Na sociedade da 'lacração', arrancar o celular fere mais que cortar os dedos

Deputado bolsonarista Douglas Garcia (PL-SP) agride jornalista Vera Magalhães durante debate em SP - Foto: Reprodução/Redes Sociais
Deputado bolsonarista Douglas Garcia (PL-SP) agride jornalista Vera Magalhães durante debate em SP - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Talvez o que mais estejamos perdendo hoje é a tolerância. A história nos ensina que religiões e nações sempre discordaram. Demonstrar tolerância com grupos distintos é uma forma de respeito. Tolerância é o que fornece a coesão social. Intolerância com a opinião dos outros não é só errado. Em um mundo onde isso é relativo ser intolerante mostra que, além de grosseiro, você sim, pode ser perigoso. Ir atrás da certeza cega de que há resposta para tudo é uma simplificação perigosa das coisas. O episódio com a jornalista Vera Magalhães, atacada ontem no debate dos candidatos ao governo de São Paulo, é resultado dessa sociedade de lacração que quer aparecer a todo custo. Que não tolera o diferente. Que estabelece nas relações a dicotomia amigo-inimigo onde o outro é visto como alguém a ser aniquilado. Tudo sob o olhar vigilante dos holofotes. Como diz meu professor Juremir Machado da Silva: não é mais o espetáculo. É o hiperespetáculo. Obscenidade pura.

O tal deputado Douglas conseguiu sua fama. Vai ganhar votos daqueles bolsonaristas que não suportam Vera, não suportam mulheres e não aguentam ver mulheres com voz num ambiente predominantemente masculino. De novo a masculinidade tóxica sendo institucionalizada por um bando de gente que só quer likes ao final do dia.

E o único que saiu da passividade foi o gigante Leão Serva. Num momento em que Douglas queria aparecer e lacrar, afinal, o que é bom aparece, o que aparece é bom, Leão arrancou o celular das mãos dele e jogou longe. Na sociedade do espetáculo impedir o acesso ao celular fere mais do que cortar os dedos. Leão agiu como tem que se agir na defesa de uma mulher. Douglas é esse sujeito agressivo, caótico, onipotente que conseguiu a atenção de todos sendo um espetáculo de si mesmo.

Antigamente (sim, saudosismo) as pessoas se identificavam em função do coletivo. Hoje, em função do individualismo. Douglas soube surfar uma onda de uma sociedade de visibilidade onde não há o menor motivo para buscar sentidos. Interessa apenas as tendências performáticas e exibicionistas que só querem ser vistas pelos olhos alheios. Cada vez mais você tem que aparecer para ser. Voltando ao Juremir: segundo a nossa sociedade, é cada vez mais nítido que se ninguém vê algo é muito provável que esse algo não exista. Douglas foi visto. Não se enganem ao achar que hoje ele está fazendo uma recapitulação sobre seus atos em relação à Vera. Já vi isso acontecer em Brasília. Douglas provavelmente está sendo ovacionado por grande parcela da população que vê nessas manifestações agressivas a legitimação do seu pensamento. A política virou uma grande paródia de si mesma. O bufão voltou à cena e trouxe suas cópias para junto de si. Quando um palhaço entra num palácio ele não vira rei. O palácio vira circo.

Estamos perdidos andando em círculos (ou seria circo?) enquanto nos afundamos cada vez mais numa espiral de violência, agressões e ódio. Nunca foi fácil ser mulher no Brasil. Mulher na política? Disse e reitero: olhe para a história e você verá o que nossa sociedade faz com mulheres que tentam tomar espaços de poder.

Banalizamos o mal, a violência. Nem Hannah Arendt poderia prever isso. Conseguimos reverter o curso normal de evolução da história e regredimos todo dia limando direitos fundamentais de minorias que cada vez mais são aniquilidas do processo.

Infelizmente chegamos num ponto em que não toleramos aqueles que não sobrevivem à luz crua e implacável dos holofotes. Todos os dias nosso comportamento propicia que mais e mais “Douglas” tenham seus minutos de fama e perpetuem sua postura irrelevante nas páginas dos noticiários. Apareço, logo existo.