'Vergonha não é ser escravo, mas colonizador', diz atriz Léa Garcia

Aos 89 anos, Léa Garcia precisou tomar coragem para interpretar uma de suas três personagens na peça "A vida não é justa", que reestreia hoje, no Teatro Laura Alvim. Diante da velhinha que comete adultério virtual paquerando na Internet sob a alcunha de Molhadinha25, a primeira reação da atriz foi: "Sou uma senhora, não vou fazer isso". Depois de refletir, no entanto, se deu conta de que poderia estar presa aos próprios preconceitos.

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- Me questionei. Sou uma atriz, afinal. Então, resolvi me libertar e assumir a Molhadinha25 - diverte-se ela, que celebra 70 anos de trajetória profissional com o espetáculo, dirigido por Tonico Pereira, e baseado no livro homônimo em que Andréa Pachá relata episódios de sua experiência como juíza de uma Vara de Família.

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O tom de radionovela dado à montagem, idealizada pelo produtor Eduardo Barata e dedicada à atriz Françoise Furton, que morreu em janeiro, trouxe o recurso da fantasia, que ajudou a amenizar o constrangimento e deu mais conforto a Léa para embarcar na brincadeira. Foi quando, já livre das amarras, percebeu ainda que aquela era uma oportunidade de viver uma personagem distante das que vinham lhe oferecendo nos últimos tempos.

— Ultimamente, tinha virado atriz de dois personagens só. Me chamavam para fazer mãe preta ou mãe de santo. Está sendo agradável sair desse olhar estereotipado, que coloca a mulher negra idosa num determinado tipo de representação. Essas, agora, são simplesmente mulheres — observa a atriz, intérprete também de uma pandeirista que se relaciona com um parceiro bem mais jovem, e de uma idosa solitária cujo marido só pensa em futebol.

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Atuando em teatro, TV e cinema, Léa consolidou uma carreira de papéis marcantes. Junto com Ruth de Souza e Zezé Motta, é uma das maiores estrelas negras do cinema brasileiro, com mais de 20 filmes no currículo. Foi indicada ao prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Cannes de 1959 por “Orfeu Negro”, vencedor do Oscar de filme estrangeiro. Tornou-se referência, admirada pela qualidade de suas atuações.

Ela, no entanto, teve que lutar contra estereótipos a vida toda. E nunca conseguiu se ver livre por completo. Ao longo da carreira, fez mais papéis de personagens em posição subalterna do que qualquer outra coisa. Um sem número de empregadas domésticas e escravas. Cada vez que viveu uma dessas últimas, aliás, encarou um trauma de infância.

Léa tem “horror” de ficar descalça. Jamais coloca os pés em contato com o chão, a não ser na praia. Sempre que gravava uma cena, deixava os chinelos bem pertinho. Assim que terminava, corria para calçá-los. A origem da trava foi uma surra que levou da mãe quando menina.

— A gente morava na Praça São Salvador, e resolvi nadar no chafariz. Minha mãe me viu sem sapatos da janela, mandou me chamar e disse: "Antes de te bater, vou dizer uma coisa: 'Não fiquei descalça porque você não é uma negrinha, é minha filha e te uso para ganhar dinheiro'". Apanhei muito. Nunca mais consegui andar com o pé no chão de novo.

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Léa entende a mãe. Diz que ela usou aqueles termos por não ter conhecimento de outros. Dentro de casa, não havia consciência sobre a questão racial. A mãe, costureira requisitada pela granfinada de Laranjeiras, bairro onde a família morava, desenhava no escuro do cinema os vestidos que via nos filmes americanos ("eu era uma menina pobre criada como burguesa"). Vestia a filha como Shirley Temple e a incentivava a alisar os cabelos com Henê Rená.

A avó, com quem Léa foi morar após a morte da mãe (quando tinha 11 anos), vivia incomodada com chorinhos organizados pelo marido alfaiate ("minha avó tinha alma de baronesa"). Chegou a expulsar Pixinguinha de sua casa. E se separou do companheiro. As duas foram morar no quarto de empregada da família de origem francesa para a qual a avó passou a trabalhar como copeira.

Eram tratadas com amor e respeito, conta Léa, que ganhava bonecas americanas trazidas das viagens da família. A menina chegou a ser retratada pela filha da patroa da avó num quadro que foi pendurado na parede da sala de visitas da casa ("eu ia para a sala daquele apartamento enorme de Copacabana e ficava me admirando", recorda ela), onde era chamada de "negrinha mignon".

