‘Vamos estar nos leilões, com o apetite de sempre’, diz presidente da Aegea

RIO — A Aegea, maior operadora de saneamento no setor privado no país, vai disputar o Bloco 3 da Cedae e está de olho em todos os próximos leilões em serviços de água e esgoto a serem realizados no país, afirma Radamés Casseb, diretor-presidente da companhia.

O executivo relata que os investidores estrangeiros questionam pontos como condições de reajustes e ingerência em contratos, como ocorreu com a Linha Amarela, no Rio. São temas que afastam ou postergam aportes no país, avalia. Mas frisa que o capital internacional virá.

A Águas do Rio, concessionária dos blocos 1 e 4 da Cedae, vai começar operações antecipadamente e deve criar, de início, um cinturão de bloqueio ao despejo de esgoto na Baía de Guanabara.

A Aegea pretende entrar no leilão do Bloco 3 da Cedae?

Tínhamos a única proposta efetiva pelo Bloco 3, então seríamos os potenciais vencedores no último leilão (em abril). Em razão da disciplina de alocação de capital acertada com os investidores, nossa opção foi priorizar o investimento no entorno da Baía de Guanabara, nos lotes 1 e 4.

E retiramos a proposta do lote 3. A cada projeto, seja ele revisado ou com transformações, como o Bloco 3 agora, e no interior de Alagoas; Porto Alegre, que se anuncia; Corsan, que dá notícias de que deve lançar um IPO da sua companhia; isso interessa para a Aegea.

Faz parte de uma disciplina que é, primeiro, estudar a fundo todos os negócios. Só ao término é que a companhia vai dizer que está apta a competir nesse ou naquele patamar para cada projeto. Vamos estar nos leilões, com o apetite de sempre.

O Bloco 3 ficou mais atraente na nova formatação?

O time técnico está pegando material das audiências públicas. Aparentemente, não teve tanta variação. Mas o apetite dos investidores pode mudar.

Qual o melhor modelo de concessão?

Para o cidadão, as modelagens deveriam buscar o incentivo a que as pessoas tivessem maior acessibilidade (ao saneamento), buscando tarifas mais baixas e adesão de infraestrutura mais cedo.

Os leilões de concessão nos últimos três anos priorizavam o pagamento de uma outorga para o estado como contrapartida à exploração dos serviços, além do investimento para o cumprimento da cobertura. Não tem modalidade vencedora. A busca deveria ser sempre por acessibilidade plena.

Quando a gente passa para o degrau do investidor, percebe que, com a aprovação do marco (regulatório), o Brasil evoluiu. Ele criou uma trilha de marcadores que o mercado financeiro do mundo inteiro está olhando como atrativos. Vamos ter players internacionais chegando no Brasil e novas companhias apostando e contribuindo para aumentar a competição.

Quais são as preocupações do investidor estrangeiro em relação ao país?

Há perguntas relacionadas a cases que eu chamaria de ordinários, que emitem um sinal de alerta amarelo piscante na atenção dos comitês de risco de investidores, instituições financeiras que os orientam e analistas internacionais.

Há perguntas do tipo: quais são os mecanismos de garantia para que o seu reajuste, a correção inflacionária aconteça? Isso deveria ser um tema corriqueiro no mercado. Mas a gente está vendo, principalmente na pandemia, e talvez tenha se agravado na pandemia, não só em saneamento, mas em todos os setores, um descompasso no cumprimento desses marcadores.

Todo o pacto de infraestrutura no Brasil já gerou um conjunto de jurisprudência. O arcabouço judiciário tem sido uma constante na manutenção do direito contratual. O segundo ponto é (a percepção de que) tem concessão que o gestor público tenta encampar. E aí o exemplo mais recente é o da Linha Amarela (no Rio).

Com um gestor público entrando sobre um ativo, o que fica para os comitês de risco é que o método de solução de conflito não está estabelecido. Marcadores como esse assustam e criam em pessoas inteligentes, que estudam risco, efeitos que resultam em afastamento ou postergação de investimento.

É isso que está acontecendo com o Brasil neste momento. A densidade de projetos — há dez anos nós estávamos em 7% do mercado (de saneamento) ocupados pelo privado, agora estamos com 16% — tem muito para crescer ainda.

Os estrangeiros perguntam sobre turbulência política e questão ambiental?

As perguntas sobre o ambiente político sempre vêm, mas não são mais determinantes que outras. Tanto os empresários que conhecem o Brasil quanto os investidores que já acompanham o país há muito tempo sabem que saneamento vai ser política pública de qualquer governo.

Qual foi o impacto da crise hídrica?

Para contingência hídrica, racionamento, manutenção da disponibilidade, a solução é planejamento. Sentimos mais dor no Centro-Oeste, principalmente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Estamos numa jornada de três anos em que a estiagem vem reduzindo os índices de chuva, e a janela de sazonalidade se movimentou no ano.

