A varíola do macaco não é causada pela vacina da Pfizer contra a covid, nem é uma doença autoimune

Publicações nas redes sociais afirmam que um documento do laboratório Pfizer classifica a varíola do macaco como efeito adverso de sua vacina contra a covid-19, com o nome de "doença bolhosa autoimune". O conteúdo circula em pelo menos quatro idiomas desde 24 de maio de 2022 e foi compartilhado centenas de vezes. No entanto, o texto farmacêutico citado não descreve os efeitos de sua vacina, mas sim os problemas médicos teoricamente relacionados a uma imunização. Além disso, especialistas explicaram que a varíola do macaco não é consequência das vacinas contra a covid nem é uma doença autoimune.

“A doença bolhosa autoimune está listada como efeito colateral em documento oficial da Pfizer”, diz uma das publicações compartilhadas no Twitter e no Facebook.

Postagens semelhantes foram feitas em espanhol, inglês e francês.

Captura de tela feita em 1 de setembro de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Documento da Pfizer e eventos adversos

As publicações nas redes sociais mostram uma captura de tela de um documento em inglês, onde lê-se: "5.3.6 Análise Cumulativa de Relatórios de Eventos Adversos Posteriores à Autorização".

Uma pesquisa no Google por essa frase exata levou a um documento da Pfizer e da BioNTech, submetido ao comitê consultivo da Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) sobre sua vacina contra a covid-19, publicado no site da organização sem fins lucrativos Profissionais Médicos e de Saúde Pública para a Transparência (PHMPT, por suas siglas em inglês).

A organização tem como objetivo tornar públicos os documentos da FDA vinculados às vacinas contra a covid-19. Pesquisando no site da PHMPT pelo mesmo número do título do documento (“5.3.6”), constata-se que o texto da Pfizer foi publicado pela organização em 17 de novembro de 2021.

A partir da página 30, o documento lista em um apêndice os eventos adversos de especial interesse (também conhecidos como AESI, na sigla em inglês) da imunização.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um AESI é “um evento médico predeterminado significativo que tem o potencial de ter um nexo causal com uma vacina e que deve ser monitorado de perto e confirmado por estudos específicos adicionais”.

Francesco Salvo, coordenador do monitoramento nacional de segurança de vacinas da Pfizer na França, confirmou à AFP em março de 2022 que o documento viralizado "não é uma lista de efeitos adversos da vacina da Pfizer, mas de eventos que foram definidos por especialistas mundiais em vacinas, antes do início de uma campanha de vacinação, como eventos para monitorar cuidadosamente a priori após a vacinação”.

“É preciso distinguir um evento adverso, que ocorre após a vacinação sem nexo de causalidade, e efeitos adversos, que são eventos com nexo de causalidade com a vacinação”, continuou o especialista.

O apêndice de AESI da Pfizer compila "todos os termos relevantes do dicionário MedDRA usados para codificar eventos adversos em farmacovigilância", detalhou Salvo. Isso explica, em parte, o tamanho da lista. O dicionário contém 70.000 termos e cada problema clínico específico (como infarto do miocárdio) sozinho pode agrupar mais de 200 entradas.

“É como um dicionário hierárquico. Por exemplo, o termo 'urticária de mão' é o termo mais preciso para este evento adverso de interesse especial. Quanto mais avançamos, mais varia essa expressão: passamos para 'urticária', depois para 'reações cutâneas'. Se quisermos [descrever] um evento associado a 10 termos diferentes, usamos os 10 termos. Neste documento, a Pfizer lista todos os termos usados para cada evento”, explicou Salvo.

O que é a varíola do macaco?

Segundo a OMS, a varíola do macaco é uma doença causada por um orthopoxvirus da família poxviridae, transmitida de animais para pessoas e que produz sintomas semelhantes aos observados na varíola comum, embora menos graves.