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A consciência sobre as questões do povo preto na sociedade brasileira só veio quando Léa conheceu o dramaturgo e ativista Adbias do Nascimento, com quem teve dois filhos. Ela, que sonhava em ser escritora, e desapontou o pai, que a queria contadora, se tornou atriz no Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias. A partir daí, sua trajetória artística caminhou junto com o ativismo.

- Enfrentei discriminação terrível e cruel não só porque era atriz, mas mulher negra. Tive que ter muito altruísmo junto a atores, produtores e empresas, e ter garra para superar tratamentos que recebi.

Por um momento, Léa pesou em desistir.

— Quis não ser mais nada. Peguei uma mala de fotografias e queimei. Minha avó consegui salvar algumas... Tudo por causa desse preconceito velado que a gente nem podia denunciar por não ter nada palpável. É um olhar, uma pessoa se retrai diante da sua presença. Era difícil, apesar de eu estar convivendo com Abdias, ícone dessa questão.

Se era condicionada a personagens que não considerava representativos para o povo preto, o jeito era usá-los para dar o tom de denúncia. A vilã Rosa de “Escrava Isaura”, papel que considera seu cartão de visitas, hoje, seria uma ativista, imagina Léa:

— Na condição de escrava, ela lutava com as armas que tinha. Usou a sexualidade para evitar o tronco, que, junto com o navio negreiro, são os maiores vexames para o povo negro.

Só que o público não compreendia bem os motivos de Rosa, e Léa sofreu violências reais. Levou beliscões na rua, um tapa nas costas que a fez derramar lágrimas numa festa e até uma peixada na feira.

Na pele de uma empregada na novela "Fogo sobre terra", teve que regravar a cena em que matava o patrão. Janete Clair lhe telefonou dizendo que a passagem poderia dar um mau exemplo, incentivando trabalhadoras insatisfeitas a tomar a mesma atitude.

Aos poucos, Léa foi vencendo a barreira dos personagens destinados a a atrizes negras. Encarnou uma professora de História na novela “Marina” e fez outros papéis que não tinham necessidade de ter “a roupa com o tecido mais pobre nem o calçado mais simples”. Em “Selva de pedra”, surgiu elegante.

Hoje, Léa vê com satisfação as transformações do mercado artístico. Diz que a saída para uma mudança profunda é aquela em que os negros sejam não apenas sujeitos, mas realizadores. Destaca a importância de autores negros contarem o que vivenciam e de produtores e diretores pretos imprimirem o seu olhar.

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Recentemente, Léa rodou “Um dia com Jerusa”, de Viviane Ferreira, com uma equipe só de mulheres negras.

— Quantas jovens negras terminaram a faculdade de Cinema e de Teatro e estão sem trabalho por não ter credibilidade da sociedade? Figurinistas, cinegrafistas, diretoras... Joel Zito (Araújo, cineasta com quem ela filmou “O pai da Rita”, a ser lançado no Festival do Rio) sempre deu protagonismo aos negros) é do dos que deram protagonismo a artistas negros.

Reconhecer e reverenciar quem lutou antes é algo sério para Léa, que cita o poeta Solano Trindade, Abdias e a intelectual Lélia González como nomes fundamentais para o movimento negro no Brasil.

— Parece que os jovens descobriram agora esse genocídio da população negra, mas a primeira pessoa que denunciou isso foi o Abdias. Mas que está acontecendo é bom. Acho que, apesar de as instituições terem denunciado tudo isso anteriormente, a morte do Jorge Floyd mexeu com o mundo inteiro e possibilitou no Brasil um olhar mais atencioso da sociedade.

Que conselho ela daria às atrizes como Taís Araújo e Camila Pitanga, que sempre a citam como figura fundamental para a abertura dos caminhos? Léa ensina:

— Elas não precisam se conselho, estão sabendo muito bem o que fazer. Devem dar continuidade ao espaço do negro no audiovisual, conquistado por mim, Ruth de Souza e todas que vieram antes. Ocupar espaço de forma digna e justa até atingirmos uma forma universal. Isso poderá acontecer não só com o nosso conhecimento, posições e reivindicações, mas com o outro lado. Quem precisa aprender é o lado de lá, porque vergonha não é ter passado por uma condição de escravo, mas sim, de colonizador.

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