Vera Fischer: 'Vivi coisas demais, mas não estou pronta. Nem como atriz, nem como mulher'

Aos 71 anos, Vera Fischer tem uma peça para entrar em cartaz amanhã, um medalhão de São Jorge pendurado no pescoço, olhos azuis que se enchem de água quando fala dos filhos, um gatinho para dividir a casa, orquídeas para regar na varanda, uma pilha de livros na cabeceira da cama, uma baita fé no governo que está iniciando, e planos, planos e mais planos — Vera Fischer tem um longo caminho pela frente:

— Eu não estou pronta. Vivi muitas coisas, vivi coisas demais, mas não estou pronta. Nem como atriz, nem como mulher. E isso é bom, é sinal que tenho muito pra experimentar, pra aprender — diz a atriz, sentada em uma poltrona azul na plateia do Teatro Prudential, no bairro carioca da Glória. — Te digo uma coisa: tenho zero problema com a minha idade. Tenho 71 anos, sim, e tô muito de boa com isso. Com 20 anos eu era mais velha, hoje sou uma garota cheia de energia.

“Quando eu for mãe, quero amar desse jeito” é a peça com que, depois de circular por várias cidades do país, Vera volta ao Rio, nesta sexta. Escrita por Eduardo Bakr e dirigida por Tadeu Aguiar, a peça mostra a relação quase nunca fácil — quase sempre violenta e cruel — entre Dulce Carmona (Vera), uma mãe possessiva, seu filho (Mouhamed Harfouch) e sua nora (Marta Paret). Vera diz que a personagem não é exatamente como ela, mas vê muitos pontos comuns entre as duas:

— Ela tem ironia, sarcasmo, humor, pode ser selvagem ou dócil, é uma mulher imprevisível. Gosto de pensar que posso ser assim também — conta a atriz, que tem surpreendido um público que muitas vezes espera ver no teatro a Vera romântica das novelas de televisão. — Quem espera ver uma Helena do Manoel Carlos, ou aquela mulher gostosa e sedutora dos filmes do cinema, se surpreende ao ver a minha versão serpente no palco. Eu precisava dessa serpente.

O autor da peça, Eduardo Bakr, diz que Vera reinventou o papel que ele mesmo criou:

— Eu escrevi imaginando uma mulher mais velha, fizemos testes com atrizes assim, mas, quando a Vera leu o texto pela primeira vez, com toda aquela energia, deu uma outra face à personagem. Tinha que ser ela.

A peça deveria estrear em maio de 2020, e a pandemia chegou quando os cenários já estavam prontos. Encaixotaram tudo. Ficou para janeiro de 2022. Entre uma data e outra, Vera fez lives encenando textos clássicos, se meteu na cozinha (onde experimentou receitas malucas que misturam abacate e gorgonzola), leu à beça, fez um filme a convite de Cleo (“Me tira da mira”), cuidou dos filhos (Rafaela do casamento com Perry Salles e Gabriel do casamento com Felipe Camargo), cuidou da casa, cuidou das plantas, cuidou de si — incluindo aí uma artrose nos quadris e nos joelhos, fruto de muitos ensaios e treinamentos em 55 anos de carreira.

— Isso eu posso botar na conta da Deborah Colker — diz ela, rindo, contando que a coreógrafa é uma parceira querida e constante em suas preparações. — Ela “fubrecou” meu joelho.

O joelho fubrecado é uma espécie de medalha da entrega da atriz a seus personagens. Joelho, pé, coluna, pescoço. Ossos do ofício. Estreou no teatro em 1983 com “Os desinibidos”, peça de Roberto Athayde encenada por Aderbal Freire-Filho. Tremeu no início, teve pavor de chegar ao centro do palco, mas arrumou coragem para ficar. Comeu pelas beiradas. Não saiu mais. Fez Shakespeare, O’Neill, Tennessee Williams. Sempre no centro.

A vida inteira foi assim. Quando decidiu sair de casa, em Blumenau, para disputar concursos de miss, já foi assim. Centrada. Chegou a Miss Brasil em 1969. Quando topou fazer pornochanchadas, a mesma coisa. “A superfêmea”, de 1973, estourou as bilheterias. Vera aparecia hipnótica em cartaz desenhado pelo craque Benício que hoje é peça de colecionador. Foi parar na TV, em que estreou em 1979, com “Espelho mágico”.

— Eu tinha que fazer bem feito, tinha que me garantir, as pessoas desconfiavam daquela garota que tinha sido Miss Brasil e feito pornochanchada. Fiz cinema, televisão, até chegar no palco. Ali eu me encontrei. No palco eu adquiri outras propriedades, percebi que tinha voz, entendi o poder da minha voz — conta a atriz, que, depois de décadas, não tem mais contrato fixo com a Globo.

A independência é também a marca da nova peça. Pensada, produzida e encenada em época de vacas magras para a cultura, o espetáculo não tem patrocínio. Vera diz que encarou o desafio como deu. Transformou elenco e produção em família. Fez café na coxia. Carregou caixa. Pendurou cortina. Pagou transfer do próprio bolso. Ajudou a pregar tábua no cenário. Fez de “um tudo” — mas espera que a partir de agora as coisas sejam um pouco diferentes.

— Estou ansiosa com o novo governo. Eu vi o povo brasileiro, em toda sua pluralidade, colocar a faixa no presidente. É isso que eu espero. Um Brasil plural, uma cultura plural, políticas que deem emprego a ator, marceneiro, figurinista, bilheteira, iluminador, produtor. Tudo. A cultura é uma indústria que gera emprego, paga imposto, movimenta a economia muito mais que outros setores — diz a atriz, que aposta na força da Lei Aldir Blanc e da Lei Paulo Gustavo para alavancar novos projetos. — Ter o Ministério da Cultura de volta, ter um presidente que fala em cultura em seus discursos, isso já é uma imensa alegria. A cultura brasileira é outro patamar.

Vera se levanta de sua poltrona azul, esquece do joelho fubrecado, e começa a fazer alongamento no chão de carpete do teatro com a desenvoltura e elasticidade de uma contorcionista de circo. Ela conta que está sempre desse jeito, se alongando, preparada e aquecida para cada passo em sua vida. No mais, quer que o futuro seja vibrante, quente e cheio de tempero.

— Não gosto de nada morno, não gosto de nada sem tempero. Sou da pimenta. A vida pode estar nos pequenos detalhes. Quando preparo um gim tônica, por exemplo, sempre dou um jeito de colocar uma pimentinha ali. As coisas ficam bem melhores com pimenta, sabe como é?