Venezuela enfrenta maioria na OEA disposta a mediar sua crise

Cristina García Casado.

Washington, 28 mar (EFE).- O governo da Venezuela está diante de uma maioria de países na Organização dos Estados Americanos (OEA) determinada a encontrar "soluções diplomáticas" para mediar a crise política e social do país, apesar da rejeição frontal de Caracas.

Vinte países dos 34 membros ativos da OEA (Cuba não participa desde 1962) pactuaram nesta terça-feira uma declaração conjunta na qual se comprometem a concretizar um roteiro "no menor prazo possível" para "apoiar o funcionamento da democracia e o respeito ao Estado de Direito" na Venezuela.

O texto, ao qual a Agência Efe teve acesso, tem apenas três pontos e não inclui as reivindicações de fixar um calendário eleitoral, libertar "presos políticos" e respeitar as decisões da Assembleia Nacional da Venezuela - de maioria opositora -, que, por outro lado, estão contidas na declaração conjunta de 14 países divulgada na quinta-feira passada e que hoje não foi votada.

A esses 14 países - Brasil, Canadá, Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Estados Unidos, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai - se somaram no texto de hoje Jamaica, Santa Lúcia, Barbados, Bahamas, Belize e Guiana, que permitiram em uma votação anterior que essa sessão fosse realizada, apesar da oposição da Venezuela.

O texto dos 20 não foi submetido à votação na reunião de hoje porque é apenas o alicerce de uma resolução mais concreta que estará pronta nos próximos dias e, que se for aprovada, estabelecerá um mecanismo de acompanhamento da situação na Venezuela.

A situação foi explicada aos jornalistas pelo embaixador mexicano na OEA, Luis Alfonso de Alba, a quem foi atribuída a liderança do grupo de países "preocupados" com a Venezuela, que passaram de 14 a 20 em poucos dias.

De Alba foi, junto com os representantes de EUA, Canadá e Paraguai, o mais crítico com a Venezuela, um país onde considera que há uma alteração da "ordem democrática" e falta de respeito aos direitos humanos.

Sua proposta, sobre a qual agora deverá convencer o resto do grupo, é que a OEA analise periodicamente, com prazos não maiores que um mês, a situação na Venezuela e a evolução dos diferentes esforços de mediação que aconteçam entre o governo e a oposição.

Seus comentários lhe valeram uma dura resposta por parte do vice-ministro venezuelano para América do Norte, Samuel Moncada, nomeado ontem novo embaixador na OEA em substituição de Bernardo Álvarez, falecido no último mês de novembro.

"A Venezuela necessita de um grupo da OEA tanto quanto o México necessita do muro", alfinetou Moncada, em referência ao muro que o presidente dos EUA, Donald Trump, mandou construir na fronteira com o México e que abriu uma crise sem precedentes entre ambas nações vizinhas.

Essa foi só uma das duras críticas que Moncada foi lançando país por país após ouvir as intervenções de todos os Estados sobre a Venezuela.

De Alba foi o mais contundente ao levantar-se de seu assento e dizer que, se a Venezuela não cessasse em seus ataques aos demais países, ele abandonaria a sala, algo que foi aplaudido por várias delegações.

A Venezuela, e seus grandes aliados na OEA, Bolívia e Nicarágua, argumentam que em vários países do continente há violações de direitos humanos e da democracia com as quais o organismo não parece se importar.

Moncada criticou, por exemplo, que o governo do Brasil "seja fruto de um golpe de Estado" e instou a Colômbia a "parar a produção de cocaína" se realmente quiser ajudar à Venezuela.

Ambas partes, tanto a Venezuela como os países que querem mediar sua crise, deixaram claro que a sessão de hoje é só o início de uma queda de braço na qual nenhum dos dois lados está disposto a ceder. EFE

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