Veja como falar sobre o coronavírus com crianças e adolescentes

MATHEUS MOREIRA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O novo coronavírus apresenta maior risco para pessoas mais velhas, mas nem por isso causa menos medo e dúvida entre os mais jovens. Com a confirmação de três casos da doença em São Paulo, a ansiedade em relação ao assunto cresceu.

Para o professor de psiquiatria da infância e adolescência da Faculdade de Medicina da USP, Guilherme Polanczyk, a primeira coisa a se fazer diante de situações como a epidemia do novo coronavírus é facilitar o acesso de crianças e jovens a informações precisas e confiáveis sobre a doença. 

Ele explica que é possível que diante de tanta informação, crianças passem a fantasiar sobre o assunto, o que pode levar ao medo e também a segregação entre elas. Ele cita como exemplo outras escolas de São Paulo que, contrariando as entidades de saúde nacional e internacional, pediram que alunos que voltaram de viagens à Itália não fossem para a escola por duas semanas. 

"Eu atendi crianças que viajaram para a Itália e foram orientadas a não ir para a escola, mas essas crianças não tinham nenhum sintoma, nada. Nas escolas é preciso ter um manejo sensível, porque as crianças mais sensíveis ou que estão em momento de desenvolvimento podem ficar mais assustadas. É importante abordar essas fantasias, perguntar o que elas imaginam que vai acontecer e tentar as tranquilizar com dados da realidade", diz.

COMO FALAR SOBRE CORONAVÍRUS COM CRIANÇAS

Antes de tudo, informe-se e controle seus próprios medos

As crianças precisam ter acesso a informações confiáveis. Para isso, os adultos precisam estar preparados para responder às dúvidas, desmentir boatos e não aumentar a ansiedade delas

Pergunte o que a criança sabe a respeito

É possível que as crianças escutem fragmentos de informações. Ela pode ter ouvido que as pessoas no mundo todo estão morrendo ou o fato de que a doença parece com uma gripe, e isso vai definir os rumos da conversa para acalmá-la

Diga a verdade e sem alarmismo

Fale com elas sobre o coronavírus de forma clara e simples. Explique que o coronavírus parece com uma gripe nova que as pessoas estão pesquisando ainda e que as pessoas mais afetadas têm sido as mais velhas

"E se o vovô ou a vovó ficarem doentes?"

É bom lembrar que o Brasil só tem dois casos até agora, e os pacientes estão em boas condições, em casa. A maioria das pessoas (80%) se recupera da doença sem nenhum tratamento especial. E se acontecer com eles, um(a) médico(a) vai ajudá-los a se curarem também, então não é preciso ficar com medo

Dê atenção aos medos da criança

Demonstre que está escutando e que está tudo bem em ter medo. Acolha a criança para que ela se acalmar, explique que ela que está segura e diga para ela sempre procurar a família em caso de dúvida. Não valorize informações dos amiguinhos ou que recebeu pelo WhatsApp

Conte histórias de superação

Lembre que mesmo os brasileiros que estavam na China voltaram para cá e não ficaram doentes, e um radialista americano disse que mesmo com a doença não se sentiu tão mal: não tinha dores, não ficou com nariz entupido e às vezes tossia

Valorize a higiene como prevenção

Enfatize que a melhor forma de prevenir a doença é lavar bem as mãos e evitar esfregar os olhos ou colocar a mão no rosto, nariz e boca. O CDC (órgão de saúde americano) diz que a lavagem das mãos deve ter a duração da música "Parabéns a você" cantada duas vezes. E diga que não é preciso usar máscaras

Desencoraje qualquer tipo de preconceito

Lembre as crianças que elas não podem discriminar ninguém por causa da doença --especialmente os asiáticos, por exemplo, que sofreram mais preconceito

As escolas particulares da capital paulista criaram programações especiais para levar informações sobre o vírus aos alunos e evitar o pânico.

O Colégio Solução, em Itaquera, programou para a quinta (5) e sexta (6) um "Dia D" sobre o coronavírus, segundo Daniela Maia de Alencar, diretora pedagógica da instituição.

"Os alunos estão sendo bombardeados por um monte de informações e escutando coisas que não são verdade, por isso é necessário falar sobre o assunto na escola. Também é importante aproveitar esse momento para falar sobre notícias falsas", diz.

As escolas particulares da capital paulista criaram programações especiais para levar informações sobre o vírus aos alunos e evitar o pânico. 

O Colégio Solução, em Itaquera, programou para a quinta (5) e sexta (6) um "Dia D" sobre o coronavírus, segundo Daniela Maia de Alencar, diretora pedagógica da instituição. 

"Os alunos estão sendo bombardeados por um monte de informações e escutando coisas que não são verdade, por isso é necessário falar sobre o assunto na escola. Também é importante aproveitar esse momento para falar sobre notícias falsas", diz. 

