Vestido temático em dia de vacinação para pessoas com 69 anos em Brasília repercute

Louise Queiroga
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Foi a partir de uma notícia sobre o calendário de vacinação contra Covid-19 em Brasília que Mercês Parente, jornalista e apaixonada por Carnaval desde criança, teve a ideia de usar seu vestido temático para o aniversário de 69 anos, completados em fevereiro, para ir até o local onde receberia a primeira dose do imunizante no último dia 22. 

E não é que o look dela fez o maior sucesso nas redes sociais? Uma foto dela, com máscara combinando, chamou atenção por causa da estampa, que tem bonequinhos numa posição sugestiva mesclados com o número 69 por toda a roupa.

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"A grande piada de eu estar vestida com a roupa (estampada com 69) é porque a manchete do jornal era algo como 'a partir de segunda-feira, serão vacinados os idosos de 71 a 69 anos'. Na hora que saiu 69, eu falei: 'Vou com minha roupa de 69 anos'. Estava marcado em mim meus 69 anos. Se não tivesse saído na primeira página do jornal o 69, não tinha piada. Então, as pessoas na fila entendiam. Eu passava, todo mundo sorria", contou Mercês.

"Na hora que eu entrei, toda a equipe ria e dizia: 'Mas que maravilha!' Todo mundo na fila entendia porque um número expressivo de pessoas tinha 69 anos. Então, não causou nenhum mal estar. Eram sorrisos delicados e logo atrás de mim tinha um casal que é amicíssimo meu".

Mercês contou que cerca de uma hora após ser vacinada, imagens suas já corriam pelas redes sociais entre moradores de Brasília. Depois, ela soube por um amigo de Moçambique que uma foto sua com o vestido já circulava por grupo de mensagens de lá. O homem contou que a chamaram de "velha safada" e ele interveio, dizendo que aquela mulher era sua amiga. Em seguida, Mercês relatou que o tom mudou, e eles passaram a dizer: "ah então ela nem percebeu que era essa estampa.

"Ele deu uma risada e disse percebeu, sabe sim e foi proposital ", contou Mercês. 

De fato, também circulam comentários semelhantes aos do amigo da carnavalesca abertamente nas redes sociais.

"Eu acho muito louco quando as pessoas dizem 'ah ela nem percebeu o desenho'".

Alma de Carnaval

Mercês revelou que foi sua sobrinha, formada em Design Gráfico e Artes, a mente por trás da criação do famoso vestido. A brincadeira por fazer algo diferente nos 69 anos surgiu lá na comemoração do aniversário de 60 de Mercês, que olhou para os convidados e pediu de antemão, em tom bem-humorado, aos convidados que esperassem só para ver como seria a festa dos 69. 

Mas em 2021, continua a pandemia da Covid-19 iniciada no início do ano anterior. E acabou que Mercês não pôde fazer um evento com todos seus amigos e parentes. Ela disse que perguntou à sobrinha o que fazer: "E agora? Não vamos perder a piada dos 69. O que a gente faz?", relatou. E a designer ficou de entregar um presente marcante, pedindo apenas que tirasse um tempo para pensar no que fazer.

"E ela cria a estampa: o desenho do 69, que é de uma delicadeza, de uma sutileza. Só que isso de 69 toda minha família sabe. Toda minha família sabia que eu ia fazer qualquer coisa", contou Mercês. "A família entra no barato".

Moradora de Brasília desde os 9 anos, Mercês é toda elogios com relação aos trabalhos da sobrinha, chamada Manu, que ela descreve como muito criativa.

"Ela sempre faz os trabalhos comigo de quando tenho publicações. Ela é quem faz a criação. Tenho algumas roupas estampadas por ela".

 Mesmo sem pular carnaval e sem ter a casa cheia em 2 de fevereiro, data que marcou seus 69 anos de vida, ela ressaltou que pôde celebrar o momento especial contando apenas com a presença de sua sobrinha, seu cunhado e a irmã dele, que moram perto.

"Estamos na pandemia e eu estou em isolamento desde o ano passado. Ninguém acredita que eu possa estar em isolamento porque eu sou mundana. Sou uma pessoa da rua, da vida, de gente. Gosto de dançar, de ir pra rua, vou a todos os bailes".

Em meados de março, com o anúncio de que idosos de 69 a 71 anos estavam liberados para serem vacinados contra a Covid-19, Mercês ficou empolgada em repetir a roupa do aniversário. Mas, questionada sobre de onde veio a ideia para usar o vestido no dia da vacinação, ela começou a história, literalmente, do começo:

"Vou começar quase que com uma linha de tempo e cronológica, crescente e decrescente, que dança conforme a música. Tudo começa... de onde vem o vestido da foto... tudo começa em 2 do 2 de 1952, o ano que eu nasci em Teresina, Piauí. Tudo para chegar no hoje. Eu já nasci esperneando, nasci de 10 meses, nasci esperneando e dizendo "cheguei!"

Durante o período de isolamento social, que ja dura um ano, Mercês disse ter aprendido a curtir a própria companhia, a falar consigo mesma e a escutar seus próprios silêncios.

"A descoberta é que eu sou uma boa companhia pra mim", disse. "Obviamente o que mais sinto falta é da proximidade humana. Sou de abraço, de aconchego, de fazer cafuné".

Para o proximo carnaval, Mercês, que já viralizou na internet com uma blusa que dizia "Fica com Deus porque comigo não vai rolar" na folia de 2018, acredita que ainda não poderá haver aglomeração. Já em 2023, sua expectativa é por uma folia de rua animada como costumava ser

"Nem faço muitas projeções. Hoje, a gente vive a cada dia. Tenho dois grandes amigos de um grupo que estão na UTI, e já morreram amigos, amigos carnavalescos, então é difícil", afirmou. 

"A mensagem que digo é não ter medo do medo. Está começando a ficar difícil a gente não ter medo. Não pelo desconhecido, mas é pelo que a gente conhece e pelo que não está sendo feito para combater o desconhecido. Quando eu não saio de casa, quando uso máscara até pra ir à lixeira, não estou me protegendo só, estou protegendo o coletivo, o outro. Tenho que pensar no outro. Acho que isso é humanidade".