Vereadora negra diz ser silenciada por presidente da Câmara de Campinas

Alma Preta
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Paolla Miguel foi eleita com quase 3 mil votos e está no primeiro mandato; em três ocasiões a vereadora relata que teve o cargo deslegitimado e sofreu racismo institucional. Foto: Câmara dos Vereadores de Campinas
Paolla Miguel foi eleita com quase 3 mil votos e está no primeiro mandato; em três ocasiões a vereadora relata que teve o cargo deslegitimado e sofreu racismo institucional. Foto: Câmara dos Vereadores de Campinas

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

A vereadora Paolla Miguel (PT), 30 anos, foi eleita para uma vaga na Câmara dos Vereadores de Campinas, com 2.728 votos, e relata ter sido alvo de perseguição e tentativa de silenciamento, inclusive pelo presidente da casa legislativa, o vereador Zé Carlos (PSB), 66 anos, que está no quinto mandato consecutivo.

Em sessão da segunda-feira (22) a vereadora fez um discurso durante a primeira sessão ordinária presencial da legislatura denunciando o racismo institucional que vem sofrendo desde a posse. "Essa Casa fracassa quando eu não sou reconhecida como vereadora por alguns. O racismo institucional acontece quando uma organização não consegue oferecer serviços e atendimentos adequados a uma população por conta da raça, cultura ou etnia", afirma.

Paolla é engenheira e está no seu primeiro mandato. A vereadora cresceu no bairro Vila União, na periferia da cidade localizada no interior de São Paulo. Paolla foi eleita com uma proposta política progressista e em defesa das reivindicações do movimento negro e da comunidade LGBTQIA+. Ela é vice-líder do PT na casa e nas duas primeiras sessões virtuais, em 1º e 8 de fevereiro, teve o seu direito de fala cortado ou desrespeitado pelo atual presidente, que não cumpriu o protocolo liberando a fala para outro vereador.

“Ele tem um ar de prepotência no tratamento, principalmente com os novos vereadores. Ele interrompe as falas. Quando é uma mulher, ele desqualifica e corta”, diz a vereadora. Diante das situações constrangedoras, a parlamentar criticou a atitude do presidente Zé Carlos. “Esse comportamento é recorrente e reflete no tratamento dos outros funcionários da casa. No começo eu relevava, mas já virou algo sistemático”, afirma.

A líder do PT na Câmara de Vereadores contraiu Covid-19 e pelo rito da casa, Paolla Miguel, como vice-líder, deveria ter o direito de falar pela legenda, porém, com o controle de Zé Carlos, o direito foi negado. “No dia da posse, já tinha acontecido uma situação estranha dentro do meu gabinete. O presidente entrou para falar sobre um problema e se dirigiu a um homem que estava ajudando, mas não falou comigo. Depois disse que não tinha me reconhecido”, recorda.

Na sexta-feira (19), a vereadora foi fazer a inclusão do cadastro biométrico para ter acesso ao plenário, já que as sessões presenciais voltam nesta semana, e o funcionário não atendeu a parlamentar dizendo que não sabia sobre o cadastro de biometria. Ela teve que procurar outro funcionário da casa, que foi repreender o técnico, que se espantou ao saber que ela era vereadora. “Ele deu uma desculpa que estava voltando ao trabalho e não sabia. Ele não reconheceu e não fez nenhum esforço. Ele me tratou como se aquele não fosse o meu espaço. É muito esquisito que só eu não seja reconhecida”, pondera.

Paolla pretende apresentar um projeto para instalar um programa de renda básica municipal com valor acima de R$ 100 e um projeto de hortas urbanas com verduras, legumes e plantas fitoterápicas para a população. “Campinas tem muitos casos de desnutrição severa. As hortas representam uma solução para criação de renda, melhoria na qualidade de alimentação e também como atividade terapeutica”, comenta.

O gabinete do vereador Zé Carlos (PSB), presidente da Câmara, foi procurado pela Alma Preta para comentar sobre o caso reportado pela vereadora Paolla Miguel (PT). Até a publicação deste texto, o parlamentar não se manifestou. Caso se pronuncie, esta reportagem será atualizada.