A varíola do macaco não é uma doença nova, foi descoberta em colônias de macacos em 1958. O primeiro caso humano foi registrado em 1970 na República Democrática do Congo, mais de 50 anos antes do desenvolvimento de vacinas contra a covid-19. Em 2003, ocorreu o primeiro surto fora da África. Entre 2018 e 2021, foram relatados casos no Reino Unido, Cingapura, Estados Unidos e Israel. Em maio de 2022, vários casos começaram a ser relatados em países não endêmicos.

A propagação dessa doença de uma pessoa para outra pode ocorrer através do contato próximo com secreções do trato respiratório, lesões na pele ou objetos recentemente contaminados. A transmissão por gotículas respiratórias geralmente requer contato face a face prolongado. Também pode ocorrer através da placenta da mãe para o feto ou através de contato próximo durante e após o nascimento.

Segundo a OMS, “não há evidência de que o vírus seja transmitido por via sexual”.

De acordo com o Ministério da Saúde, os sintomas mais comuns da varíola do macaco são erupções cutâneas ou lesões de pele, linfonodos inchados, febre, dores no corpo, dor de cabeça, calafrio e fraqueza. O intervalo de tempo entre o primeiro contato com o vírus até o início dos sinais e sintomas costuma ser de 3 a 16 dias, mas pode chegar a 21 dias.

Varíola do macaco não está relacionada a vacinas contra covid-19

Não há razão para afirmar que o surto de varíola do macaco está relacionado às vacinas”, disse David Heymann, professor de epidemiologia de doenças infecciosas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM), à AFP em junho de 2022.

Uma busca por palavras-chave em inglês para os termos "varíola do macaco", "vacina" e "covid" no banco de dados PubMed da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos não resultou em estudos ou registros nos quais se estabeleça uma relação de causa e efeito entre vacinas contra a covid-19, ou outras vacinas, com a varíola do macaco. Por outro lado, há evidências de que a imunização contra a varíola comum oferece proteção contra a varíola do macaco.

O infectologista Román Zucchi, do Sanatório Sagrado Coração da Cidade de Buenos Aires, disse à AFP em junho de 2022 que “não há argumento biológico a favor” da alegação de que a varíola do macaco é uma consequência das vacinas anticovid. “Não é provável nem possível. É impossível", enfatizou.

O especialista explicou que as plataformas das atuais vacinas contra a covid-19 não têm capacidade para “gerar” um vírus, e muito menos um tipo de vírus que não partilha a mesma natureza do SARS-CoV-2, que pertence à família coronaviridae.

A virologista Vivian Luchsinger, acadêmica da Universidade do Chile, concordou: “As vacinas contra o coronavírus não contêm nada relacionado à varíola do macaco; não há possibilidade de uma vacina 'gerar' essa doença. Além disso, são vírus diferentes com distribuição epidemiológica diferente”.

Doença autoimune

De acordo com o serviço de informações de saúde da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, MedlinePlus, uma doença autoimune ocorre quando o sistema imunológico de uma pessoa "ataca erroneamente células saudáveis em seus órgãos e tecidos".

Rafael Bojajil, imunologista da Universidade Autônoma Metropolitana do México (UAM), explicou à AFP que "a varíola do macaco é uma doença viral, não autoimune, muito menos uma doença autoimune bolhosa" e ressaltou que "não tem absolutamente nenhuma relação com a covid-19”.

Segundo o MedlinePlus, existem mais de 80 tipos de doenças autoimunes, enquanto Bojajil explicou que existem várias doenças bolhosas autoimunes: “Quase todas elas se apresentam como diferentes variedades de pênfigo ou penfigoide, doenças raras da pele que causam bolhas.

As doenças autoimunes não podem ser transmitidas e tendem a ser hereditárias.

Os vírus, certos produtos químicos e outros elementos no meio ambiente podem desencadear uma doença autoimune naqueles que já têm predisposição genética a isso. "Existem pessoas com suscetibilidade genética que respondem a algum medicamento (ou vacina), mas esse fenômeno é extremamente raro", acrescentou Bojajil.

A AFP já verificou vários conteúdos falsos e enganosos sobre a varíola do macaco e as vacinas contra a covid-19 (1, 2, 3).