Verde, amarelo e vermelho: depois das eleições, vamos voltar a usar essas cores?

Verde, amarelo e vermelho: depois das eleições, vamos voltar a usar essas cores? Nas ruas, uma pessoa usando uma camisa da seleção brasileira é identificada como um eleitor de Jair Bolsonaro (PL). O mesmo acontece com quem usa vermelho, e é visto como eleitor de LuIz Inácio Lula da Silva (PT). Mas como esses tons se transformaram em símbolos políticos, e por quanto tempo serão vistos dessa forma? Essa associação automática vai perseverar depois das eleições? Qual vai ser o papel da Copa do Mundo no espectro político? Especialistas ouvidos pelo GLOBO respondem a esses questionamentos.

Para o sociólogo Ronaldo Helal, professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), não há dúvidas de que houve um sequestro de símbolos da pátria por parte de Bolsonaro. Segundo ele, o movimento começou em 2013, com os protestos que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016. No entanto, ele acredita que a cor vermelha não está associada a Lula com a mesma intensidade em que o verde e o amarelo se relacionam a grupos de direita.

— Já houve uma tentativa de apropriação de símbolos brasileiros no governo de Médici (Emílio Garrastazu Médici, ex-presidente do Brasil, o terceiro do período da ditadura militar brasileira nos anos 1969-1974) , mas não foi exitosa. A direita atual, ao contrário, foi bem-sucedida nesse quesito, e a esquerda permitiu que isso acontecesse. Mas o vermelho possui significados mais amplos, não está associado diretamente a Lula — diz o pesquisador.

O antropólogo niteroiense Roberto DaMatta também ressalta a tentativa da ditadura militar de apropriação de símbolos nacionais.

— No governo militar, a bandeira nacional foi usada mais ou menos dessa maneira, de forma mais política, como apoio ao regime — lembra.

Preto como protesto

Em 1992, foi a vez do então presidente Fernando Collor de Mello pedir aos brasileiros que fossem às ruas usando verde e amarelo, para demonstrar apoio a ele, como relatado em reportagem do Acervo O GLOBO. A resposta das ruas foi contrária a Collor, que estava com a imagem fragilizada: o que se viu foi uma multidão de roupas pretas.

A simbologia dos tons foi propagada de forma tão intensa que há relatos de quem tenha sido hostilizado por causa da cor da roupa, como o caso de um jovem, em Aparecida, que foi perseguido por um grupo de pessoas que gritavam "Lula, ladrão, seu lugar é na prisão" e "a nossa bandeira jamais será vermelha", no feriado de 12 de outubro.

O cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, precisou explicar nas redes sociais que a cor vermelha das vestes usadas pelos cardeais não possuem qualquer ligação com ideais comunistas. De outro lado, o uso de uma camisa da seleção brasileira não poupa sequer o ano de Copa do Mundo. O designer Paulo Henrique Santana, de 28 anos, conta que se exercitava nos arredores do Maracanã, usando a amarelinha, quando escutou um homem gritar que ele era um "bolsominion". Depois do episódio, ele não usa mais a camiseta.

Estigmas associados

Assim como Paulo Henrique, o estudante Lucas Xavier, de 27 anos, também evita usar as cores da bandeira brasileira. Ele tinha duas camisas da seleção, mas optou por doá-las. Além disso, também não veste mais as camisas que possui do Fluminense, seu time do coração, porque estão estampadas com o número 22, do candidato Jair Bolsonaro.

— Imagine uma camisa verde e amarela com o número 22 atrás. Qualquer um que me vê na rua vai pensar que eu voto no Bolsonaro, então, não uso mais. Quando escolhi o número, o dele ainda era 17, e eu tinha uma brincadeira com meu pai, desde que eu era criança: a gente jogava bola e ele era o 11, enquanto eu era o 22 — conta Xavier.

O estudante conta que para a Copa do Mundo vai usar as cores da bandeira para torcer, mas não quer mais a camisa da seleção - que, para ele, está associada a um "ultranacionalismo de Bolsonaro". Mas será a primeira vez. Nas últimas copas, os símbolos eram uma paixão.

Pós-eleições

Os especialistas divergem sobre o estigma das cores pós-eleições. A cientista política Alessandra Maia, professora na PUC-Rio, acredita que já está em curso um movimento de ressignificação da bandeira nacional, encabeçado pela classe artística, que busca levá-las à população, e essa postura vai continuar. Anitta, Ludmilla e Djonga são exemplos de cantores que levaram os símbolos nacionais aos palcos, apesar de declarem voto em Lula.

O próprio candidato do Partido dos Trabalhadores, em vídeo recente da campanha, mostra seus eleitores usando a bandeira do Brasil. A cor vermelha tem sido substituída por tons de branco.

— Na aliança que foi feita a favor do Lula, você vê bastante a bandeira do Brasil. Isso não acontece só dentro da campanha do petista, mas também vem dos eleitores — analisa a pesquisadora.

DaMatta acredita que a associação entre cores e figuras políticas tende a se esvair. Assim como a professora, ele crê que a Copa do Mundo terá um papel unificador na população.

— A não ser que a polarização política continue, a medida em que o tempo for passando, esse movimento vai perdendo forças. Há símbolos que ficam, como a foice e o martelo, por exemplo, mas não será o caso da bandeira. A eleição vai passar e a gente vai voltar à nossa vida relativamente “normal” — pontua o antropólogo.

'Pátria de chuteiras'

A Copa do Mundo, que acontece quase sempre em ano de eleições, tem seus jogos realizados antes do pleito. Neste ano, ela será quase um mês depois, o que pode contribuir para a união de cidadãos polarizados, segundo os estudiosos. Mas, antes dos anos 1990, o futebol tinha uma ligação com o patriotismo que está enfraquecida, segundo Ronaldo Helal.

O sociólogo diz que houve um declínio do que chama de "pátria das chuteiras", que se trata de um sentimento coletivo que une o esporte ao patriotismo. Ele defende a ideia de que a globalização contribuiu para uma desassociação do sentimento nacionalista ao futebol:

— Antes não se separava o conceito de seleção brasileira e nação brasileira. Em 2014, quando houve o 7x1, [o episódio] virou meme, mas logo depois as pessoas voltaram a falar de seus times do coração. Não foi uma tragédia como foi a derrota do Brasil em 1950. O gol do Maradona em 1986 é uma metáfora para o que aconteceu na [Guerra das] Malvinas, uma resposta à Inglaterra.

Sobre o futuro dos símbolos brasileiros, Helal prevê cenários diferentes a depender do resultado do pleito presidencial. Para ele, em uma situação em que Lula não vença as eleições, será necessário um esforço maior para que a bandeira do Brasil volte a ser usada por toda a população, mesmo quem não vota em Bolsonaro.

— Penso que se o Lula ganhar, haverá um resgate da bandeira nacional, mesmo que ele não peça isso. Se o Bolsonaro ganhar, não — finaliza.