Isso teve impactos em diversas cadeias de valor: agricultura, energia. Temos um monitoramento contínuo de condições, com projeções, e logo no início da primeira temporada isso sinalizou que seriam necessários investimentos adicionais para aumentar a oferta de água.

Projetamos para concluir novos reservatórios, perfurar poços em regiões mais afetadas, desenvolver a construção de pequenas barragens de água, que iriam servir, não apenas ao abastecimento, mas para a agricultura local.

Nosso núcleo de eficiência em perdas — que no Brasil são em média de 65% da água captada —acabou evoluindo mais para previsão climatológica e planejamento dos investimentos necessários para suportar esse processo. Temos nas nossas companhias mais maduras um ciclo de eficiência alto, cidades que têm taxas de 18%, 19% (de perda). Essa busca acabou ficando constante.

A operação no Rio vai priorizar áreas com os piores índices?

A gente não queria que o cliente A fosse privilegiado em detrimento do cliente B. Então, as duas Sociedades de Propósito Específico (SPEs) estão divididas em sete sub-regiões. São Gonçalo tem um núcleo específico, a Baixada (Fluminense) foi dividida em duas dessas regiões. O Rio, como cidade, em outras duas.

E as comunidades têm outro núcleo. A primeira vertente é que temos de chegar a esses lugares. A diretoria de comunidades entrou em contato com todas as lideranças anunciando que estamos contratando aqui as pessoas que vão cuidar daqui. A segunda vertente é reconhecimento/regularização do acesso.

Tem um time de 1.200 pessoas, que vai chegar a 2 mil, no programa Vem com a Gente, que é um mutirão de pessoas que vão visitar cada casa das comunidades vulneráveis. O terceiro é o incentivo. O edital pressupunha a meta de chegar a 5% das pessoas do Rio em tarifa social. No nosso plano, a ambição é dobrar.

No Rio, a tarifa média de 15m³ é R$ 60 — essa tarifa de acessibilidade está indo a R$ 18. Haverá situações em que os R$ 18 ainda vão ser muito.

Como será a despoluição na Baía de Guanabara?

Tivemos um ponto de aprendizado na Lagoa de Juturnaíba, na Região dos Lagos. Lá, o grande marcador de desempenho nosso era a mortandade de peixes na Lagoa de Araruama, causada pela baixa oxigenação da água em determinados momentos do ano.

Então, parte da estratégia para o Rio foi a de criar cinturões de proteção, além de recuperar o mais cedo possível as estações de tratamento de esgoto que permitem que a Baía receba algo em torno de 80 piscinas olímpicas de esgoto por dia, segundo especialistas.

Queremos criar um anteparo de bloqueio para a Baía enquanto aceleramos a cobertura de esgoto. Boa parte desses investimentos vai gerar resultados para o cidadão comum, vamos ver vida marinha voltar à Baía.

Como vocês abordam a questão da diversidade?

A gente tem um programa, O respeito dá o tom, que busca ter uma atuação afirmativa para a comunidade em que negros e pardos tenham um patamar acima de 52% na equipe, que é a representatividade deles na população brasileira. Hoje, já estamos em 56%.

E muito com ações afirmativas, contratações, formação por meio da nossa academia, permitindo que as pessoas evoluam nessa cadeia da gestão do processo do ciclo integral da água.

Pensam em criar, a exemplo do que outras empresas fizeram, programas de diversidade racial para a liderança?

A gente já pratica isso há três ou quatro anos. O nosso penúltimo programa de trainees teve 75% de negros e pardos. No atual, que acabou de começar, metade da equipe.

E quanto à diversidade de gênero?

Esse ainda não é um programa instituído. Resolvemos dar ênfase primeiro às ações de raça. Está no ambiente aspiracional, mas a gente quer fazer uma coisa por vez.

Há planos de fazer um IPO?

A história do mercado de saneamento está só começando. Tem muita demanda de investimento ainda. O mercado fala, quando aponta para a necessidade de investimento para cobrir o gap de esgoto e água, em entre os R$ 600 bilhões e R$ 700 bilhões. Mas, para os projetos que estão sinalizados para os próximos três ou quatro anos a estrutura de capital corrente da companhia é suficiente.

Crise hídrica: Operadoras de saneamento buscam água em pequenos açudes e fontes alternativas de energia

A Itaúsa diz querer ampliar atuação no saneamento. Ela tem 10,2% do capital. Pode ter uma fatia maior na Aegea?

Quando a gente fala da estrutura de capital da companhia hoje para os grandes desafios, ter, junto com as duas famílias do Grupo Equipav, o Fundo Soberano de Cingapura e as famílias da Itaúsa a bordo, permite que essa estrutura possa evoluir para suportar saltos aonde for necessário.

Então, no projeto da Águas do Rio, um arranjo nessa estrutura foi feito para as contragarantias e financiamento do ativo. Essa solução pode se replicar para outros projetos.

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