Vazamento de mais de 1 milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara completa 20 anos

Renato Grandelle
Mancha de óleo na Baía da Guanabara atingiu colônia de pescadores em Jurujuba, Niterói

RIO - Vinte anos atrás, a Baía de Guanabara se tingiu de preto após o rompimento de um duto que liga a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao Terminal da Ilha d'Água, na Ilha do Governador. A mancha de 1,3 milhão de litros de óleo combustível se espalhou por 40 km², destruindo manguezais e invadindo a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim. Além da tragédia ambiental e da miséria dos pescadores, as imagens de animais mergulhados na poluição provocaram comoção nacional.

Especialistas entrevistados pelo GLOBO consideram que o monitoramento da poluição industrial e ações de fiscalização ambiental melhoraram desde então. Os lixões usados pelas prefeituras praticamente desapareceram. A falta de saneamento, porém, ainda é apontada como um problema crônico. O resultado: o poder público não aprendeu a lição, e a Baía de Guanabara hoje é mais poluída do que antes do derramamento histórico.

O vazamento na Baía será tema de um bate-papo este sábado no Museu do Amanhã, no encontro "Óleo na Guanabara - 20 anos", das 11h às 13h30. Inscrições gratuitas no site do museu.

Dias após o vazamento, ambientalistas já afirmavam que o acidente causou alguns danos irrecuperáveis e outros que poderiam ser contidos.

— Era preciso agir o mais rápido possível, porque a barra de óleo tende a afundar, e aí não é mais possível resgatar a substância — recorda Axel Grael, então presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema). — O óleo impregnou rochas do fundo da Baía de Guanabara e matou a vegetação. Algumas regiões só conseguirão se recuperar ao longo de muitas décadas.

Grael destaca que o episódio trouxe "vários aprendizados". À época, o plano de emergência aplicado na Baia de Guanabara era baseado em barreiras de contenção, mas a estrutura não conseguia segurar óleo refinado. Além disso, foi necessário ampliar o monitoramento aéreo do derramamento para orientar as equipes em operação na baía a identificarem as manchas que concentravam mais poluentes.

Outra falha do plano de emergência era a falta de projetos para resgate da fauna. Tampouco houve a noção de que parte de população gostaria de participar da coleta do óleo. Biólogos, técnicos e veterinários também se mobilizaram para salvar as aves marinhas que sobreviveram nas praias tomadas pelo óleo.

— Vimos um contingente de pessoas que se sensibilizaram com o derramamento e se ofereceram para ajudar — lembra Grael. — Tivemos que disponibilizar ônibus para levá-las a Magé e Duque de Caxias, dois municípios atingidos pelo vazamento. Eles atuaram em regiões onde não era necessário contar com mão de obra especializada.

Segundo Grael, no cenário atual, é "impossível" vislumbrar um dia em que a Baía de Guanabara estará limpa. Por mais que o vazamento de óleo já não seja um problema tão expressivo como décadas atrás, o tratamento de esgoto é uma agenda que tem "mais de um século de atraso", e que só tende a piorar, já que o avanço do saneamento básico no municípios do entorno do ecossistema é menor do que o crescimento da população.

Em janeiro de 2000, quando ocorreu o vazamento, Alfredo Sirkis era vice-presidente-executivo do Projeto Onda Azul. Com a tragédia ambiental, ele atuou na transferência de recursos do governo federal para programa de reflorestamento, que geravam renda a pescadores desempregados.

— Magé era a cloaca da Baía de Guanabara, onde a maré levava boa parte do lixo. Foi o município mais atingido e era também o mais pobre — conta Sirkis, que criou, então o Projeto Mangue Vivo, para salvar o ecossistema local. — A primeira medida foi retirar toneladas de lixo da superfície, para depois começarmos o plantio de mudas. Demorou anos até conseguirmos recompor o manguezal. Queríamos transformar a região em um parque, mas por enquanto isso não foi possível.

Sirkis reconhece que o monitoramento do derrame de óleo progrediu, mas o despejo irregular de lixo ainda é um problema visível, assim como o descaso das autoridades com a conservação ambiental da baía.

— Houve recursos suficientes para melhorar as estações de esgoto ao longo desses anos, mas isso não foi feito.