Versão de militares sobre morte de músico bate de frente com a de testemunhas

Rafael Soares
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Evaldo morreu a tiros quando seu carro foi fuzilado em Guadalupe

A versão dos militares acusados dos homicídios do músico Evaldo Rosa e do catador Luciano Macedo, em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, batem de frente com os relatos à Justiça e ao Exército de testemunhas oculares dos crimes. Ao longo da investigação do caso, o Ministério Público Militar (MPM) encontrou três pessoas que haviam visto toda a ação de um ponto de vista privilegiado: elas moram em diferentes apartamentos de um prédio localizado exatamente em frente ao local onde o carro foi fuzilado e o catador, morto. Todas deram a mesma versão: os militares fuzilaram um carro com uma família dentro e, depois, mataram um catador de material reciclável em frente à mulher grávida.

O relato dos militares é completamente diferente. À Justiça Militar, os doze acusados afirmaram que reagiram a um assalto próximo ao Piscinão de Guadalupe e, 200 metros adiante, viram o carro com as portas já abertas, parado e crivado de balas. Eles reconhecem um dos assaltantes como o catador Luciano, que teria atirado na patrulha antes de ser baleado. Os militares negaram ter visto Evaldo e sua família no carro fuzilado.

 

Uma das três testemunhas oculares assistia à TV na sala na tarde de 7 de abril, quando ouviu barulho de tiros. Foi ver o que era: quando chegou à janela, “viu dois carros brancos passando”. Segundo seu relato, os carros partiram rumo à Avenida Brasil.

Em seguida, ele “viu um terceiro carro branco, parando, perdendo a força”. O homem viu a família sair do veículo, inclusive uma criança “gritando ‘Socorre meu pai’ e chorando muito alto”. Eles diz não ter visto o momento em que os militares chegaram, pois se abaixou quando ouviu o barulho de tiros. Quando levantou, Luciano já estava ferido.

 

Militares gritaram: ‘É bandido’

As duas outras testemunhas oculares detalharam como o catador foi baleado. Uma delas disse que viu “Luciano, um morador de Guadalupe que estava próximo ao local, se aproximar do carro vindo das proximidades do prédio até a porta do motorista”. Segundo a moradora,ele “queria ajudar o motorista que aparentava estar desfalecendo”.

Em seguida, ela afirma ter visto o momento em que “os militares começaram a atirar em direção à traseira do veículo que estava parado de portas abertas mais a frente e também atiraram em direção aos veículos parados na frente do prédio”. Ela se afastou da janela assustada e, quando voltou, viu Luciano baleado no chão.

A terceira testemunha acrescentou que, antes de tentar socorrer Evaldo, Luciano “empurrava um carrinho conhecido como ‘burrinho sem rabo’”. Segundo o morador, os militares atiraram no carro e o catador tentou se proteger: “Quando o rapaz correu, os militares gritaram ‘é bandido’”. O homem ainda afirmou que viu a mulher de Luciano, Dayana, gritar “Meu marido não é bandido” ao tentar reanimá-lo. Segundo o depoimento, ela ainda “pediu ajuda aos militares, que negaram”. Nenhuma arma foi encontrada. À Justiça, os militares disseram que os protestos de parentes após o crime eram uma “artimanha do tráfico”.