Ventos de rebelião sopram do leste da Alemanha contra medidas restritivas

Por Mathieu FOULKES
Munique em 23 de maio de 2020

A chanceler Angela Merkel enfrenta o início de uma verdadeira rebelião no leste da Alemanha, onde querem suspender a maioria das medidas para conter a pandemia de COVID-19, apesar das preocupações persistentes.

A partir de 6 de junho, a obrigação de usar uma máscara e respeitar a distância física será parcialmente eliminada na Turíngia, um estado regional da ex-RDA, pouco afetada pela pandemia, com 1.800 casos confirmados e 152 mortes, segundo dados oficiais.

Essa decisão local entra em conflito com o governo Merkel, que pretende estender as medidas de distanciamento social até 5 de julho, de acordo com um protocolo ao qual a AFP teve acesso nesta segunda-feira, que será discutido nesta semana com os 16 estados regionais.

"Não estou dizendo para as pessoas começarem a se abraçar ou tirarem suas máscaras para se beijarem", disse Bodo Ramelow, líder da extrema esquerda na Turíngia. Mas não é "lógico" manter restrições, já que metade dos distritos da região não registrou nenhum novo infectado nas últimas três semanas, argumentou.

No entanto, esse estado, um dos menos densamente povoados do país, poderá aplicar um plano de reconfinamento se em uma semana atingir o número de 35 novos infectados por 100.000 habitantes. Além disso, o uso de máscaras pode continuar sendo obrigatório nos transportes públicos.

- Novos focos -

A Turíngia foi imitada nesta segunda-feira pela vizinha Saxônia, também pouco afetada pelo coronavírus, com 205 mortes e cerca de 5.000 casos registrados oficialmente.

O anúncio de um retorno à normalidade foi recebido friamente no resto da Alemanha, preocupada com uma eventual segunda onda pandêmica, que mancharia um saldo bastante positivo em relação a outras nações europeias, tendo contido o número de mortes em pouco mais de 8.250.

"O que ele faz (Ramelow) não é algo corajoso, mas estúpido", observou furiosamente o jornal conservador Die Welt.

Na manhã desta segunda-feira, por videoconferência, os líderes da CDU, partido de Merkel, denunciaram um "sinal devastador".

"Em nenhum caso deve-se projetar a impressão de que a pandemia terminou", alertou o ministro federal da saúde, Jens Spahn.

Embora a tendência geral seja de um recuo na pandemia, o ministro lembrou que continuam a existir "focos locais e regionais em que o coronavírus se espalha rapidamente, exigindo intervenção imediata".

Em Frankfurt, cerca de 107 fiéis de uma igreja batista foram infectados nos últimos dias.

Em Leer, no norte do país, 18 clientes de um restaurante foram infectados assim que foi reaberto em 15 de maio.

- "Corrida" pelo desconfinamento -

Apesar de enfrentarem há três semanas um gradual desconfinamento, outras regiões alemãs também não acolhem as iniciativas da Turíngia e da Saxônia.

À frente da Baviera, a região mais atingida pelo coronavírus, o conservador Markus Söder vê nesse levantamento total das medidas restritivas um "sinal fatal".

"Na Baviera, fomos particularmente afetados por termos uma fronteira com a Áustria. (...). Não quero que ela seja infectada novamente como resultado de uma política negligente realizada na Turíngia", também na fronteira com a região, alertou Söder, que se tornou uma das personalidades mais populares da Alemanha e possível sucessor de Angela Merkel em 2021.

Membro da coalizão governista, o Partido Social Democrata (SPD) teme que uma "corrida" de desconfinamento comece entre diferentes regiões, a fim de retomar a economia em recessão e restaurar as liberdades públicas.

A Turíngia e a Saxônia, onde a extrema-direita é poderosa, também correm o risco, segundo o chefe de Saúde do SPD, Karl Lauterbach, de "dar a impressão de se curvarem" aos manifestantes de extrema esquerda e defensores da teoria das conspirações, contra as restrições.