Vendas do varejo frustram previsões e despencam 6,1% em dezembro, no pior resultado para o mês em 20 anos

O Globo
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RIO — O varejo continuou a perder o ritmo na reta final de 2020 e fechou dezembro com queda de 6,1%, já com ajuste sazonal, na comparação com novembro, que foi de -0,1%, depois de seis altas seguidas. É a queda mais intensa para um mês de dezembro de toda a série histórica, iniciada em 2000. Os dados são da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada hoje pelo IBGE.

No acumulado do ano, apesar do resultado negativo dos últimos dois meses, houve crescimento, com alta de 1,2%.

No comércio varejista ampliado, que inclui vendas dos setores de automóveis e material de construção, houve recuo de 3,7% em relação a novembro. No ano, fechou em queda de 1,5%.

Os resultados vêm bem abaixo do estimado pelo mercado. Segundo projeções compiladas pelo Valor Data, em dezembro, a previsão era de desaceleração tanto no contexto restrito quando no ampliado, de 0,6% e 0,8%, respectivamente, em consequência ao corte no auxílio emergencial e a alta da inflação.

No ano, a estimativa era de alta de 1,7% nas vendas do varejo restrito e de 1,1% no ampliado.

Altos e baixos

Para o comércio, 2020 foi um ano em ritmo de montanha-russa. Com o início da pandemia em março e a suspensão de atividades por pelo menos dois meses em grande parte do país, o resultado em vendas tombou no segundo trimestre.

“Os resultados da pesquisa costumam ter variações menores, mas com a pandemia, houve uma mudança deste cenário, já que março e abril tiveram quedas muito grandes”, explica o gerente a pesquisa Cristiano Santos.

Após o início da reabertura do comércio, a partir de maio, houve retomada de vendas, sustentadas ainda pela digitalização dos negócios, com uso de novos canais de distribuição, como delivery e retirada de produtos em loja.

A partir de setembro, porém, quando o auxílio emergencial foi reduzido à metade, o crescimento mensal nas vendas do comércio passou a apresentar desaceleração. Neste início de ano, com a suspensão do benefício, o impacto no varejo já chegou às prateleiras dos supermercados.

Segundo Santos, o resultado de dezembro é um reposicionamento natural de desempenho do setor, já que o patamar estava muito alto com a recuperação das vendas em outubro e novembro. No momento em que houve flexibilização social, o comércio chegou a ultrapassar o patamar pré-pandemia, de fevereiro.

Analistas já esperavam que o comércio perdesse fôlego no fim do ano. As vendas da Black Friday, em novembro, seguida pela de Natal, em dezembro, não foram suficientes para equilibrar a alta taxa de desemprego e o impacto da redução e do fim do auxílio emergencial.

Com a queda do poder de compra da população e a dependência da vacina em massa para a retomada do mercado de trabalho e de serviços, o comércio deve permanecer em baixa por todo o primeiro trimestre, segundo especialistas.

A retração, porém, só não será mais expressiva porque, mesmo com a redução no consumo, os preços dos alimentos continuam a puxar a inflação e algumas famílias contam ainda com o rendimento de poupança para gastar.

A inflação subiu 0,25% em janeiro e perdeu fôlego em relação ao mês de dezembro, segundo dados divulgados pelo IBGE nesta terça-feira. O recuo é resultado da adoção da bandeira amarela na tarifa de energia elétrica e menor pressão dos alimentos, aliviando o aumento dos combustíveis que puxou a alta do índice. A gasolina respondeu por quase metade da inflação em janeiro, com 0,11 ponto percentual da alta de 0,25% no índice.

Na quinta-feira, o IBGE divulga o índice de dezembro e o acumulado de 2020 dos serviços. O setor foi o mais atingido pela pandemia e o que mais demora a reagir, especialmente por causa da dependência de circulação nas ruas e contato pessoal, como serviços domésticos, em salões e bares e restaurantes.