Vereadoras sofrem pedidos de cassação e são perseguidas e ameaçadas após denunciarem gestos nazistas em SC

Duas vereadoras de Santa Catarina que criticaram um ato com gestos nazistas ocorrido no estado viraram alvo de processos de cassação de seus mandatos e estão sofrendo perseguição e ameaças. As parlamentares manifestaram repúdio ao uso da saudação semelhante ao “Sieg Heil” por parte de bolsonaristas em um ato antidemocrático em São Miguel do Oeste (SC), na última semana.

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Após o posicionamento, Maria Tereza Capra (PT), de São Miguel do Oeste, e Giovana Mondardo (PCdoB), de Criciúma, foram acusadas de quebra de decoro parlamentar por atribuir aos cidadãos catarinenses o crime de fazer uma saudação nazista.

Capra havia publicado uma mensagem em seu Instagram após o ato, ocorrido no dia 2 de novembro, em que repudiava o teor dos protestos. Na publicação ela criticou o fato das manifestações não reconhecerem o resultado das eleições e bloquearem uma rodovia federal, e repudiou o gesto feito pelo grupo bolsonarista.

“Além de tudo esses manifestantes ainda fizeram uma saudação nazista. Erguer a mão naquela posição, isso é repetir algum dos momentos mais dramáticos, eu diria o pior drama que a população mundial viveu”, diz o texto divulgado pela vereadora.

Após a publicação da mensagem ela foi alvo de uma moção de repúdio assinada por dez dos 13 vereadores da cidade. Além disso, uma ação assinada pelo advogado Brendo Luiz de Pizzol Barroso pede a cassação de seu mandato por conta das declarações. O processo ainda está tramitando na Câmara Municipal de São Miguel do Oeste.

Ao GLOBO, a parlamentar relatou que teve que sair da cidade, que tem 40 mil habitantes, e até do estado de Santa Catarina, por conta de ataques que passou a sofrer. Além dos ataques que chegam em suas redes sociais, ela teve o carro — parado em frente sua casa — riscado com xingamentos e ofensas.

— Nas ameaças eles dizem “ela tem que ter o coro ardido”, “vamos dar na cara dela”. Uma mensagem fala em “eliminação”. A situação ficou insustentável. Fiquei temendo pela minha família, eu tenho filhos. Tive que deixar meu escritório de advocacia, minhas atividades parlamentares. Sou a única vereadora de esquerda, que defende as minorias em São Miguel, e preciso me proteger — contou Capra.

Se emocionando em alguns momentos ao falar da sua reação ao episódio, ela disse ter ficado indignada com o simbolismo das imagens que as manifestações produziram.

— Quando eu era jovem e assisti num cinema em Blumenau ao filme 'A lista de Schindler' (produção de Steven Spielberg sobre judeus durante o Holocausto) fiquei tão impactada que raspei o cabelo quando saí da sessão. E quando vi aquela cena em São Miguel fiquei indignada porque isso é uma coisa que não deve se repetir jamais. Não podemos ser tolerantes com a intolerância — afirmou.

Vereadora na cidade de Criciúma, Giovana Mondardo também foi alvo de um processo de cassação de mandato pelo mesmo motivo. Após os ato em São Miguel, ela compartilhou em seu Instagram o vídeo dos manifestantes com a legenda: “Em São Miguel do Oeste, Santa Catarina, saudação nazista. O que dizem? Isso é manifestação? Isso é direito constitucional?”.

Apesar do pedido de cassação já ter sido arquivado pela Câmara Municipal de Criciúma, a parlamentar contou que segue enfrentando ameaças que chegam pela internet.

— Sendo minoria aqui, acaba que não estamos apenas com nossos mandatos ameaçados, mas com nossas vidas ameaçadas — resume Mondardo.

As duas vereadoras destacaram que Santa Catarina é um dos estados com maior presença de células neonazistas do Brasil. Em uma apuração preliminar divulgada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) no mesmo dia da manifestação, o órgão afirmou que não identificou intenção de apologia ao nazismo pelos manifestantes.

“O Ministério Público (...) realizou identificação de manifestantes, analisou imagens e conversou com testemunhas dos atos, e avaliou que não houve intenção, aparentemente, de fazer apologia ao nazismo, não havendo evidências de prática de crime, muito embora a atitude ser absolutamente incompatível com o respeito exigido durante a execução do hino nacional e poder gerar alguma responsabilidade”, diz um trecho da nota do MPSC sobre o caso, que continua em investigação.

O episódio foi repudiado por instituições como o Museu do Holocausto, a Embaixada de Israel, o grupo Judeus Pela Democracia e o embaixador da Alemanha no Brasil, Heiko Thoms.