Com vazamentos na rede e sem reuso, Brasil fica à mercê do clima para evitar falta d'água

(Foto: AFP)

A falta d’água que São Paulo enfrenta neste verão poderia ser quase despercebida se o Estado tivesse investido na construção de estações de reuso de água. O custo é alto, mas é de implantação relativamente rápida. “Uma estação como a do Aquapolo Ambiental permite suprir água para uma cidade como Santos”, afirma Gesner Oliveira, ex-presidente da Sabesp e professor da FGV. A crise vivida por São Paulo não é a exceção, e sim, a regra.

A capacidade do estabelecimento de estações de reuso de água está diretamente ligada à extensão da rede de saneamento básico. Municípios como Santarém e Ananindeua (PA) e Porto Velho (RO) não têm nenhum tipo de tratamento de água e redes de coleta entre 0% e 22% . Segundo a ONG Trata Brasil, o volume de esgotos não tratados nos 100 maiores municípios e retornados aos rios e córregos é o equivalente a mais de 2.900 piscinas olímpicas – cerca de 7.5 bilhões de litros.

O Brasil também praticamente não faz reuso da água. O Aquapolo Ambiental, estação da Sabesp que fica na divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul, é a única do gênero no Brasil. Com o custo avaliado em cerca de R$250 milhões, levou pouco mais de 18 meses para ser construída. Novas estações foram anunciadas pelo governados Geraldo Alckmin, mas elas não estarão prontas antes do fim de 2015.

O engenheiro Renato Rossato, da Rehau Brasil, empresa que produz insumos usados entre outras coisas na construção de estações de reuso, afirma que cerca de metade da água que escorre pelos ralos ainda chega na forma de esgoto sem tratamento aos  rios, córregos e represas de São Paulo. “Tratando pouco mais de um terço disso,  a cidade de São Paulo teria o equivalente a dois sistemas Cantareira”, afirma. O sistema Cantareira, um dos mais afetados pela crise, tem capacidade de fornecer 33 mil litros de água por segundo. Segundo ele, o investimento inicial é alto, mas o retorno é bem maior.

Apesar do Brasil ser o país com maior quantidade de recursos hídricos no mundo (cerca de 8.230 Km3 – mais que o dobro da Rússia, a segunda colocada) o investimento em saneamento e tratamento de água no Brasil é ínfimo (0,1% do PIB, segundo a OMS).

Ainda segundo a Trata Brasil, dos 100 maiores municípios brasileiros, mais da metade não chega a investir 20% da sua receita em saneamento. Nos casos de Nova Iguaçu (RJ), Duque de Caxias (RJ), Juazeiro do Norte (CE), Montes Claros (MG), Porto Velho (RO), Maceió (AL), São João de Meriti (RJ), Vitória da Conquista (BA) e Várzea Grande (MT), esse percentual não passou de 2% entre 2011 e 2012.

O maior sintoma de ineficiência do Estado, contudo, está no montante de água já tratado e desperdiçado por conta dos vazamentos nas redes públicas. A média internacional considerada aceitável é de 10%. Em São Paulo, quase 37% da água tratada não chega ao consumidor, sendo perdida no meio do caminho. No Recife, essa cifra passa de 62% e em Macapá chega a 73%.

Leia mais:

Brasil está muito atrasado em gestão de recursos hídricos, diz consultor

ANA: obras propostas por SP não resolvem crise da água

Demissões e alta de preços: crise hídrica vai além de torneiras secas

Omissão é a marca do regime fiscal e legislação sobre saneamento no país

Os assustadores números de má gestão da água não são percebidos em muitos casos porque os recursos hídricos superam em muito a demanda, como é o caso das cidades na região Norte. 90% dos municípios não fizeram investimento para diminuir as perdas no sistema.

Em 2010, o governo federal estabeleceu metas no Plano Nacional de Saneamento Básico (PlanSab) que previa que, neste ano, a coleta de esgotos atingiria 92% e o tratamento de água alcançaria 86%, mas nenhuma das metas parece possível de ser atingida ainda nesta década.