Moro alertou ao MPF falta de prova na acusação e pautou datas de operações

Novas mensagens apontam que Moro alertou sobre falta de provas em uma das denúncias. (Foto: AP Foto/Silvia Izquierdo)
Novas mensagens apontam que Moro alertou sobre falta de provas em uma das denúncias. (Foto: AP Foto/Silvia Izquierdo)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Novo vazamento aponta que Moro supostamente interferiu na peça de acusação do MPF

  • Ex-juiz advertiu ao MPF sobre falta de uma prova, além de agendar operações e opinar sobre delações

Novos diálogos revelados nesta sexta-feira (5) pela revista Veja, em parceria com o The Intercept Brasil, apontam que o atual ministro da Justiça, Sergio Moro, orientou procuradores da força-tarefa da operação Lava Jato a incluir provas na peça de acusação elaborada pelo MPF (Ministério Público Federal).

As mensagens também indicam que o magistrado pautou, enquanto juiz federal, datas para realizações de pelo menos duas operações e fez pressão para que determinadas delações não andassem.

Iniciada dia 9 de junho pelo The Intercept Brasil, a série de revelações de conversas mantidas com procuradores através do aplicativo Telegram aponta supostas interferências de Moro nas investigações da Lava Jato e colocou em xeque a parcialidade do magistrado na condução dos processos.

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Desde então, Moro já esteve nas CCJs (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado e da Câmara para dar explicações dos supostos diálogos. Nas duas ocasiões, o atual ministro da Justiça não confirmou a veracidade das mensagens, atacou os denunciantes, e disse “não ver nada demais” nos diálogos - caso eles sejam verdadeiros, como ressaltou.

Prova faltando

Segundo as conversas trazidas à tona nesta sexta, o chefe da força-tarefa Deltan Dallagnol informou à procuradora Laura Tessler, no dia 28 de abril de 2016, que Moro o alertou sobre a falta de uma informação na denúncia do réu Zwi Skornicki, tornando-a mais robusta.

“Laura no caso do Zwi, Moro disse que tem um depósito em favor do Musa e se for por lapso que não foi incluído ele disse que vai receber amanhã e da tempo. Só é bom avisar ele”, diz Deltan. “Ih, vou ver”, responde a procuradora.

Zwi era representante da Keppel Fels, estaleiro que mantinha contratos com a Petrobras, e apontado como um dos operadores de propina. Skornicki tornou-se delator na Lava-­Jato e confessou que pagou propinas a vários funcionários da estatal, entre eles Eduardo Musa, mencionado por Dalla­gnol na conversa.

Um dia após a conversa, o MPF incluiu um comprovante de depósito de 80 000 dólares feito por Skornicki a Musa. O ex-juiz aceitou a denúncia, segundo a veja, minutos depois do aditamento e, na sua decisão, menciona o documento que havia pedido.

Delação de Cunha reprovada

Um diálogo realizado em julho de 2017 indica que Moro opinou sobre um possível acordo para delação do ex-deputado federal Eduardo Cunha (MDB-RJ). A palavra final para realização de acordos de delação cabe exclusivamente ao Ministério Público, podendo o juiz somente aceitá-la na denúncia ou não.

No dia 5 de julho, procuradores do MPF agendaram uma reunião com Délio Lins e Silva Júnior, advogado de Cunha, para o dia 11. Às 23h11 do dia 5, em uma conversa privada com Deltan pelo Telegram, Moro questiona se os rumores de uma delação de Cunha são verdadeiros.

“Rumores de delação do Cunha...Espero que não procedam”, diz o ex-juiz, segundo a Veja. "Só rumores. Não procedem. Cá entre nós, a primeira reunião com o advogado para receber anexos (nem sabemos o que virá) acontecerá na próxima terça. Estaremos presentes e acompanharemos tudo. Sempre que quiser, vou te colocando a par”, afirma Deltan. “Agradeço se me manter informado. Sou contra, como sabe”, manifesta Moro.

Agendando operações

De acordo com os diálogos revelados nesta sexta, um membro da força-tarefa, que segundo a Veja seria o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, afirma, no dia 7 de julho de 2015, que Moro - identificado entre os interlocutores como Russo - sugeriu datas para a realização de operações por parte do MPF em conjunto com Polícia Federal.

“Igor. O Russo sugeriu a operação do professor para a semana do dia 20”, escreveu Carlos Fernando. O delegado da Polícia Federal Igor Romário responde: “Opa… beleza… Vou começar a me organizar”.

Segundo a revista, o “professor” era o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, da Eletronuclear, preso no dia 28 de julho de 2015, durante a Operação Radioatividade, na 16ª fase da Operação Lava Jato.

Em outro diálogo, ocorrido no dia 13 de outubro de 2015, o procurador Paulo Galvão - identificado nos diálogos como PG - alerta o também procurador Roberson Pozzobon sobre uma orientação de Moro - que novamente aparece como Russo - para a realização de operação, combinando ainda datas de entrega da denúncia.

