Vendas do comércio caem 1,3% em setembro, maior queda para o mês desde 2000

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As vendas do comércio varejista recuaram 1,3% em setembro, na comparação com agosto, de acordo com dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) divulgados nesta quinta-feira. É uma retração menor do que a registrada no mês passado, quando o setor tombou 4,3% — conforme revisão divulgada nesta quinta-feira (dia 11) —, mas reflete a dificuldade do setor diante do cenário macroeconômico desafiador. A retração foi a maior para um mês de setembro desde 2000, quando começou a série histórica.

O resultado veio bem abaixo do esperado. Analistas ouvidos pela Reuters projetavam recuo de 0,6% no mês. Com o resultado, o setor acumula alta de 3,9% em 12 meses.

— Esse segundo mês de queda vem com intensidade razoável, mas em menor amplitude que agosto. (...) Desde fevereiro de 2020, o setor vive muita volatilidade — analisa o gerente da PMC, Cristiano Santos.

Entre as oito atividades pesquisadas, somente o segmento de artigos farmacêuticos não apresentou queda, com ligeiro avanço de 0,1%.

O recuo no segmento de hiper e supermercados, dado o seu peso na composição, foi o que mais puxou para baixo o indicador de vendas no varejo, com queda de 1,5%. Mas há outras influências negativas.

O setor de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação, amargou queda de 3,6%, seguido de móveis e eletrodomésticos com queda de 3,5% e combustíveis e lubrificantes com retração de 2,6%.

No comércio varejista ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, o volume de vendas caiu 1,1% em setembro. O segmento de veículos, motos, partes e peças teve queda de 1,7%, enquanto o material de construção recuou 1,1%.

O comércio tem buscado driblar uma série de desafios durante a reabertura econômica. Enquanto o setor lida com a alta do dólar e entraves logísticos, a inflação ao consumidor acelera e já chega a 10,65% em 12 meses.

Com o aumento nos preços de itens básicos como alimentos e energia pressionando o orçamento das famílias, o ímpeto do consumo vem sendo reduzido. A receita nominal (sem descontar a inflação) das atividades do comércio, na passagem de agosto para setembro, mostra que as famílias vêm gastando menos, diz Cristiano Santos.

— Essa explicação do fator inflação vem com mais clareza em algumas atividades, como combustíveis, hipermercados e outros artigos de uso pessoal e doméstico. E no, varejo ampliado, em veículos, motos, partes e peças — explica o analista.

Na tentativa de conter a inflação, o Banco Central tem subido a taxa de juros básica, a Selic, hoje em 7,75% ao ano. E a perspectiva dos analistas é que a taxa chegue a pelo menos dois dígitos em 2022.

Com efeito colateral na economia, os juros elevados encarecem o crédito aos consumidores, reduzindo o fôlego para o consumo. Santos explica que o processo de elevação dos juros por parte do Comitê de Política Monetária (Copom), já é sentido no varejo:

— O saldo da carteira de crédito, tanto de pessoa física quanto de pessoa jurídica, estabilizou nos últimos meses. E essa estabilidade do crédito (indica que), falando (da perspectiva) do consumo das famílias, elas não tem como expandir seu gasto no comércio por meio do crédito — analisa Cristiano Santos.

Especialistas avaliam que o avanço da vacinação tende a reduzir as restrições à mobilidade e aumentar a confiança dos consumidores. Por outro lado, o desemprego elevado e a escalada da inflação desafiam a resiliência do comércio.

Índice de Confiança do Comércio (ICOM), do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, subiu 0,1 ponto em outubro, ficando em 94,2 pontos, o que indica estabilidade.

"A confiança do comércio acomodou em outubro. (...) O cenário para o setor ainda se mostra desafiador com a confiança do consumidor em patamar muito baixo, incerteza elevada, avanço da inflação e recuperação lenta do mercado de trabalho”, disse Rodolpho Tobler, coordenador da pesquisa, em comentário durante divulgação do relatório.

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