A vez dos supersensíveis: pessoa com emoção aflorada reúne outras qualidades especiais

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Camila Martins é desenvolvedora de softwares e, com apenas 24 anos, já está numa posição sênior na sua empresa e dá mentorias e palestras. Mas ela não tem aquele perfil clássico do mercado, durona, rápida e capaz de suportar qualquer pressão. A jovem se incomoda com barulhos e muita luz e, no final do dia, precisa ficar quieta no quarto “como num casulinho” para se equilibrar do excesso de estímulos. Chora, sente e pensa muito. Mas também é criativa, intuitiva, tem jeito para arte e muita empatia. Na vida profissional, conseguiu crescer, justamente, graças a esse combo.

— Tenho um cargo elevado mesmo com 24 anos porque possuo o “feeling” das oportunidades, observo, penso, peço opiniões, e isso tem sido positivo. Sei como me portar e adaptar o jeito de falar, mais técnico ou não, e essa maleabilidade me faz ir mais longe — conta Camila.

Não são apenas características da personalidade de Camila. Tanto os aspectos positivos quanto os negativos fazem parte de um traço maior, presente em cerca de 20% a 30% da população: ela é uma “pessoa altamente sensível” — condição também conhecida por aqui como PAS — e já nasceu assim. São pessoas mais suscetíveis a estímulos internos, como as emoções afloradas, e externos, como barulhos altos, cheiros fortes, muitas luzes ou superfícies ásperas.

O termo foi elaborado ao longo de décadas de pesquisa pela psicóloga americana Elaine N. Aron, autora do livro “Pessoas altamente sensíveis”, que já vendeu mais de um milhão de exemplares no mundo e está sendo relançado no Brasil pela editora Sextante.

Para Camila, ser uma PAS nem sempre foi fácil:

— Há um ano trabalho na empresa que estou hoje e, no começo, estava insegura pelo cargo sênior. Deixei minha sensibilidade ir para o lado ruim, era emotiva, ficava mal quando algo não dava certo, chorava — relata a jovem:

— Com a terapia e os feed backs que recebi fui achando um equilíbrio para usar isso para o lado bom, sentir a equipe, motivar as pessoas, ajudar colegas e saber expressar meus sentimentos de forma verdadeira, mas com limites.

Poderes e fraquezas

Elaine Aron usa a sigla DOES, em inglês, para explicar os principais aspectos de uma pessoa PAS: “D” de deep processing, ou processamento profundo, que indica que toda informação que chega a essa pessoa é processada detalhadamente.

Por exemplo: uma decisão envolve centenas de aspectos ou um feed back no trabalho reverbera internamente por dias. A letra “O” significa over estimulation, ou seja, a super estimulação que afeta os sentidos. Assim, por um lado, a pessoa parece ter um “superpoder” sensorial (ouvir e compreender melhor uma música ou sentir cheiros que ninguém percebe, por exemplo). Mas, por outro, seu limite aos estímulos, que todo mundo tem, é menor.

O “E” é a empatia, um dos traços mais marcantes dessas pessoas, pelas quais mais frequentemente são reconhecidas. É como se sentissem mais, pensassem mais e se importassem mais. É aquela boa amiga que acolhe, mas que se magoa com mais facilidade. Por fim, o “S” é sensibilidade, não só em relação às emoções, mas também aos estímulos.

É preciso se conhecer

Embora a maior parte dos estudos indique que ser PAS é um traço majoritariamente positivo, segundo Aron, essas pessoas muitas vezes são alvo de uma visão negativa e taxadas como frágeis, fracas ou tímidas (embora 30% das PAS sejam extrovertidas).

— A maior parte do mundo pensa que há um problema com a gente. Crescemos acreditando que há algo errado, nos sentimos diferentes, e ser diferente as vezes é difícil. Por isso é comum entre PAS a questão do problema da baixa auto estima. Mas quando entendem quem são e por que deixam de ver a sensibilidade como um problema. As pesquisas mostram que é um traço favorável — disse Elaine Aron ao EXTRA.

A psicóloga Maila Flesch é certificada por Aron como terapeuta para PAS e atende há mais de 15 anos. Ela explica que não tenta “normalizar” seus pacientes. O caminho que segue é fazer com que a pessoa descubra quem é, como funciona, se respeite, aprenda o lado positivo e crie ferramentas para viver melhor.

— A maior parte das pessoas nunca ouviu falar disso e ela mesma não sabe que é PAS. Não é um traço da psicologia, é uma sensibilidade no processamento sensorial, como o cérebro lida com os estímulos, um traço biológico. Uma PAS é diferente da outra, porque as pessoas não têm a mesma personalidade. Busco trabalhar no empoderamento das pessoas altamente sensíveis. Elas têm muito a oferecer, mas, para isso, têm que estar bem consigo mesmas — diz Flesch.

Aron dá algumas orientações para viver melhor sendo PAS. A primeira é acreditar, se informar e aceitar não ser igual à maioria. A segunda é conhecer outras pessoas altamente sensíveis, em busca de uma reafirmação e de um grupo de apoio. Depois, reformular sua história, entendendo decisões do passado, atuações e falhas sob esse novo olhar. Por fim, mudar seu estilo de vida, ou adaptá-lo para se sentir melhor.

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