‘Vamos construir um grande calendário de eventos’, diz Eduardo Paes no ‘Reage, Rio’

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A elaboração de um estudo que poderá resultar na concessão de incentivos fiscais ao comércio da cidade, atingido duramente pela pandemia, foi uma das medidas anunciadas ontem pelo prefeito Eduardo Paes, durante o “Reage, Rio!”, realizado pelos jornais EXTRA e O Globo, com o apoio do Rio de Mãos Dadas e da Fecomércio RJ. No mês em que o Rio faz 456 anos, o evento especial colocou em debate os desafios para a recuperação da cidade e foi transmitido on-line nos sites e nas redes sociais dos dois jornais. A despeito dos problemas a enfrentar e das medidas duras que teve que adotar, Paes manifestou otimismo para o pós-pandemia.

— Vamos construir um grande calendário de eventos, para celebrar a vida e a cultura — disse o prefeito.

‘Renda na veia’

Entrevistado pela jornalista Flávia Barbosa, editora executiva do EXTRA e do Globo, Paes antecipou detalhes do auxílio emergencial carioca, disse que o momento atual é de solidariedade e afirmou que a rede municipal de saúde, integrada ao SUS, tem sofrido uma pressão grande de outras cidades fluminenses. Pelas suas projeções, se todas as vacinas contra a Covid-19 chegarem nos cronogramas propostos, em cerca de 30 dias, o grupo prioritário de até 60 anos deverá ter recebido a primeira dose do imunizante.

Sobre uma possível ajuda ao comércio devido à perda de faturamento com as restrições ao funcionamento, a prefeitura está analisando um programa existente em Niterói, criado pelo ex-prefeito Rodrigo Neves (o Empresa Cidadã), que oferece incentivos para garantir empregos. Mas Paes não falou em data, citando as limitações de recursos de uma cidade que conta basicamente com receitas próprias de IPTU e ISS:

— Estamos construindo isso (o projeto de incentivos fiscais). Não dá para anunciar detalhes por ser da maior complexidade.

Quanto à solidariedade, Paes foi bem objetivo:

— Tem um conjunto de ações muito importantes. Deixe sua secretária do lar em casa e pague o salário. Se está em casa, faça seu pedido por aplicativo ao bar, ao restaurante. Também doe e ajude. Isso é muito importante. Não tomo medidas para torturar, maltratar a população. Não tem aqui nenhum alarmista. Politicamente seria mais charmoso dizer: curtam a vida.

Sobre o governo federal, apesar de garantir que quer evitar críticas, por “estar numa fase Dudu Paz e Amor”, Paes fez questão de deixar claro:

— É tão óbvio isso. A maquininha está com ele (governo federal). As economias mais liberais estão colocando dinheiro. Não é momento de superávit fiscal. As pessoas estão passando necessidade. É preciso transferência de renda na veia, auxílio emergencial.

Paes defendeu ainda que o Rio aproveite este momento para se consolidar como uma cidade melhor para se viver no período pós-pandemia:

— Somos uma cidade com muitos espaços ao ar livre, que celebra a vida. O Rio tem essa bossa, esse espaço. Espero que seja no fim do ano (o pós-pandemia). A questão é que a cidade tem um problema de narrativa, de percepção. Isso inibe as pessoas, faz com que o setor privado não queira investir. Mas vamos superar — complementou Eduardo Paes.

A aposta do prefeito é na vacina. Ele garantiu que, chegando as doses, a prefeitura está preparada para aplicá-las imediatamente. E lembrou que está participando de consórcios de municípios do Rio e do Nordeste para a compra de vacinas, que serão direcionadas para o Programa Nacional de Imunizações.

Freio na pandemia

Durante a entrevista, ele explicou ainda que as medidas restritivas que serão adotadas a partir de amanhã na cidade têm como objetivo frear o avanço da pandemia e tentar evitar que o sistema público de saúde do Rio entre em colapso:

— Na sexta-feira, a fila da capital por espera de leitos de UTI tinha 40 pessoas. Dessas, só nove moravam na capital. A rede tem seus limites. O objetivo das restrições é dar uma segurada nas ondas.

Paes acrescentou que a intenção é retomar a normalidade a partir do dia 5 de abril. E que será feita uma avaliação não apenas com base na média móvel de mortes, mas também em outros parâmetros.

Especialistas querem regras mais simples para os negócios

Criar um melhor ambiente para investimentos, desburocratizar e reduzir os obstáculos regulatórios foram defendidos pelos participantes do primeiro painel do “Reage, Rio!”, que tratou da “Retomada da economia — Óleo e gás, turismo e cultura”. Os especialistas enfatizaram ainda a necessidade de ter esperança para o pós-pandemia.

Fundador e presidente do Rock in Rio, Roberto Medina defendeu a tese de que é muito barato fazer dinheiro com turismo. E que o Rio tem uma infraestrutura criada pela Olimpíada para receber visitantes.

— Agora é uma questão de sobrevivência. Tem que chamar a Embratur, o Ministério do Turismo. O mais difícil a gente tem — disse ele, no painel mediado por Luciana Rodrigues, editora de Economia.

A necessidade de buscar caminhos para a recuperação foi apontada por Danni Camilo, gestora de alimentos e bebidas e membro do conselho do SindRio. Ela avaliou que a gastronomia, junto com a cultura, estão entre os setores mais atingidos.

O economista Claudio Frischtak destacou que, depois de a cidade ter chegado ao fundo do poço, este é o momento da recuperação. Mas, para isso, é preciso desburocratizar os negócios.

A presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Clarissa Lins, anunciou que, se as condições sanitárias permitirem, o evento anual do setor, que deve reunir até dez mil pessoas em setembro, será feito pela primeira vez no Porto.

Presidente da Associação dos Produtores de Teatro (APTR), Eduardo Barata disse que a pandemia criou novas alternativas de expressão cultural, como eventos virtuais. Segundo ele, essa não é uma solução para o setor, mas a vacinação maciça da população.

O segundo painel, que teve como tema “Foco no social — educação, saúde, segurança e qualidade de vida” —, foi mediado por Rodrigo Gomes, editor executivo do EXTRA. A pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo reiterou que o ritmo da vacinação está muito lento. E que pelo menos 70% da população precisa ser vacinada este semestre ou haverá problemas para reabrir até as escolas em agosto.

Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, Claudia Costin citou estudo do Banco Mundial estimando que o prejuízo acadêmico dos que deixaram de ter aulas presenciais equivale a quatro anos de formação.

Secretário municipal de Planejamento Urbano, Washington Fajardo enfatizou que a pandemia surgiu num momento em que o Rio discute um novo Plano Diretor:

— É a hora de se fazer ajustes para adensar mais o Centro e a Zona Norte.

Fundador do Observatório de Favelas, Jailson de Souza e Silva defendeu a busca de esforços para integrar a cidade formal às comunidades na prevenção da Covid. Já Ilona Szabó, presidente do Instituto Igarapé, lembrou que em todos os países onde o combate da pandemia tem sucesso a coordenação é do governo central, o que não ocorre no Brasil.