Camponeses peruanos vão a Lima pedir renúncia da presidente

"Vamos à capital fazer ouvir nossa voz de protesto", promete um camponês andino, que se prepara, com centenas de companheiros, para ir de Puno a Lima pedir a renúncia da presidente, Dina Boluarte, após cinco semanas de protestos, que já deixaram 42 mortos.

"Definitivamente, já está acertado (com camponeses de outras regiões): vamos fazer ouvir nossa voz de protesto", disse à AFP Jimmy Mamani, presidente da Associação de Centros Povoados da província El Collao, área aimara da região de Puni, na fronteira com a Bolívia.

Mamani, prefeito da cidade de San Isidro, está entre as centenas de camponeses que percorreriam a partir de hoje o trajeto de 1.350 km que separa sua comunidade da capital peruana. "Vamos entrar pelos quatro cantos de Lima (norte, sul, leste, oeste).  Queremos fazer uma mobilização pacífica, sem inconvenientes", acrescentou.

- 'A marcha dos Quatro Suyos' -

"Será como a marcha dos Quatro Suyos", explica, em alusão à multitudinária marcha de três dias que, saindo dos quatro cantos do Peru em julho de 2000, resultou na queda do regime autocrático de Alberto Fujimori (1990-2000) em novembro daquele ano.

"Não é justo que o Executivo não possa ouvir nossos pedidos. Na verdade, já estamos incomodados, e, a esta altura, dialogar com eles é algo que não é possível", explica o dirigente.

A plataforma de reivindicações é política e se resume a três pontos: renúncia de Boluarte, eleições imediatas e convocação de uma Assembleia Constituinte. O governo já rejeitou estes pedidos.

- A vanguarda no caminho -

Ao menos 3.000 moradores da cidade de Andahuaylas (sudeste), na região de Apurímac, que estavam a caminho de Lima nesta segunda-feira em um comboio de veículos, foram retidos pela polícia no distrito de Humay, província de Pisco (240 km ao sul de Lima), para controles de identidade.

"Somos de Andahuaylas e estamos fazendo esta viagem até a cidade de Lima. A marcha é pacífica, não somos pró-violência, somos agricultores humildes", disse à imprensa um camponês usando um 'chullo' (gorro com protetores para as orelhas). Em Cusco, dezenas de camponeses partiram de ônibus rumo à capital, a 1.100 km de distância.

O governo de Boluarte estendeu o estado de emergência por 30 dias em Lima, Cusco, Callao e Puno para conter os protestos, autorizando os militares a intervirem juntamente com a polícia para manter a ordem pública. Também estendeu por 10 dias o toque de recolher das 20h às 4h em Puno, epicentro dos protestos.

Os bloqueios viários continuavam determinando o ritmo dos protestos. Nesta segunda-feira, amanheceram bloqueados 96 trechos de rodovias em nove das 25 regiões do país.

Na região de La Libertad (norte), pela primeira vez este ano moradores bloquearam com pneus em chamas a rodovia pan-americana norte, que liga Lima a este extremo do país.

Em Puno, dezenas de moradores aimaras bloquearam a ponte internacional-chave, que serve de trânsito para a Bolívia. "Nós vamos marchar até Lima para que se conscientizem, para que o povo seja consciente e que, de uma vez por todas, possamos nos livrar dessa captura do poder econômico do Estado, desse pequeno grupo que não nos representa. Nós não reconhecemos a presidente Dina, nem o Congresso", disse à AFP Richard Acero, 52 anos, morador de Ilave.

- 'Canhões ou manteiga' -

O governo, por sua vez, assegura desde o fim de semana que vai evitar qualquer tumulto em Lima, mas ao mesmo tempo, ressalta que respeita o direito ao protesto e às manifestações pacíficas, proibidas enquanto está em vigor o estado de emergência.

"Temos informação de que estão trasladando cidadãos do interior do país", disse o ministro da Defesa, Jorge Chávez, advertindo que o governo fará o que estiver ao seu alcance para "evitar uma situação de violência".

"Faço um apelo à paz: que estas manifestações sejam realizadas de forma pacífica e que não gerem atos de violência", acrescentou.

Os protestos deixaram ao menos 42 mortos, mais de 500 feridos e cerca de 300 detidos em cinco semanas, segundo a Justiça.

O chefe de gabinete, Alberto Otárola, disse ter proposto estender pontes de diálogo com as regiões rebeldes de Cusco e Puno (sul). "Estamos dedicados a estender pontes de diálogo, especialmente com Puno e Cusco, e estamos certos de que vamos consegui-lo", assegurou Otárola.

Boluarte, uma advogada de 60 anos, assumiu a Presidência em 7 de dezembro depois que o Congresso destituiu seu antecessor, Pedro Castillo, por seu autogolpe frustrado.

Na sexta-feira, a presidente pediu perdão pelas mortes provocadas pela crise e instou os legisladores a acelerarem os trâmites para a realização de eleições antecipadas em abril de 2024.

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