Vereador de Caxias é alvo de operação da polícia sobre fraude em combustíveis

Rafael Nascimento de Souza
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RIO — O vereador de Duque de Caxias e ex-policial militar Alexsandro Mendonça Rosa, o Alex Rosa (Solidariedade), é alvo de uma operação da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), na manhã desta quinta-feira. O parlamentar é investigado como líder de um esquema criminoso de roubo de combustíveis em Caxias, na Baixada Fluminense, desde 2007.

Os investigadores estão na casa do político, em XXXX------, e também no seu gabinete na Câmara dos Vereadores, no Jardim Vinte e Cinco de Agosto. Os policiais civis também cumprem mandados de busca e apreensão em outros nove endereços ligados a Rosa. Postos de gasolina do ex-PM em Itaboraí, na Região Metropolitana, e em Cascadura, na Zona Norte do Rio, são alvos da ação.

Segundo as investigações da DDSD, que começaram em 2019, a organização criminosa de Alex alicia motoristas de caminhões tanques, que abastecem na Refinaria Duque de Caxias (Reduc). Antes da entrega nos postos de gasolina, os criminosos violam o lacre do caminhão para furtar parte do produto, que é revendido, posteriormente, pelo parlamentar e seu bando.

Os policiais descobriram que nos caminhões de 45 mil litros, por exemplo, a quadrilha roubava cerca de 20 litros, por veículo. Para despistar as empresas de segurança e para evitar que os GPSs dos caminhões fossem bloqueados, por estarem fora das rotas, Alex Rosa abriu duas garagens de abastecimento em Campos Elíseos – próximo à Reduc. Nos locais, por dia, segundo o inquérito, cerca de 10 a 20 caminhões tanque descarregavam parte do combustível, o chamado “baldinho”.

Ainda de acordo com a apuração, Alex comprava cada litro de combustível pelo valor que variava entre R$ 2,30 a R$ 2,80 para revender por cerca de R$ 5 para os postos do esquema. Além de gasolina, o ex-PM também gostava de comprar diesel. A investigação aponta que o esquema também beneficiava os postos de gasolina do político.

De acordo com a Polícia Civil, o esquema de Alex Rosa começou em 2007 – quando ele era cabo da Polícia Militar. Em 2008, o GLOBO mostrou que o então PM Alex Rosa e o motorista César Eduardo Mostazenco foram presos em flagrante por receptação e furto de óleo marítimo, respectivamente. Naquele ano, a dupla foi surpreendida na Rua José Pinheiro Alonso, Campos Elíseos, por policiais da 60ª DP, mesmo bairro. Mas, anos depois, o político foi absolvido da acusação.

Flagrante de furto

No dia 20 de junho deste ano, um dos depósitos de Alex, que fica na Rua José Pinheiro Alonso, s/n, em Campos Elíseos, foi alvo novamente de uma operação da DDSD. No momento da ação, os investigadores flagraram um motorista de um caminhão furtando parte dos 15 mil litros de combustíveis transportados pelo veículo.

No local, foram encontrados quatro tanques com capacidade para 15 mil litros cada, lacres de tanques de transporte e dois caminhões tanque de combustível. Segundo a polícia, no depósito o combustível era frutado, na prática conhecida como "boca" ou "baldinho".

Naquele dia, foram presos em flagrante Marcos Salles de Moraes, pelo crime de receptação qualificada, e o motorista Nirley Oliveira de Souza, pelo crime de furto qualificado. À época, pela grande capacidade do depósito e pelo fluxo observado durante as investigações, os policiais estimaram que o local recebia cerca de 50 mil litros de combustíveis por mês. De acordo com a DDSD, o depósito pertence ao vereador Alex Rosa. Dezenas de papeis da contabilidade do local, anotações e materiais para a campanha política do parlamentar foram apreendidos.

Uma testemunha contou à polícia que era comum os motoristas de caminhões tanques pararem no local para a fraude. No depoimento que o GLOBO teve acesso, o homem conta que “recebeu indicação para ir até o local para a prática do ‘baldinho’”. Ainda segundo ele “os caminhoneiros recebem alguns baldes para a retirada do combustível, sem que isso seja notado pelo remetente ou destinatário final”. Por fim, ele contou que era retirado de cada caminhão “cerca de dois baldes de 20 litros de combustíveis variados, recebendo em troca o valor de R$ 1 por litro”.

Após a ação no depósito, a Polícia Civil descobriu que Marcos Salles seria o “testa da ferro” de Alex Rosa – e seria o responsável por comandar os dois espaços.

Em casa, R$ 900 mil

Em 2018, durante prestação de contas ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Alex Rosa afirmou ter R$ 3.254.382,00. Boa parte dos bens em imóveis e automóveis. O que chamou a atenção da Polícia Civil foram os R$ 900.000,00 que o parlamentar afirmou ter em espécie (ou seja, em casa).

Para a Polícia Civil, desde 2007 Alex Rosa vem enriquecendo com o roubo de combustíveis. Pela PM, segundo os investigadores, o vereador não teria rendimento suficiente para chegar a esse montante milionário. Nos próximos dias, a Civil vai investigar a evolução patrimonial do ex-PM e se usava laranjas para ocultar seu patrimônio.

Vereador já teve casa invadida e filho feito refém

Em junho de 2018, o filho de Alex Rosa foi sequestrado. Os bandidos obrigaram Fernando Mendonça Rosa, de 21 anos, a entrar no próprio carro e levá-los até a sua casa. A ação aconteceu em uma praça no bairro de Saracuruna, e câmeras de segurança de um estabelecimento filmaram o momento em que o rapaz foi abordado e chegou ao local acompanhado dos bandidos.

No dia do crime, os bandidos permaneceram na residência por duas horas e quarenta minutos. Eles também fizeram um empregado e seu filho reféns. No momento em que os criminosos preparavam para deixar a casa, o vereador chegou ao local e percebeu uma movimentação estranha e não entrou.

— Tenho códigos de segurança com minha família. Assim que abri o portão, vi que o carro do meu filho estava na minha vaga. Ele não colocaria lá, já que tem a dele. Então, liguei pra polícia e de outro celular, liguei para o Fernando. Claro que o percebi nervoso. E quando ele disse para eu entrar em casa e subir pro segundo andar, tive a certeza de que estava acontecendo uma coisa muito grave. Como não subi, os bandidos desceram e começara a atirar na minha direção. Meu carro é blindado, então, dei ré e sai. Os bandidos fugiram e, logo em seguida, a polícia chegou. Nasci de novo - relatou o vereador à época ao EXTRA.

Naquele dia, segundo o político, os criminosos levaram joia de família e R$ 10 mil. E afirmou que nunca havia sido ameaçado, mas que já tinham tentado levar o carro de seu filho em duas situações:

— Então, mudei a rotina dele, porque achava que era tentativa de assalto apenas. Só que, pelo visto, estavam cercando Fernando para chegar a mim. Não sei o motivo, nunca fui ameaçado. Mas uma coisa acredito: tudo foi articulado por alguém conhecido, porque sabiam detalhes importantes da nossa vida - afirmou Rosa, que tirou os filhos de circulação: - Tenho outro filho além do Fernando e tirei eles daqui de casa. Estão em outro local. A situação deixou meu filho abalado, está sem falar com ninguém, com medo de tudo. Como vou continuar com minha vida normal de trabalho, não vou mudar, precisei afastá-los daqui. Para a segurança deles apenas.