Veja onde ocorreram os maiores saques dos quase R$ 226 milhões da folha secreta do Ceperj

Dados obtidos pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) revelam que, em um único dia, uma mesma agência bancária de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, somou retiradas que ultrapassaram meio milhão de reais para remuneração de mão de obra contratada por prazo determinado pelo Ceperj, fundação do governo do Rio investigada por manter uma suposta folha de pagamentos secreta relativa a projetos como o Esporte Presente e a Casa do Trabalhador, em parceria com outras secretarias do estado. Na agência 65 do Bradesco de Campos, apontam os promotores, os saques em espécie alcançaram R$ 538.450,47 apenas em 13 de junho deste ano. Um dia depois, foram mais R$ 536.807,29 retirados em dinheiro.

Nesta quarta-feira, a Justiça do Rio determinou que Ceperj e estado interrompam imediatamente essas remunerações, bem como as contratações temporárias, sem que haja prévia divulgação dos dados em portal eletrônico. Segundo os promotores do MPRJ, os pagamentos desse pessoal contratado ocorria "na boca do caixa" de agências do Bradesco, somando um total de quase R$ 226,5 milhões em todo o estado. A agência com maiores volumes de retirada é justamente a de Campos, com um total de R$ 12.108.620,95. A cidade conta, por exemplo, com pelo menos 17 núcleos do Esporte Presente, segundo dados do site do projeto. O município abriga também uma Casa do Trabalhador, inaugurada em agosto do ano passado, com a presença de autoridades locais e do governo fluminense.

Já a segunda agência com maiores quantias sacadas em espécie é a 406, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, com um total de R$ 7,15 milhões. Em seguida, aparecem agências de Barra Mansa (cerca de R$ 5,16 milhões), Duque de Caxias (quase R$ 5 milhões), Bangu, na Zona Oeste do Rio (R$4,46 milhões), Volta Redonda (R$ 4,1 milhões) e Nilópolis (R$ 3,9 milhões).

A realização de saques de dinheiro em grande volume, "constitui nítida afronta às normas de prevenção à lavagem de dinheiro", diz o MPRJ. "A realização de saques 'na boca do caixa' que, no agregado, representem o levantamento de quase R$ 226,5 milhões de reais em espécie implica em um volume incomensurável de dinheiro oriundos dos cofres públicos circulando 'por fora' do sistema financeiro, cuja efetiva destinação será impossível de verificar", continua o texto.

Segundo os dados de uma planilha fornecida pelo Bradesco aos promotores, o Ceperj emitiu 91.788 ordens bancárias de pagamento apenas no ano de 2022, nas quais 27.665 pessoas físicas foram favorecidas. O documento aponta ainda uma expansão progressiva da “folha de pagamento secreta” em função do aumento do volume de mão de obra remunerada por meio das ordens de pagamento bancário ao longo de 2022.

Em janeiro deste ano, as ordens bancárias somavam cerca de R$ 13 milhões. Em julho, já eram mais de 430% superiores, chegando a aproximadamente R$ 69,1 milhões. Nesse meio tempo, em 11 de março deste ano, um dia após o evento oficial de lançamento do Esporte Presente, o site do Ceperj divulgava que seriam 900 núcleos de atividades físicas e que, na época, 50 mil pessoas já eram atendidas por aulas gratuitas de esporte ou dança, com material esportivo gratuito. Hoje, os números apresentados pelo site do projeto são maiores: 2 mil núcleos, com mais de 73 mil alunos.

Na análise dos planos de trabalho de cinco dos projetos do Ceperj, a maior previsão de contratação de pessoal era justamente a do Esporte Presente, com 8.640 profissionais. Já a Casa do Trabalhador e os respectivos projetos Agentes de Trabalho e Renda e Agentes de Empregabilidade demandariam 7.037 contratados. O terceiro projeto que previa mais pessoal era o Cultura para todos, com 1.251, seguido pelo Observatório do Pacto RJ, com 827.

Este último projeto, por exemplo, é resultado de uma cooperação institucional entre a Fundação Ceperj e Secretaria estadual de Governo, para realizar pesquisas de acompanhamento, monitoramento e avaliação dos impactos do Programa Pacto RJ, um pacote de investimentos do governo que inclui 682 ações, da reforma de estações do teleférico do Complexo do Alemão a pequenas obras em praças e ruas de cidades do interior, com previsão de investimentos na ordem de R$ 15,37 bilhões.

Para o Observatório, a lista de profissionais que o plano de trabalho previa tinha desde analistas de projetos e pesquisadores até cientista social, estatístico, cientista de dados e designer, entre outros.

As investigações do Ministério Público ocorreram após uma série de reportagens do site UOL apontando a existência da folha de pagamentos secreta. Sobre a decisão da Justiça desta quarta-feira, o Ceperj informou que, tão logo intimado, o Estado avaliará as medidas judiciais cabíveis.

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