Veja como Mbappé cada vez mais divide protagonismo no PSG com Neymar

Bruno Marinho
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As cartas sempre foram colocadas à mesa de maneira transparente: Neymar queria um lugar para ser o astro-rei e o Paris Saint-Germain se dispôs a recebê-lo nessas condições. Quem já estava no time antes, como Cavani, perdeu protagonismo, e quem chegasse depois, como Mbappé, teria de saber lidar com o papel de coadjuvante.

O que não é possível acertar previamente é o imponderável das lesões, das atuações, dos gols decisivos, dos títulos. É justamente quando essas variáveis entram no bolo que os papéis deixam de ser exatamente aqueles combinados, ainda que nas entrelinhas. Cada vez mais, o clube francês é a casa de dois astros de grandezas mais parecidas.

O último episódio que reforçou isso ocorreu na terça-feira, quando o PSG foi até Barcelona enfrentar o time catalão. Os lamentos gerados pelo desfalque de Neymar, mais uma vez fora de uma fase decisiva da Champions por causa de lesão, se emudeceram a cada gol de Mbappé. Foram três na goleada por4 a 1.

O placar choca. O hat-trick dentro do Camp Nou, mais ainda, mas a escalada de Mbappé rumo ao topo da pirâmide ocupado por Neymar é gradual. Vem de antes do baile contra Messi. Os números do francês são muito parecidos com os do brasileiro na temporada até aqui. Com uma diferença: um se destaca pelo improviso, o outro, pela constância.

—Mbappé é menos genial, mas é mais regular que o Neymar. Ele tem crescido no coração da torcida e perante a diretoria — afirmou Éric Frosio, repórter do “L’Equipe” e da revista “France Football”: — Ela está atrás da família dele, quer renovar o contrato. Neymar já disse que fica. O Mbappé ainda não está definido.

Passa pela permanência o reconhecimento financeiro, por parte dos dirigentes franceses, de que a distância entre Neymar e Mbappé não é a mesma de quando o francês foi contratado, em 2017, uma promessa em ascensão para jogar ao lado do terceiro melhor jogador do mundo, atrás apenas de Messi e Cristiano Ronaldo. De lá para cá, Mbappé, além da regularidade construída no Parque dos Príncipes, foi campeão do mundo fora dele, na Copa da Rússia.

— Mbappé está ainda na sombra de Neymar, mas está se aproximando. Para alguns, já é capaz de assumir o papel do Neymar, que está lesionado, que faz festas, que às vezes não está tão concentrado no futebol. E tem o carinho por Mbappé ser francês — frisou Frosio.

Por enquanto, o histórico dentro do Paris Saint-Germain ainda pesa a favor de Neymar. Em campo, ele é a referência técnica, a solução que o time procura, que assume a responsabilidade da bola decisiva, da jogada que pode definir o jogo. Mbappé conseguiu voar sozinho no Camp Nou na terça, mas em 2019, quando Neymar desfalcou o time no confronto com o Manchester United, pelas oitavas de final, o francês não deu conta da responsabilidade.

Foi também o camisa 10 brasileiro, não o 7 francês, quem chamou para si o protagonismo de levar o PSG à primeira decisão de Champions de sua história, em agosto passado, contra o Bayern de Munique. Vitor Sérgio Rodrigues, comentarista do canal TNT Sports, não pensa duas vezes antes de dizer: Neymar está uma prateleira acima do companheiro de ataque:

— Até o jogo contra o Barcelona, o debate na França era que o Mbappé precisava aparecer em um jogo grande sem o Neymar. Para mim, está muito claro quem é o protagonista. A própria cobrança por resultados é maior sobre Neymar. Se for ver em números, Mbappé aparece muito bem, muito porque Neymar tem quase metade dos jogos fora pelo PSG. Mas em momentos de definição, foi Neymar quem acabou com o jogo.

Bom para o time é que os dois jogadores parecem lidar bem com os papéis que desempenham e suas transformações ao longo dos três anos e meio de parceria. Neymar e Mbappé possuem a humildade de companheiros que trocam assistências a todo momento, que se dão bem no vestiário mesmo com personalidades distintas — o brasileiro festeiro não se choca com o francês centrado. Que eles contrariem a máxima de que só existe lugar para um rei.