Veja quem são os novos ministros e quem assume novas pastas após reforma de Bolsonaro

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Pressionado pelo Congresso e irritado com o que julga ser uma falta de alinhamento de setores militares ao governo, o presidente Jair Bolsonaro realizou na segunda-feira a primeira reforma ministerial da gestão. De uma única vez, mudou o comando de seis pastas, em um movimento que abriu as portas da articulação política para o Centrão e rifou o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que, segundo o presidente, não defendia o governo. No Itamaraty, Ernesto Araújo deixou o cargo, após inviabilizar a relação com deputados e senadores. Outro que não terá mais assento nas reuniões ministeriais é José Levi, demitido da Advocacia-Geral da União (AGU) após se recusar a assinar uma ação em que a União questionava a conduta de governadores na pandemia.

Veja quem são os novos ministros e quem assume novas pastas após reforma de Bolsonaro:

A deputada Flávia Arruda (PL-DF), mulher do ex-governador José Roberto Arruda e aliada do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), assumirá a Secretaria de Governo, responsável pela interlocução com o Congresso. Flávia é integrante do PL, comandado por Valdemar Costa Neto, um dos principais líderes do Centrão. O partido possui 40 deputados e três senadores.

A pasta não tem recursos, mas uma das principais funções está fazer junto aos ministérios a liberação de emendas parlamentares, além de recursos extras que o governo eventualmente oferece para apadrinhamento por deputados e senadores.

A entrega da articulação política do governo ao centrão sela o fim do discurso que elegeu Bolsonaro em 2018 contra o “toma lá, dá cá”. Após o movimento de aproximação realizado no ano passado com o temor de um processo de impeachment, o presidente já tinha no mês passado entregue ao grupo a pasta da Cidadania, com a indicação de João Roma, deputado federal pelo Republicanos.

O delegado da Polícia Federal deixa o cargo de secretário de Segurança Pública do Distrito Federal para entrar no governo Bolsonaro. Aliado da bancada da bala, Torres é amigo de fieis escudeiros do presidente, como Jorge Oliveira, que era secretário-geral da Presidência e hoje está no Tribunal de Contas da União (TCU), e o ex-deputado Alberto Fraga, além de cultivar relação pessoal também com dois filhos de Bolsonaro, o senador Flávio (Republicanos-RJ) e o deputado Eduardo (PSL-SP).

O novo ministro, aliás, conhece Bolsonaro desde a época da Câmara. Ele trabalhou como assessor do ex-deputado federal Fernando Francischini, período em que se aproximou de Bolsonaro por conta das pautas defendidas pela chamada Frente Parlamentar da Segurança Pública, nome formal da bancada da bala.

Torres é considerado um policial com visão linha dura, na linha do bolsonarismo, mas envolvido com as pautas corporativistas das polícias, o que pode reaproximar do governo as categorias — uma base de apoio importante para o Bolsonaro, mas que dá sinais de insatisfação.

Em outra frente, o novo ministro terá a missão de mostrar serviço na área da segurança pública, além de embasar os movimentos do presidente em torno de temas espinhosos, como liberação de armas e uso da Lei de Segurança Nacional contra adversários, caso tenha de seguir a linha de André Mendonça, que deixou a pasta para voltar a comandar a Advocacia-Geral da União (AGU).

General quatro estrelas da reserva, Luiz Eduardo Ramos é amigo pessoal de Bolsonaro e exercia, desde 2019, função de articulador entre o Poder Executivo e o Congresso Nacional na Secretaria de Governo. No antigo cargo foi alvo de reclamações do centrão desde o ano passado.

A mudança de cargo dá poder ao general, que atuará como coordenador das ações do governo e fará o alinhamento dos trabalhos desenvolvidos em outros ministérios. Além disso, passarão por ele as propostas enviadas por Jair Bolsonaro ao Poder Legislativo.

A troca, porém, teve como principal obletivo abrir espaço para que os políticos tomem conta das negociações com o Congresso.

Alinhado a Bolsonaro, o general quatro estrelas sai da Casa Civil para assumir a Defesa com a missão de enquadrar as Forças Armadas ao pensamento de Bolsonaro, segundo integrantes da instituição. Ao anunciar que deixaria o cargo, antes que presidente fizesse o anúncio, Azevedo e Silva disse que saiu “na certeza da missão cumprida”, sem explicar o motivo da demissão, mas ressaltando que “nesse período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado”.

O tom do texto, segundo militares, expôs a pressão que o ministro vinha sofrendo de Bolsonaro. O presidente já vinha demostrando uma insatisfação com o Ministério da Defesa, pois quer das Forças Armadas um maior alinhamento ao governo.

Braga Netto, trabalhou como interventor federal na segurança pública do Rio de Janeiro até o fim de 2018, quando assumiu a função de chefe do Estado-Maior do Exército até fevereiro de 2020, quando foi para o governo. Também atuou como coordenador do comitê de crise para supervisão e monitoramento dos impactos da covid-19.

Na última semana, ele causou irritação e constrangimento entre integrantes do governo que despacham no Palácio do Planalto ao sair de férias no pior momento da pandemia. Durante a estadia em Maceió (AL), Braga Netto teve um mal súbito e foi hospitalizado.

André Mendonça volta para a AGU, cargo que ocupou até abril do ano passado. Ele vai substituir José Levi, demitido por Bolsonaro. O presidente ficou incomodado, porque o Levi não assinou a ação que o Executivo ingressou no Supremo Tribunal Federal (STF) para impedir governadores de adotarem medidas restritivas de circulação durante o agravamento da pandemia da Covid-19. O pedido, apresentado há dez dias, levou a assinatura apenas de Bolsonaro.

Mendonça se alinha ao pensamento do presidente. O ministro é o responsável pelos pedidos de abertura de investigação contra opositores de Bolsonaro com base na Lei de SeGurança Nacional. Ele também foi o autor habeas corpus em favor do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, no inquérito sobre fake news no Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido visava suspender a convocação de Weintraub para depor na Corte por ter afirmado em reunião ministeriall que deveriam se colocar "vagabundos na cadeia" e "começando pelo STF".

Segundo o colunista Lauro Jardim, a volta de Mendonça para a AGU não muda os planos de Bolsonaro de indicá-lo ao STF, em maio, para a vaga que será aberta com a aposentadoria de Marco Aurélio Mello.

Aos 57 anos, o embaixador Carlos França, ex-chefe do Cerimonial do Planalto, vai substituir Ernesto Araújo no ministério das Relações Exteriores. França, que hoje é assessor direto do presidente, foi, assim como seu antecessor, uma indicação de Eduardo Bolsonaro.

Apesar de ter sido promovido a embaixador por merecimento, o diplomata nunca assumiu uma embaixada. A falta de experiência é apontada por colegas como um possível obstáculo – e uma fragilidade, diante da influência do filho do presidente nessa área.

França, no entanto, foi o preferido entre os congressistas, e surgiu como alternativa a Luis Fernando Serra, embaixador do Brasil em Paris, cuja indicação enfrentou resistência interna e externa., por ser um “bolsonarista linha dura” e ser chamado, por alguns colegas, de "viúva do regime militar". Fontes do Itamaraty afirmaram que França foi entre os nomes da casa considerados por Bolsonaro, “a opção menos ruim” e mais afeita à tradição da pasta.

Diplomatas que conhecem o embaixador asseguram que ele é “uma pessoa conciliadora, com bom trânsito no Congresso”. Alguns esperam, portanto, uma recomposição rápida do vínculo entre o Ministério das Relações Exteriores e o Legislativo.