'Vendemos uma mentira', diz ex-lobista do Uber que vazou milhares de documentos da empresa

O lobista Mark MacGann, que liderou esforços do Uber para superar restriçÔes legais ao serviço de compartilhamento de viagens do aplicativo em países da Europa, Oriente Médio e África, apresentou-se nesta segunda-feira como a fonte do jornal britùnico The Guardian no vazamento de milhares de documentos confidenciais da empresa.

O caso, que jĂĄ ficou conhecido como “Uber Files” (arquivos do Uber), envolve a revelação de detalhes da estratĂ©gia global de lobby do Uber para vencer obstĂĄculos regulatĂłrios em diferentes paĂ­ses. Os documentos revelaram, por exemplo, como o atual presidente da França, Emmanuel Macron, atuou para reduzir as resistĂȘncias ao modelo de negĂłcio da empresa na França, alvo de protestos de motoristas tĂĄxi na dĂ©cada passada. Na Ă©poca, Macron era o ministro da Economia do paĂ­s.

Em entrevista ao Guardian publicada na tarde de segunda-feira, MacGann, de 52 anos, diz que decidiu entregar ao jornal mais de 124 mil arquivos do Uber por acreditar que a empresa conscientemente contornou leis, violando as prerrogativas das licenças de taxistas em dezenas de países com argumentos enganosos sobre os benefícios que motoristas teriam ao aderir à sua plataforma.

MacGann admite que, entre 2014 e 2016, foi integrante de um grupo de altos executivos da Uber envolvidos numa agressiva estratégia de lobby. Ele supervisionou os esforços para persuadir governos em 40 países a mudar as leis que davam exclusividade ao serviço de passageiros aos tåxis, o que hoje considera um erro. E não se exime de culpa. Ao contrårio, diz ter agido agora motivado em parte por uma espécie de remorso:

— Eu sou parcialmente responsável — afirmou: — Eu era a pessoa conversando com os governos, fui o que levou o tema à mídia, que disse às pessoas que elas deveriam mudar as regras porque os motoristas iriam se beneficar e ter mais oportunidades econîmicas.

O executivo avalia hoje que suas promessas feitas em nome da empresa nĂŁo se concretizaram:

— Na realidade, vendemos Ă s pessoas uma mentira. Como alguĂ©m pode ter a consciĂȘncia tranquila se nĂŁo se levantar e admitir a contribuição que deu para que as pessoas fossem tratadas como sĂŁo hoje?

Na entrevista ao Guardian, ele se diz arrependido de ter integrado a equipe de lobistas da empresa, que, segundo ele, distorceu fatos para ganhar a confiança de motoristas, consumidores e elites políticas.

Os dados vazados por MacGann deram origem a uma investigação do Guardian em conjunto com um grupo de veículos de outros países por meio do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), do qual o espanhol El País e o americano The Washington Post fazem parte.

O Uber sustenta que mudou sua conduta nos Ășltimos anos. ApĂłs a revelação de que MacGann Ă© a fonte do Guardian, a empresa afirmou ao jornal: “Entendemos que MacGann tenha arrependimentos pessoais sobre os seus anos de lealdade inabalĂĄvel Ă  nossa liderança anterior, mas ele nĂŁo estĂĄ em uma posição que possa falar com credibilidade sobre o Uber hoje”.

ApĂłs a primeira reportagem do Guardian sobre os documentos, no domingo, Jill Hazelbaker, porta-voz do Uber, reconheceu "erros" e "passos em falso”, mas afirmou que o Uber mudou completamente a forma como opera em 2017, depois de enfrentar processos judiciais de alto nĂ­vel e investigaçÔes do governo americano que levaram Ă  demissĂŁo de altos executivos, entre eles o fundador do Uber, Travis Kalanick. A empresa tambĂ©m informou que 90% dos seus atuais funcionĂĄrios foram admitidos apĂłs essa renovação.

Riscos

Os documentos revelados indicam que Kalanick minimizou os riscos a motoristas do Uber durante protestos violentos contra a plataforma na França, em 2015. Ao contrĂĄrio, indicou que ataques poderiam de alguma forma ajudar a empresa a ganhar simpatia da opiniĂŁo pĂșblica.

Um porta-voz de Kalanick negou as acusaçÔes em um comunicado ao Washington Post, dizendo que o executivo “nunca sugeriu que o Uber poderia tirar vantagem da violĂȘncia Ă s custas da segurança de seus motoristas”.

Os escĂąndalos e tropeços do Uber nos Estados Unidos – de espionagem de funcionĂĄrios pĂșblicos a vazamentos sobre o mau comportamento de seus executivos – tĂȘm sido objeto de livros, sĂ©ries de televisĂŁo e investigaçÔes jornalĂ­sticas.

Os arquivos incluem e-mails, mensagens de texto, apresentaçÔes de empresas e outros documentos que datam de 2013 a 2017, quando o Uber estava invadindo cidades desafiando as leis e regulamentos locais, evitando impostos e buscando subjugar o serviço de tåxi, principalmente, mas também a ativistas sindicais.

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