Vantagem de Lula entre eleitores sem religião contribuiu para vitória sobre Bolsonaro, aponta estudo

Em um segundo turno marcado por discursos com apelo religioso por parte do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do atual presidente Jair Bolsonaro (PL), a preferência de eleitores sem religião pode ter sido decisiva para o retorno do petista à Presidência. A conclusão é de um estudo do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, que já havia analisado em 2018 a relevância do voto evangélico na vitória de Bolsonaro. De acordo com o estudo, Lula pode ter aberto uma vantagem superior a 5 milhões de votos para Bolsonaro entre os eleitores que não declararam uma religião específica, o que contribuiu para a vitória do petista na disputa mais apertada desde a redemocratização.

A estimativa do especialista para o desempenho dos candidatos por segmento religioso neste ano considera os percentuais de votos válidos da última pesquisa Datafolha antes do segundo turno, divulgada no último sábado, e também projeções elaboradas pelo próprio pesquisador sobre o crescimento da população evangélica desde o Censo de 2010. À época, o Censo apontou que os evangélicos correspondiam a 22% dos brasileiros, enquanto 8% não tinham religião.

No levantamento divulgado no sábado, o Datafolha apontou Lula com 52% dos votos válidos contra 48% para Bolsonaro, percentuais que se aproximaram do resultado eleitoral, de 50,9% a 49,1%, considerando a margem de erro de dois pontos da pesquisa. Entre os católicos, o instituto identificou que o candidato do PT tinha 59% dos votos válidos, contra 41% para Bolsonaro. Entre os evangélicos, o atual presidente aparecia com 69%, ante 31% do adversário.

No caso dos eleitores que declararam não ter religião, 70% dos votos válidos se destinavam a Lula, segundo a pesquisa Datafolha antes do segundo turno, ante 30% para Bolsonaro. Os percentuais serviram de referência para o demógrafo estimar o número absoluto de votos por segmento religioso, considerando o total de 118,2 milhões de votos válidos no segundo turno, que podem ter se destinado a cada candidato no último domingo.

Nesse grupo de eleitores sem religião, o percentual de votos válidos de Lula mensurado pelo Datafolha na véspera do segundo turno, caso aplicado ao desempenho nas urnas, representaria pouco mais de 10 milhões de votos para o candidato do PT neste segmento, ante 4,1 milhões para Bolsonaro. A vantagem de 5,85 milhões de votos aberta por Lula pode ter compensado, junto à dianteira do petista entre os católicos, a folga mantida por Bolsonaro entre eleitores evangélicos.

No artigo em que analisa as projeções e o resultado, Eustáquio, doutor em demografia pela UFMG, aponta que o crescimento evangélico no país, e a estimativa de que ultrapassem os católicos por volta de 2030, sugerem que o grupo corresponde hoje a cerca de um terço (33%) da população brasileira. Já a presença católica, que vem caindo desde a década de 1980, de acordo com as últimas edições do Censo, é estimada por Eustáquio em cerca de 50% da população.

Mesmo com a vantagem de Lula também os brasileiros com outras religiões, que totalizavam 5% da população no último Censo e são estimados hoje em 6% pelo pesquisador, Bolsonaro manteria uma dianteira de 4 milhões de votos no segundo turno graças à preferência atingida pelo presidente entre os evangélicos.

"Considerando apenas estes 3 grupos, Bolsonaro ganharia as eleições com vantagem de 3,8 milhões de votos. Mas como Lula teve superávit de 5,9 milhões de votos entre o segmento sem religião, isto compensou a vantagem de Bolsonaro nos 3 grupos anteriores e propiciou uma vantagem final de 2,1 milhões de votos no resultado final", analisou Eustáquio.

Com presença recorrente em cultos e cerimônias evangélicas, Bolsonaro buscou consolidar na campanha o apoio de pastores das principais igrejas do segmento, que lamentaram a derrota do atual presidente no segundo turno -- embora, em diversos casos, também já tenham feito acenos de olho numa relação amistosa com Lula.

Lideranças da Igreja Católica, por sua vez, manifestaram críticas durante o segundo turno a tentativas de "exploração da fé para ganhar votos". A frase constou em nota divulgada pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na véspera do Dia de Nossa Senhora Aparecida, cuja cerimônia teve registros de tumulto envolvendo a presença de Bolsonaro -- que já havia despertado críticas ao participar dias antes do Círio de Nazaré.

Apoiadores de Lula, por sua vez, divulgaram durante o segundo turno uma carta em defesa da liberdade religiosa e pregando tratamento respeitoso a "todas as religiões e templos religiosos". Dias depois, o petista divulgou um documento voltado especificamente ao eleitorado evangélico.