Pais levam filhos para a escola usando máscaras protetoras em Bangcoc, na Tailândia. Organização Mundial da Saúde recomenda que apenas pessoas infectadas ou que tenham contato com doentes utilizem máscaras Lillian Suwanrumpha/AFP Pais levam filhos para a escola usando máscaras protetoras em Bangcoc, na Tailândia. Organização Mundial da Saúde recomenda que apenas pessoas infectadas ou que tenham contato com doentes utilizem máscaras      Uma das medidas adotadas pela escola foi ampliar o estoque de álcool em gel para o caso de haver falta do produto em mercados e nos fornecedores. Além disso, em comunicado a ser enviado para o país nesta quarta (4), o Solução reforça o pedido para que cada estudante tenha sua própria garrafa de água, medida cujo objetivo é evitar que os alunos tenham contato direto com os bebedouros. 

As atividades programadas para o fim da semana serão adaptadas para cada etapa de ensino. "Com a educação infantil faremos a abordagem de uma forma simplificada. As professoras vão perguntar o que os alunos têm visto na TV e tentar entender o que eles sabem, além de mostrar como lavar bem as mãos. O foco para essa etapa será a higienização", explica Alencar.

A partir do Ensino Fundamental I, os estudantes participarão de atividades que vão da elaboração de cartazes a palestras sobre contágio e prevenção de doenças infecciosas. Segundo Alencar, o colégio está preocupado em falar também sobre os vírus de forma geral. Há planos, inclusive, para um "Dia D" contra a Dengue na semana seguinte.

É o que as escolas do Grupo A Educacional, Aprendendo a Aprender e Horizontes, que ficam na zona Oeste de São Paulo, estão fazendo. 

Ambas as escolas enviaram para pais de alunos um comunicado com as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e ações adotadas pelo grupo para a prevenção contra o vírus. 

"Estamos transformando as regras em ensinamento usando cartazes e buscando mostrar que a máscara é só para quem está contaminado ou tem contato com alguém doente. Em casos de alunos que estejam com qualquer doença infecciosa, não só o coronavírus, informamos aos pais que desenvolvemos pedagógicos para que eles não tenham perda de conteúdo caso precisem faltar por dez ou quinze dias", diz.

No Horizontes, alunos do 1º ano do ensino fundamental até os do 3º ano do ensino médio tiveram aula prática dos cinco momentos da higienização das mãos, orientação da OMS para profissionais da saúde e adaptáveis ao dia a dia. 

Lista      Sandra de Oliveira Campos, professora de infectologia pediátrica da Unifesp, indica explicar apenas o essencial para as crianças com até cinco anos de idade. "Diga que é uma doença, um resfriado novo que muita gente pegou e que por isso os jornais estão dando a notícia, para que mais ninguém fique doente. Por isso têm que lavar as mãos e comer bem", sugere.

Os pais têm um papel fundamental em momentos como esse, em especial quando crianças que já começam a entender a morte temem que seus pais fiquem doentes. De acordo com Campos, os pais precisam dar o exemplo. "Os pais têm que deixar as crianças seguras. 'Quando falo para você lavar as mãos antes de comer e depois de ir ao banheiro é porque eu também faço isso. Como eu e você tomamos cuidado, nós vamos ficar bem' [simula]." 

Quando o assunto são os avós, o ideal é dizer que eles requerem mais cuidados ainda. "Evite levar as crianças para visitar pessoas mais velhas que estejam doentes ou mesmo quando as crianças estiverem doentes. Sugira ligar ao invés de visitar", afirma. 

Valéria Valenza, orientadora educacional do Colégio Palmares, em Pinheiros, diz que os alunos não têm demonstrado preocupações alarmantes e que compreendem as medidas de saúde tomadas pelos órgãos responsáveis. Segundo Valenza, o tema tem sido tratado em aulas de ciências da natureza como química, física e biologia. 

O colégio recomenda em comunicado que pais de estudantes acompanhem os boletins sobre o coronavírus da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. 

As ações adotadas pelas escolas citadas estão de acordo com as sugestões de Polanczyk sobre como tratar o tema. O psiquiatra explica que as instituições de ensino devem indicar as diretrizes dos órgãos de saúde e se ater a elas, pois o risco de gerar pânico é grande. 

"Essas situações podem reforçar as fantasias de crianças de que algo excepcional está acontecendo, além de segregar aquelas que estão fora da escola [por terem voltado de viagem do exterior]. Isso espalha o medo, a sensação de que algo muito grave vai acontecer", diz. 

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo instaurou na segunda-feira (2) o que chamou de "Semana D da prevenção ao coronavírus". O objetivo é até a sexta (6) promover trabalhos e atividades pedagógicas que contribuam para conscientização sobre contágio e prevenção contra o vírus. 

Além disso, uma videoconferência será realizada com as 91 diretorias de ensino para capacitação de profissionais.