "brazilian icon", não a faz desejar o reconhecimento só das novas gerações e do público conectado. Valentina planeja se comunicar com diferentes públicos, entre eles o que assiste com frequência à televisão aberta.

— E eu sou filha única, cresci na frente da TV e nunca entendi bem essa rejeição de uma parte das pessoas a esse meio de comunicação. Ou melhor, entender eu entendi, porque não sou burra. Só que eu sempre quis fazer parte — frisa.

Nos vídeos on-line, a jovem costuma se direcionar aos trabalhadores das Barcas e dos subúrbios do Rio de Janeiro, cita cantores populares, faz dancinhas de Tik Tok e questão de levar sempre que puder referências do povo às mídias que compartilha. Ela explica por quê:

— Desde que entendi a constituição do Brasil, como ele se organiza, como esse espírito vira-lata ou de colonizado passou a imperar, eu sempre me interessei por quebrá-lo. Esse trabalho (voltado para o popular e para incluir diferentes públicos) faz parte da minha constituição artística. Existe o interesse por romper bolhas, sair dessa elite cultural, porque o comportamento dela sempre me incomodou. Por isso, além da internet, eu acredito muito no poder da TV. O Instagram alcança as pessoas de uma forma mais rápida mesmo. Mas isso não me faz subestimar a televisão. Não tem como eu fazer isso. Estou tentando me comunicar numa lógica multiplataforma. Uns anos atrás, quando comecei a perceber a web como muito poderosa, já comecei a trabalhar para entender como eu ia penetrar aqui, ali... Quero estar presente nas diferentes bolhas.

Com Lula (PT) eleito para governar o país a partir de 2023, Valentina compartilhou vídeos comemorando a vitória da esquerda. Ela conta que, apesar da polarização nacional, não perdeu tantos seguidores bolsonaristas em seu perfil:

— O posicionamento político não me afetou. Estou com crescimento de seguidores. Ganhei quase o triplo do que perdi naquele dia. É curioso porque muitos bolsonaristas me seguem e dizem que são, mas me amam. Às vezes, até acho que escorrego um pouco, faço piadas mais ácidas, mas é meu tipo de humor. Fico numa linha tênue, me questionando se errei no tom. Meu interesse não é agredir as pessoas. Penso que consegui criar uma cama de afeto e que elas gostam de mim. Tem muita gente que suporta bem esse meu posicionamento.

Se ao dar declarações Valentina dosa a voz para passar suavidade, quando questionada se o clima de flerte com o humorista Diogo Defante no podcast "Match o papo" era verdadeiro, ela enrubesce e reage com firmeza:

— Não falo sobre esse assunto. Eu mantenho o mistério (risos).

Mas a atriz gargalha e fica eufórica ao repercutir sua declaração num podcast sobre a beleza de Paulo André, ex-participante do "Big Brother Brasil" classificado por ela como dono de um sex appeal intimidador.

— Ele é bonito demais! Esse cara vai falar: "Que porra essa menina esquisita quer comigo?". Eu não sei nem lidar com um cara bonito desse. Mas esse tipo de coisa eu levo na piada máxima. Não me afeta. Isso gera mais curiosidade. Faz as pessoas irem assistir ao vídeo. E eu falo coisas sem pensar duas vezes! Eu posso falar uma coisa num dia e outra completamente diferente no outro. Sem o menor peso na consciência! E não me reprimam que eu vou continuar assim! Eu não vim para me explicar, eu vim para confundir — diverte-se, fazendo referência à frase de Chacrinha.

No mesmo podcast, ela opinou que "não existe beijo técnico". Ressalta que, em "Todas as flores", no entanto, os carinhos são estritamente profissionais:

— Eu faço par com o DG, que é um cara casado. Rolou uma formalidade maior. Mas ao mesmo tempo a gente ficou superíntimo, no sentido da amizade mesmo. A gente tem uma frequência parecida, ele é um cara gente boa, "tá" ligado? Que funfa, com quem as coisas dão certo, convergem. Acho que rolou um match nosso como amigos.

Depois da novela de João Emanuel Carneiro, a atriz fará uma participação no "Vai que cola", do Multishow, tem mais três episódios de seu podcast e só vai tirar folga de trabalhos no audiovisual e campanhas publicitárias no dia 6 de dezembro:

— Trabalho para ganhar dinheiro para investir nas minhas coisas. Gosto de ver o retorno do investimento que eu fiz. Minha carreira é a coisa mais importante da minha vida. Ainda não tenho filhos, nem família, não tenho 30 anos. Meu maior desejo no momento é investir e produzir. Sempre sonhei com os 30. Eu tinha essa idade em mente como uma fase em que eu ia ser mais estável emocionalmente. Eu ia ter mais maturidade emocional. Para mim, é uma idade bonita da ascensão profissional. Ainda faltam dois anos para chegar lá. Eu me daria esse tempo para trabalhar muito e começar a pensar em ter uma família aos 35. Mas tudo são planos. Eu tenho amigos com 36 que me dizem: "Você não sabe porra nenhuma (risos)". E eles têm razão. Tudo pode acontecer.