Vereador de 25 anos em BH ganha espaço na direita com estilo desbocado

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aos 62 anos, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), perdeu a estribeira num debate recente na Câmara Municipal da cidade, ao ser interpelado de forma incisiva por um vereador de 25. “Braveza de garoto a gente responde com palmada”, explodiu.

O evento era por videoconferência, para alívio do alvo da fúria do prefeito, o vereador Nikolas Ferreira (PRTB). Nos poucos meses transcorridos de seu primeiro mandato, ele já adquiriu uma fama de “enfant terrible” da política na capital mineira.

Devagar, ela vai se espalhando também nacionalmente, e Nikolas já é tratado em vários círculos bolsonaristas como um prodígio.

Na semana passada, foi convidado para ser um dos palestrantes da Cpac, conferência conservadora que começa nesta sexta-feira (3) em Brasília. Estará na companhia de ministros, deputados, influenciadores e até de Donald Trump Jr., filho do ex-presidente americano. Sua candidatura para deputado federal em 2022 já é dada como certa, embora ele desconverse.

Nikolas é um produto legítimo da nova direita, formado no ativismo político e lapidado nos embates das redes sociais. Egresso do grupo Direita Minas, iniciou na militância conservadora quando tinha de 15 para 16 anos, no início da década passada.

“Com 15 anos eu ganhei um livro do meu tio sobre o Olavo de Carvalho, e nisso comecei a estudar sobre hegemonia cultural, formas de dominação da esquerda e outros conceitos. Comecei a me envolver, ler mais autores de direita, a postar alguns vídeos. Alguns viralizaram e a coisa foi crescendo”, disse ele em conversa com a reportagem.

Quando estava no terceiro ano do ensino médio, Nikolas causou certa sensação ao postar um texto denunciando sua professora de sociologia, que, segundo ele, queria fazer doutrinação esquerdista com a classe. “Ela fez uma prova toda sobre ativismo LGBT. Tinha que adivinhar qual era a sexualidade de tal garoto”, lembra.

O crescimento de sua popularidade no meio digital coincidiu com a onda conservadora que culminou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, e Nikolas nunca mais parou.

Uma de suas estratégias era polarizar com influenciadores progressistas como Felipe Neto, mesmo que seu oponente nem saiba disso. Se Neto falasse algo polêmico, lá ia Nikolas fazer um vídeo de resposta, gerando alto engajamento.

Em 2019, um ano antes de ser eleito vereador, fez um vídeo perseguindo o petista Fernando Haddad, em que perguntava por que ele não foi mais à missa desde a campanha de 2018. Conseguiu 1,57 milhão de visualizações.

Outro hit veio em maio do ano passado, no início da pandemia. Nikolas gravou um vídeo em uma favela de Belo Horizonte, em que intercalava depoimentos de pessoas carentes que perderam seu sustento econômico com imagens de atores globais defendendo ficar em casa. Conseguiu mais 754 mil visualizações.

A decisão de se candidatar veio como um passo natural, e ele foi eleito com 29.388 votos em outubro passado, o segundo mais bem colocado para a Câmara de BH. Perdeu apenas para Duda Salabert (PDT), primeira vereadora trans da história da Câmara belo-horizontina, que não tardou a sentir o poder da língua ferina de Nikolas.

“Ele é homem. É isso o que está na certidão dele, independentemente do que ele acha que é”, disse, logo após a eleição, anunciando que se recusava a chamar Salabert de “ela”.

Frases de efeito como essa são uma constante para o vereador novato. Da tribuna, já disse, por exemplo, que “movimento feminista não passa de água de salsicha, não serve para porcaria nenhuma”.

Outro exemplo foi um vídeo que fez mostrando um arco-íris numa praia. “Esse aqui é o símbolo da aliança de Deus com os homens. Nada a ver com LGBT, com homossexual”, disparou.

Egresso de uma família de classe média, formado em direito pela PUC de Minas Gerais, Nikolas é evangélico praticante. Participa da Comunidade Evangélica Graça e Paz e elaborou uma palestra chamada “O Cristão e a Política”, que o tem levado para diversas cidades do país, mesmo no meio da pandemia.

Sobre os gays, repete um argumento comum na direita, de que não tem nada a ver com opções individuais, mas sim rejeita a “doutrinação”. “Para mim cada um faz o que quiser, não tendo dinheiro público no meio. Liberdade de cada um. Mas nas paradas LGBTs mostram sexo ao ar livre, crianças ali no meio, seminuas, com palavras de cunho sexual sendo ditas. E isso eu vejo que destrói valores”, afirma.

Na Câmara, ele tem três pautas prioritárias: defesa da liberdade econômica, combate à corrupção e um projeto proibindo uso de linguagem neutra por órgãos públicos e escolas, que protocolou recentemente.

Ele é um defensor entusiasmado de Bolsonaro, e seu potencial midiático já foi percebido pelo presidente. Alguns de seus vídeos foram retuitados pelo presidente, e o vereador chegou a colocar sua avó para conversar com Bolsonaro numa live.

Mas diz que não dá apoio incondicional a ninguém, “só a Jesus Cristo”. “Meu apoio ao Bolsonaro é porque ele representa os nossos valores. Mas ele fala demais, entra em algumas guerras em que não precisava entrar. Você percebe que ele está tentando fazer algo e está sendo atacado por toda a máquina”, diz.

Nos atos de 7 de setembro, Nikolas pretende estar em São Paulo, engrossando a concentração na avenida Paulista. Ele repete Bolsonaro, dizendo que não defende golpe e respeita “as quatro linhas da Constituição”, embora sua definição para isso inclua acionar as Forças Armadas.

“O pessoal tem que ver o que de fato é golpe. Artigo 142 [da Constituição] é golpe? Não é. Ele deixa bem claro que o Poder Moderador entre as instituições é o Exército brasileiro. Mas um fechamento de Congresso, não defendo isso de maneira nenhuma, e vejo que ele [Bolsonaro] não vai fazer isso”.

Desde que sua fama começou a atravessar as fronteiras de Minas Gerais, Nikolas tem sido figurinha fácil em programas como Pânico, da Jovem Pan, e Opinião no Ar, da Rede TV!. Vídeos seus polemizando com apresentadores progressistas ou de centro costumam viralizar.

O vereador acha que o caminho da direita para crescer é ocupar espaços, como ele vem fazendo. “A direita tem que estar em todos os lugares: Facebook, YouTube, Instagram, Tik Tok. A gente precisa alcançar as pessoas, especialmente os jovens. Se a gente não falar sobre ideologia de gênero, outra pessoa vai falar”, afirma.

Sobre os planos futuros, diz que segue focado no trabalho como vereador, e em ser uma pedra no sapato de Kalil. Uma missão que já se coloca é fazer de tudo para que o prefeito não se eleja governador de Minas no ano que vem. “O Kalil quebrou BH. Se ele sair para governador, serei o primeiro cabo eleitoral anticampanha dele”.

A rusga com o prefeito tem um lado pessoal, que, em parte motivou a explosão com a ameaça de palmada. Em março deste ano, Nikolas tuitou foto de uma pessoa numa praia como se fosse do filho de Kalil, tentando demonstrar a hipocrisia do prefeito que defendeu isolamento social. Mas a foto era de outro homem.

Ao perceber o erro, deletou a imagem e se desculpou. Nem por isso deixou de tentar sair por cima da gafe. “Todo mundo está passível de erros, só que os meus eu reconheço. Já o Kalil não. Eu só saí maior dessa história”, diz.

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