Varíola dos macacos: após três casos confirmados no Brasil, é hora de me preocupar?

Neste domingo, o Rio Grande do Sul confirmou o primeiro caso da varíola dos macacos, identificado na capital Porto Alegre — o terceiro no país após os dois primeiros registros em São Paulo. Os pacientes se somam às mais de 1.400 pessoas diagnosticadas com a doença em ao menos 30 países onde a doença não é endêmica, segundo a plataforma de dados da Universidade John Hopkins, Our World in Data. No Brasil, há ainda mais suspeitas em análise.

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Desde o início de maio, esse avanço da infecção causada pelo vírus monkeypox em todos os continentes, e a transmissão local inédita nesses lugares, tem provocado o temor de que uma nova pandemia esteja no início. Porém, especialistas explicam que a realidade não parece ser essa.

Para o infectologista Plinio Trabasso, diretor clínico do Hospital das Clínicas da Unicamp e também professor da universidade, não há motivo para pânico, já que o contágio pela doença não é fácil como o da Covid-19, por exemplo.

— O risco de contaminação no Brasil não é elevado no momento — diz o especialista.

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Isso porque a transmissibilidade da varíola dos macacos é muito menor que a do Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19, além de ter registros de letalidade mais baixa. Na última quarta-feira, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou que não havia ainda mortes entre os mais de mil casos da doença pelo mundo até aquele momento.

Em outra ocasião, a líder técnica para varíola do Programa de Emergências em Saúde da organização já havia afirmado ser improvável que o vírus provoque uma pandemia.

Além disso, o que levou o novo coronavírus a se espalhar pelo mundo de forma tão rápida foi sua alta taxa de contágio. Isso porque sua transmissão acontece pelas vias respiratórias, bastando uma pessoa contaminada sem máscara estar no mesmo ambiente que outras para que o patógeno cause novas infecções.

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No caso da varíola dos macacos, a OMS ressalta que o contágio entre pessoas é raro e acontece principalmente por contato com as lesões causadas na pele, como bolhas, e fluidos corporais. A via respiratória também é uma meio de entrada para o vírus, porém sendo necessário um contato próximo e prolongado para isso, causa da menor disseminação. As formas, portanto, englobam o contato íntimo, com uma série de registros sendo associados a estabelecimentos destinados a encontros para o sexo. Por isso, a OMS alerta para que pessoas com muitos parceiros sexuais estejam atentas aos sintomas.

A varíola dos macacos é uma versão semelhante à varíola erradicada em 1980, embora mais rara, mais leve e com a transmissão entre pessoas mais difícil de acontecer. Dados mostram que os imunizantes utilizados para erradicar a varíola tradicional, em 1980, são até 85% eficazes contra essa versão, com lugares como o Reino Unido já aplicando o imunizante em contatos de pessoas contaminadas e profissionais da saúde.

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O que deve ser feito?

Em maio, o Ministério da Saúde já tornou obrigatória a notificação de todos os casos suspeitos da doença em até 24h para acelerar o monitoramento do cenário epidemiológico no país. Além disso, montou uma sala de situação para traçar "um plano de ação para o rastreamento de casos suspeitos e na definição do diagnóstico clínico e laboratorial para a doença".

— Nesse momento, as pessoas que têm alguma lesão que possa ser da monkeypox devem procurar o atendimento médico para avaliação e realização de exames. A lesão parece uma bolha, que pode começar sozinha no início, mas se espalha pelo corpo. Ela pode ser eventualmente confundida com herpes ou início de catapora, então é importante que a pessoa procure o atendimento para o diagnóstico. Nesse caso, será definida a necessidade do isolamento ou não, que no caso da varíola dos macacos deve durar até a lesão não ter mais as casquinhas — explica a infectologista e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

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Em relação à prevenção, ainda não há uma declaração oficial da pasta da Saúde. Porém, no fim do mês passado, a Anvisa reforçou práticas para serem adotadas em aeroportos e aeronaves, uma vez que são locais fechados com pouco espaço entre as pessoas – e que podem estar retornando de países com incidência maior da varíola. São elas o uso de máscaras, o distanciamento físico “sempre que possível” e a higienização frequente das mãos.

— Isso porque, além de evitar o contato pele com pele, que é a principal forma de transmissão, a máscara também consegue prevenir a infecção pela via respiratória no caso de contato próximo com alguém contaminado — diz Raquel.

Além disso, em entrevista ao GLOBO, o infectologista Julio Croda, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), defendeu a importância de rastrear e testar todos os contatos de pessoas com a varíola para impedir a cadeia de contágio.

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Recomendações para unidades de saúde e sintomas

A Anvisa fez ainda recomendações para as unidades de saúde do país. Entre as medidas, o órgão pede o isolamento de pacientes suspeitos de infecção e o uso de máscaras por quem teve contato com eles. No caso de profissionais de saúde, há ainda a orientação para uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) completo, higienização das mãos, desinfecção de instrumentos médicos e limpeza de superfícies em ambiente hospitalar.

Em caso de sintomas, os especialistas orientam a busca pelo serviço médico o mais rápido possível, assim como na situação de contato com pessoas sintomáticas. O período de incubação do vírus é longo, geralmente de 6 a 13 dias, mas podendo variar de 5 a 21 dias, segundo a OMS, o que pode levar a uma demora para o surgimento dos sinais.

Os sintomas são febre, dor de cabeça, dores musculares e erupções na pele (lesões) como bolhas que começam no rosto e se espalham para o resto do corpo, principalmente as mãos e os pés. A doença costuma apresentar um quadro leve, e as manifestações desaparecem sozinhas dentro de duas a três semanas.

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