“Estava lembrando aqui que uma operação tem que sair no máximo até por volta de 13/11, em razão do recesso e do pedido do russo para que a denúncia não saia na última semana. Após isso, vai ficar muito apertado para denunciar”, escreve Paulo Galvão. Pozzobon concorda e acrescenta: “uma grande operação por volta desta data seria o ideal. Ainda é próximo da proclamação da república. rsrs”.

As apurações da revista Veja indicam que a operação referida pelos procuradores em questão foi “Passe Livre”, que prendeu o pecuarista José Carlos Bumlai, que intermediou um empréstimo de R$ 12 milhões do Banco Schahin ao PT em 2004.

Bumlai foi preso em 24 de novembro e denunciado em 14 de dezembro, na última semana antes do recesso da Justiça Federal do Paraná. No dia seguinte, Moro recebeu a denúncia.

OUTRO LADO

Procurados pela revista Veja, Dalla­gnol e Moro alegaram terem compromissos de agenda e não quiseram receber a reportagem pessoalmente, uma condição estabelecida por Veja. Eles solicitaram que os arquivos fossem enviados a eles de forma virtual.

Mesmo sem saber o conteúdo das mensagens, a assessoria do Ministério da Justiça enviou a seguinte nota: “A revista Veja se recusou a enviar previamente as informações publicadas na reportagem, não sendo possível manifestação a respeito do assunto tratado. Mesmo assim, cabe ressaltar que o ministro da Justiça e Segurança Pública não reconhece a autenticidade de supostas mensagens obtidas por meios criminosos, que podem ter sido adulteradas total ou parcialmente e que configuram violação da privacidade de agentes da lei com o objetivo de anular condenações criminais e impedir novas investigações. Reitera-­se que o ministro sempre pautou sua atuação pela legalidade”.

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Entenda o caso das mensagens vazadas pelo ‘Intercept’

A série de reportagens do ‘Intercept’ começou no dia 9 de junho, um domingo. Na primeira leva de matérias, o site divulgou uma série de mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol.

Nessa primeira leva, as acusações contra Moro ficaram por conta de um suposto direcionamento que ele dá para a Lava Jato internamente. Entre outros, o portal apresenta mensagens que mostrariam que Dallagnol duvidada de provas contra Lula, além de colaboração proibida do então juiz com o procurador.

Mais tarde, em 14 de junho, o ‘Intercept’ seguiu suas publicações com mais material contra Moro. Nas novas mensagens divulgadas, há um diálogo horas depois do primeiro depoimento prestado por Lula à Lava Jato.

Neste diálogo, Moro teria proposto ao Ministério Público a publicação de uma nota à imprensa. Nela, haveria conteúdo que esclarecesse o que Moro chama de “contradições” do ex-presidente, no que ele se refere como um “showzinho” da imprensa.

“Vem muito mais por aí”

Em entrevista exclusiva ao Yahoo, o jornalista Glenn Greenwald afirmou que os conteúdos divulgados até então eram “apenas o começo”.

Moro não pode dizer que a reputação dele foi destruída. Mas a aprovação dele caiu dez pontos e ainda vem muito mais coisa por aí, a máscara dele [Moro] vai ser derrubada”, afirmou o jornalista na oportunidade.

Defesa apelou, mas STF manteve Lula preso

Houve a percepção, por parte da defesa do ex-presidente, de que as mensagens divulgadas pelo ‘Intercept’ poderiam ajudar a tirá-lo da cadeia.

O STF decidiu, então, julgar dois habeas corpus pedidos pela defesa de Lula, sendo um deles relativo a Moro e que havia tido sua votação suspensa após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

Foi o próprio Gilmar que, no início deste novo julgamento, na terça (25), pediu que os ministros considerassem a hipótese de, em caso do HC relativo às acusações contra Moro não fosse julgado, o ex-presidente pudesse esperar o julgamento terminar em liberdade.

Os ministros adiaram a votação do HC por entenderem que a série de mensagens ainda não havia terminado e, com isso, não se podia a chegar a nenhuma conclusão sobre possível uso da Lava Jato por parte de Moro contra Lula. Negaram, no entanto, a liberdade proposta por Gilmar e também pela defesa.

Greenwald foi à Câmara e reiterou que Moro chefiava Lava Jato

Na mesma terça (25) em que a defesa de Lula apelava pela liberdade do ex-presidente no STF, Greenwald esteve na Câmara dos Deputados para responder perguntas dos congressistas.

Em audiência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o jornalista a autenticidade do material recebido de uma fonte anônima, fazendo questão de confirmar novamente a autenticidade do material.

"O material já mostrou e vai continuar mostrando que Moro era o chefe da força-tarefa da Lava Jato, que era o chefe dos procuradores. Ele [Moro] está o tempo todo mandando o que os procuradores deveriam fazer e depois entrando no tribunal e fingindo que era neutro. Já mostramos isso, mas vai ter muito mais material ainda", declarou o jornalista no dia.

A audiência pública na Câmara dos Deputados teve a presença principalmente de parlamentares da oposição.

Uma das poucas aliadas de Moro que falaram foi a deputada Policial Katia Sastre (PL-SP), que disse que Greenwald deveria ser preso. "Quem deveria ser julgado e condenado e sair daqui preso é o jornalista, que em conjunto com o hacker cometeu crime", disse a parlamentar.