Vereadoras paulistanas do PSOL contratam segurança particular após ataques a tiros

Suzana Correa
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SÃO PAULO — Na esteira dos ataques a tiros ocorridos na semana passada contra as casas dascovereadoras do PSOL Samara Sostenes e Carolina Iara em São Paulo,parlamentares mulheres, negras e trans da cidade estão recorrendo à contrataçãode seguranças particulares para sua escolta 24 horas por dia. A medida já vinhasendo adotada pela vereadora Erika Hilton desde dezembro. Agora, outras colegasde bancada, como a líder do PSOL na Câmara Luana Alves, também lançam mão damedida.

A Mesa Diretora da Câmara decidiu nesta semanaque a Casa oferecerá dois agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para cadagabinete que apresentar registro de boletim de ocorrência Além disso, designaráum Procurador interno para acompanhar as investigações.

Mas a medida protetiva é válida apenas para ostitulares das cadeiras legislativas e não se estende a Sostenes e Iara, queatuam como co-vereadoras. Elas foram eleitas em novembro pelos mandatoscoletivos Quilombo Periférico (que possui 6 membros) e Bancada Feminista (com 5membros), respectivamente.

A decisão preocupa membros do PSOL, que pedem aoPresidente da Câmara, Milton Leite (DEM), para reconsiderar a decisão. Apresidência, no entanto, alegou em nota que “na prática, os covereadores sãocomo assessores parlamentares e a Câmara Municipal não tem meios legais paraagir”.

Sem a escolta oficial, as parlamentares têmrecorrido à segurança privada.

— No PSOL, sempre fizemos uma militância eoposição firmes. Mas nunca tivemos que cogitar contratar segurança 24 horas,nunca vimos uma reação tão violenta quanto agora. Não queremos a morte de maisuma parlamentar negra do PSOL — disse Alves ao GLOBO, em alusão aoassassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. — E sabemos que estesataques são um recado para todas nós.

Alves acredita que os ataques são motivados peloincômodo gerado pela eleição de mulheres negras e trans à Câmara paulistana. OPSOL trouxe uma bancada diversa ao Legislativo, com dois mandatos coletivos,totalizando onze negros e dez mulheres, três das quais transexuais.

Para mobilizar atenção aos ataques recentes, o PSOL realizouuma entrevista coletiva nesta quinta-feira com toda a bancada da sigla na Câmara, em que os parlamentares pediram pela formação de "uma frente nacional de enfrentamento à violência política".

Quem é titular de mandato e sente-se ameaçado,mas não registrou boletim de ocorrência — como Alves, negra e lésbica, querelata ataques virtuais racistas diários — terá que arcar com o custo daescolta por meio do próprio salário. Ela está em processo de contratação de umsegurança. Os vereadores em SP recebem R$18.991,68.

Segundo a parlamentar, seu partido também temapoiado as contratações, mas a atribuição de “zelar pela integridade física dosparlamentares e servidores da Câmara” é da Assessoria da Polícia Militar eefetivo da Guarda Civil Metropolitana da Câmara, conforme lei de 2007. O textodetermina também que cabe à PM prestar assessoria ao Presidente da Câmara e aquem for “expressa e justificadamente designado por este”, mediantedisponibilidade de pessoal.

Os ataques

Na terça, 26, dois tiros foram disparados durantea madrugada contra a casa de Iara, em Itaquera, zona leste de São Paulo. Namadrugada do último domingo, 31, um homem mascarado numa moto disparou um tiropara cima em frente à casa de Sostenes, em Guarapiranga, na zona sul da cidade.Os casos foram registrados em boletins de ocorrência como crimes de ameaça etransfobia. Ambos aconteceram na semana que marca o dia Nacional daVisibilidade Trans, em 29 de janeiro.

Após o ataque, Iara afirmou nesta quinta que estávivendo escondida e sob forte esquema de proteção.

— Rogamos que as autoridades reconsiderem aexclusão dos co-parlamentares das medidas de proteção oferecidas pelo Estado.Também fomos eleitas e esses votos estão sendo desrespeitados. Ninguém aquiquer que aconteça como no Rio, com o assassinato de uma vereadora negra comquatro tiros no rosto — disse Iara, também em referência à Marielle Franco.

Desde dezembro, a vereadora Erika Hilton, uma dasmais votadas no último pleito, já recebe a escolta 24 horas de dois guardascivis metropolitanos armados (um membro da Operação Maria da Penha e outro, doBatalhão de Choque da GCM) contratados como pessoa jurídica e que atuam em seusperíodos de folga.

— A barbárie no mundo virtual e a agressão de umadas minhas funcionárias durante a campanha já me deram uma noção do quãoviolenta minha eleição era — afirma Hilton.

A vereadora optou pela medida ao ver crescerem osataques virtuais contra ela e sua equipe depois da vitória nas eleições. Asagressões foram compiladas e a vereadora abriu um processo para investigar aorigem dos ataques oriundos de cerca de 50 perfis diferentes na internet.

A parlamentar relata diversos episódios deviolência desde a campanha, entre eles a visita de seu gabinete por um homemportando símbolos religiosos na última terça, 26. O rapaz apresentou-se comoparte de um grupo de “Garçons reaça” e, alterado, insistia para encontrar aparlamentar.

Impedido pela equipe, deixou carta à vereadora emque se desculpava e dizia arrependido pelos ataques virtuais à Hilton, que fezum boletim de ocorrência por ameaça e agora aguarda os trâmites burocráticospara passar a receber a escolta providenciada pela própria Câmara.