Variante do coronavírus preocupa, mas vacinação não deve ser interrompida, dizem pesquisadores

Rafael Garcia
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SÃO PAULO — Ainda não há dados conclusivos em relação à eficácia das vacinas em uso no país sobre a nova variante do coronavírus em circulação. Mas pesquisadores afirmam que o risco desse subtipo do patógeno atrapalhar a imunidade coletiva não justifica interromper agora a vacinação contra a Covid-19.

O debate sobre a P.1, a linhagem da Covid-19 que emergiu em Manaus e se disseminou na região, se intensificou depois que uma outra linhagem, a B1.351, se mostrou capaz de reinfectar alguns pacientes imunizados com a vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca na África do Sul. No domingo, o país tomou a decisão de interromper a vacinação com o imunizante da farmacêutica anglo-sueca.

Como o imunobiológico da empresa é o mesmo que deve ser usado em maior extensão no Brasil, em parceria com a Fiocruz, e essas duas variantes do vírus têm características genéticas semelhantes, a preocupação foi imediata e compreensível.

— Se estamos vendo essa redução de eficácia da vacina da África do Sul, provavelmente poderemos sim ver algo semelhante com a nossa variante no Brasil — afirma Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, nos EUA.

Garrett diz não crer, no entanto, que a suspensão do uso da vacina de Oxford seria uma estratégia adequada no Brasil.

— Eles não suspenderam a imunização com a ideia de que é melhor parar de vacinar a população. Eles interromperam a vacinação temporariamente para avaliar uma nova estratégia, pois acabaram de comprar 20 milhões de doses da vacina da Pfizer — explica a cientista.

Os sul-africanos avaliam usar a vacina da Oxford/AstraZeneca em áreas rurais, mais isoladas, e aplicar outro imunizante nos grandes centros, onde há presença grande da variante B1.351.

Ainda não há uma pesquisa conclusiva sobre o quanto a vacina Oxford/AstraZeneca gera de imunidade contra o coronavírus P.1, mas a farmacêutica informa que já está fazendo testes.

Cientistas ouvidos pela reportagem ponderam que um dado relevante sobre a resposta do imunizante à variante sul-africana é que ele continua protegendo bem os pacientes contra casos graves, internações e óbitos.

Representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) declararam ontem crer que há “um excesso de pessimismo em relação ao imunizante da Universidade de Oxford/AstraZeneca”.

— Esta vacina é parte importante da resposta global à atual pandemia — enfatizou Richard Hatchett, um dos coordenadores do consórcio Covax, ligado à OMS, que distribuirá o produto. — É absolutamente crucial usar as ferramentas de que dispomos da forma mais eficaz possível.

Reinfecção

Paralelamente à investigação sobre a eficácia das vacinas, em Porto Alegre (RS), cientistas já estudam o soro de pessoas com histórico de infecção por Covid-19 para saber se elas são propensas a contrair as novas cepas caso sejam expostas.

— Estamos testando a imunidade dos pacientes que tiveram coronavírus entre julho e setembro [com a cepa original], depois vamos testá-los contra a P.1 do Amazonas e contra uma nova variante que emergiu aqui no Rio Grande do Sul — diz a imunologista Cristina Bonorino, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

O trabalho da pesquisadora não deve sanar a dúvida sobre se a vacina protege contra a nova cepa do novo coronavírus. Caso a reinfeção seja possível, porém, ela compromete o status de imunidade das dezenas de milhões de pessoas com histórico de infecção no Brasil e que hoje são contabilizadas dentro do quinhão de imunidade de rebanho, fundamental para se saber quando o país voltará à “normalidade”.

Para o infectologista Júlio Croda, ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, a pasta não soube articular neste momento a resposta à emergência da cepa P.1.

— Há pouca informação sobre se ela é mais transmissível ou mais letal — afirmou o especialista, que está nesta semana em Manaus prestando consultoria ao governo local justamente para lidar com a situação.

Para Croda, as pesquisas para avaliar a resposta da vacina à P.1 já deveriam estar prontas, e o Brasil, por sua vez, deveria estar se preocupando também em avaliar a eficácia da CoronaVac, a outra vacina disponível neste momento no Programa Nacional de Imunização.

— Existe uma falha de capacidade técnica do ministério de responder a essas perguntas — diz Croda. — Estamos perdendo muito tempo. Para as duas outras variantes de impacto epidemiológico, da África do Sul e do Reino Unido, já foram feitos pelo menos estudos in vitro.

Vigilância genômica

Outra necessidade apontada pelo infectologista é a de ampliar a vigilância genômica. É preciso sequenciar uma parcela maior de amostras de vírus no país. Hoje o Brasil sequenciou apenas 0,03% das amostras, enquanto o Reino Unido já tem 5% de suas amostras mapeadas.

O GLOBO contatou o Ministério da Saúde e questionou como a pasta avalia proceder diante da situação, mas não obteve resposta até a conclusão da edição.

Segundo os pesquisadores, enquanto não há resposta conclusiva sobre o impacto das novas variantes na campanha nacional de vacinação, é importante que as medidas de distanciamento e contenção do vírus sejam ampliadas. A maior circulação do vírus é um dos motivos da emergência de novas cepas do patógeno.

— Precisamos agora vacinar mais rapidamente o maior número de pessoas, reduzir a transmissão, fazer a vigilância para entender o que está acontecendo com essa nova variante e testar o impacto dessa cepa não apenas na vacina de Oxford mas na CoronaVac também — diz Garrett, do Instituto Sabin.