Vera Magalhães: Afinal, qual o 'teto' de Bolsonaro nas pesquisas?

Em fevereiro de 2018, um título em revista semanal de informações cravava: “Bolsonaro bate no teto e agora tem uma encruzilhada pela frente”.

O político, até então ainda sem partido para disputar a Presidência, tinha alcançado 20%. Na ocasião, cientistas políticos diziam que alguém com seu perfil não tinha como ultrapassar aquele patamar sem mudar seu discurso.

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Bolsonaro até adotou um verniz moderador do discurso — uma das incontáveis vezes em que o fez nos últimos anos. Chamou Paulo Guedes para o barco e passou a se vender, vejam só, como liberal na economia.

Mas não foi isso que o fez furar sucessivamente o teto que insistiam (insistíamos) em lhe colocar sobre a cabeça antes de vencer a eleição.

Sim, a facada foi determinante para que os prognósticos de teto fossem para o espaço. Mas reduzir a quebra de análises ao 6 de setembro não dá conta do fenômeno, e o risco maior seria analistas voltarmos a incorrer nesse erro agora.

Todos os indicadores de sucessivas pesquisas parecem sugerir que Bolsonaro está perto do seu teto na busca pela reeleição. Eles também aparecem no levantamento do Ipespe para a XP divulgado nesta segunda-feira. Vejamos:

O presidente tem 30% na pesquisa espontânea, 35% na estimulada e de 36% a 41% em diferentes cenários de segundo turno. Ou seja: o que ele agrega de eleitorado entre um “degrau" e outro das sondagens é pouco, e sempre insuficiente para que haja chance de vitória.

Os indicadores de rejeição também vão no mesmo caminho: 58% dizem que não votariam nele de forma alguma, o que limitaria, levando o dado a ferro e fogo, seu “teto" a 42% (próximo do seu melhor desempenho de segundo turno, aliás).

O que, então, tornaria um erro de análise prever um teto para Bolsonaro? Tenho me debruçado sobre esse aspecto menos negativo da trajetória do presidente porque ele já se mostrou um ponto fora da curva do que a história das eleições e a ciência política são capazes de atestar em termos de viabilidade eleitoral.

O simples fato de se manter tão competitivo diante dos atentados diários que faz ao próprio processo eleitoral, dos dados da economia real e da gestão da pandemia já ditam cautela.

Mas também elementos das pesquisas recomendam prudência. Falei sobre a distância não tão grande na rejeição de Bolsonaro e Lula analisando a última pesquisa Ideia para o Pulso.

Por fim, há o fato de que Bolsonaro parece não enxergar limites na sua atuação com vistas a não deixar o poder, e isso vale para expedientes governamentais em busca de votos e também para a constante ameaça de não reconhecer o resultado do pleito caso lhe seja desfavorável.

Nunca um presidente chegou à própria convenção quando teve possibilidade de se reeleger em desvantagem nas pesquisas. Dilma Rousseff tinha 38% em julho de 2014, de acordo com o Datafolha. Lula tinha 44% neste período de 2006, de acordo com o mesmo instituto. E Fernando Henrique marcava 40% em julho de 1998. Os três foram reconduzidos, só FH no primeiro turno.

Mas nenhum deles contou com a possibilidade de distribuir recursos fora do prazo estabelecido pela lei eleitoral, nem ignorou as barreiras fiscais para anunciar benesses que podem estourar o cofre logo mais — a última dessas peripécias foi Bolsonaro anunciar a extensão do Auxílio Brasil de R$ 600 para 2023.

Convém banir o vocábulo teto

Por tudo isso e pela lição amarga de 2018, convém banir o vocábulo teto ao acompanhar a curva de Bolsonaro nas pesquisas. Até porque o de gastos e o do decoro do cargo ele já tratou de mandar pelos ares há tempos.

A pesquisa Ipespe fez 2.000 entrevistas telefônicas a nível nacional entre os dias 20 e 22 de julho, com um intervalo de confiança de 95,5% e uma margem de erro estimada de 2,2 pontos percentuais. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-08220/2022.

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