'A Venezuela está em seu leito de morte'

AP Photo/Ariana Cubillo

Por Mariana Diniz Lion

Hugo Chávez sonhava com um modelo socialista à Brizola – molde onde o governo interviria em setores específicos da economia, como petróleo e energia. Defendido por diversas personalidades midiáticas, assim como ainda hoje é defendido no Brasil, esse “socialismo moreno” visava controlar preços e salários, além de extensos gastos com programas sociais – tudo isso sustentado com dinheiro do petróleo. Quando o valor do barril de petróleo começou a cair, a Venezuela passou a imprimir mais dinheiro para manter a sua estrutura populista e, ao longo do tempo, gerou uma aterradora hiperinflação. Hoje, artesãos das ruas de Caracas usam bolívares para fazer objetos de dobradura – o dinheiro já não vale mais nada.

A sorte de Chávez foi ter desencarnado e deixado para seu sucessor – Maduro – as consequências sórdidas de suas políticas. Mas isto não faz de Maduro uma vítima, muito pelo contrário. O sucessor de Chávez reagiu controlando ainda mais os preços, gerando já em 2013 a escassez de produtos essenciais.

Supermercados, farmácias, fábricas de papel higiênico, varejistas de eletrônicos, e outras instalações eram invadidas pelo governo, seus bens confiscados para garantir “o abastecimento adequado ao povo venezuelano” e os empresários e comerciantes eram presos pelo regime. Tudo o que era confiscado era colocado à disposição do povo venezuelano – que no maior estilo soviético, só poderia comprar bens essenciais uma vez por semana, e para tanto enfrentava longas filas quilométricas. Grandes veículos como a Bloomberg e a BBC fizeram reportagens extensas sobre esse período, e apesar de toda a tentativa de repressão do governo Maduro, conseguiram denunciar ao mundo as atrocidades por que passavam os venezuelanos.

Até mesmo medidas completamente descabidas foram tomadas por Maduro em seu desespero: criou um “Ministério da Suprema Felicidade Social” para gerir as políticas sociais deixadas por Chávez. Adiantou o Natal em um mês para “agradar à população”.

Claro que, a partir deste momento, a população revoltou-se e passou a protestar contra o governo. Em 2014, a repressão violenta do governo Maduro deixou dezenas de feridos, uma estimativa de quase 200 mortos desde o início das manifestações e o líder da oposição, após período foragido, foi encarcerado. Não há remédios e nem recursos hospitalares. Não há mais Direitos Humanos na Venezuela, pois os ciclos humanitários acompanharam os ciclos econômicos em seu declínio.

No ponto mais crítico do regime até então, em 2016, as pessoas já reviravam as latas de lixo em busca de comida, alimentavam-se de animais domésticos e saqueavam lojas para matar a fome, perdendo cada pessoa, em média, 11 quilos neste período, conforme apontam pesquisas – e o mais angustiante é que toda esta miséria já era uma tragédia anunciada: basta acompanhar economistas austríacos e a crítica liberal ao modelo monetário do socialismo para ver que, profeticamente, todas as previsões com base na lógica se provaram reais no caso prático da Venezuela.

Finalmente ontem, o Itamaraty comunicou não reconhecer a mais recente reeleição de Maduro, alegando ilegitimidade e pouca credibilidade em todo o processo supostamente democrático, que na verdade oculta uma série de fraudes em defesa do regime autoritário.

Um dia o mundo fechou os olhos para as atrocidades que aconteciam na Alemanha de Hitler. O mundo fechou os olhos para as atrocidades de Lênin e de Stalin. Fechou os olhos para Pol Pot, fechou os olhos para Kim Jong-il e até hoje os fecha para Kim Jong-un. A comunidade global não pode mais fechar os olhos para a ausência de liberdade que foi perpetrada por diferentes governos ao longo dos anos, e que nos é negada até hoje, em diferentes níveis.

A verdade é que a Venezuela agoniza e resiste, a duras penas, enquanto Maduro assiste ao seu povo [literalmente] morrer à mingua, equiparando-se aos tiranos mais sanguinários que já passaram pela história da humanidade.

E, se você “é do Levante e está com Maduro” (como dizia a paródia patética gravada por brasileiros apoiadores do descabido regime venezuelano), suas mãos estão igualmente manchadas de sangue.