Viúva de Ricardo Cruz, um dos cirurgiões mais respeitados do país, vítima da Covid-19, relata como ele a ajudou a sobreviver a uma tragédia familiar

Em depoimento a Marcia Disitzer
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"Lembro no que pensei ao ver o Marcelo, meu primeiro marido, pela primeira vez. Falei com os meus botões: ‘Nossa, que homem lindo’. Nasci no Rio Grande do Sul, mas, nessa época, pelo fato de meu pai ser militar, morávamos em Recife. Sou a caçula de quatro irmãs. Eu tinha apenas 16 anos e ele, 23, e já era piloto de avião. Dias depois, acabei o convidando para sair, e começamos a namorar. Fui me apaixonando aos poucos, principalmente, pelo caráter e também pela acolhedora família dele. Nessa época, começamos a frequentar a igreja evangélica. Não demorou para ficarmos noivos e nos casarmos. Eu tinha acabado de completar 18.

Depois de passarmos três meses em Seattle, onde Marcelo fez um curso de pilotagem, voltamos para São Paulo e depois escolhemos o Rio para viver. Nós dois queríamos ter filhos logo e eu engravidei, para a nossa felicidade. Tinha certeza de que seria uma menina e sonhei com o nome: Angélica. Ela nasceu, em 1988, de parto normal e levávamos uma vida sossegada. Engravidei novamente e descobrimos que Gabriel estava a caminho. Ponderamos que morar numa casa, num lugar tranquilo como Miguel Pereira, poderia ser melhor para as crianças.

Foi nesse intuito que saímos, eu, Marcelo e Angélica, naquela manhã de 1990, em busca desse espaço. No meio do caminho, em Silva Jardim, ele resolveu voltar. ‘É longe demais’, afirmou. E me pediu: ‘Amore, passa para o banco de trás? Você está grávida, e eu me sinto mais seguro’. E assim eu fiz. A última coisa que me lembro é de paramos num posto de gasolina, e Marcelo, que era evangelista e não perdia oportunidade de pregar a sua fé, perguntar ao frentista: ‘Quem é maior, aquele que serve ou que é servido? O rapaz respondeu: ‘Aquele que é servido’. E Marcelo corrigiu: ‘Não, Jesus disse que o maior é aquele que serve’. Saímos de lá e batemos num caminhão que estava parado num acostamento, na Avenida Brasil. Na verdade, até hoje não sei direito o que aconteceu, nunca quis. Quando recuperei a consciência, estava no Hospital Getúlio Vargas. Na sequência, fui para a Clínica São Vicente. A primeira sensação foi perceber que minha barriga (eu estava com 7 meses de gravidez) tinha desaparecido. Corri risco de morte, perdi cinco litros de sangue e tive muitos cortes no rosto. Outros dramas me aguardavam: Marcelo morreu praticamente na hora e Angélica, depois de ficar dois dias em coma.

A sensação que tinha era a de estar vendo um filme, entrei em profundo estado de choque. Conheci o Ricardo, que era especialista em cirurgia crânio-maxilo-facial, na sala de operação. Tive um deslocamento de mandíbula e ele cuidou de mim. O mais difícil foi sair daquele hospital, 15 dias depois. Para sobreviver, me agarrei a Deus e contei com a ajuda da família, minha e do Marcelo, e dos amigos. Não culpava ninguém, só orava. Ricardo ia sempre à minha casa fazer curativos e era muito carinhoso.

Um ano depois do acidente, voltei ao consultório dele para uma revisão. Conversa vai, conversa vem, ele me perguntou: ‘Denise, você pensa em se casar de novo?’ No que respondi: ‘Só se for com alguém muito especial’. Quando veio o meu aniversário, ele me mandou lindas flores e assinou: ‘de alguém muito especial’. Ricardo, que era 13 anos mais velho do que eu, me cortejou e começamos a namorar. Ele entendeu a minha fé e passou a frequentar os cultos evangélicos. Em pouco tempo, tornou-se o médico de todo o mundo da igreja. Em 1994, nos casamos numa cerimônia íntima. Demoramos uma década para termos filhos. Queria ser mãe novamente, mas sentia medo. Até que me libertei dos temores, e decidimos pela fertilização in vitro. Quando Pedro e André nasceram, em 2003, eu estava com 36 anos. Vivi uma felicidade plena. A infância deles foi a época mais linda da minha vida, fui mãe full time e curti cada segundo. Ricardo trabalhava muito, mas era aquele pai que, se tivesse que ir até o fim do mundo, ele iria. Tinha paixão pelos filhos. Em paralelo, criou o grupo Humanidades e o levou para dentro do Hospital Samaritano, onde era coordenador científico. O objetivo do Humanidades é integrar a medicina com outros saberes, deixando-a mais pessoal. Ricardo era o tipo de médico que fazia a barba e dava banho nos pacientes, o consultório dele mais parecia com o de um psicanalista. Antes de cada cirurgia, descrevia para a equipe médica a história de quem seria operado. Tinha empatia e compaixão. Guardava 60 mil fichas médicas, 60 mil vidas cuidadas por ele. Meu desejo é perpetuar seu legado com a publicação de um livro e um novo modelo de encontros do grupo Humanidades.

Quando começou a pandemia, meu marido se trancou em casa. Só voltou a operar em agosto. Em novembro, ao saber que tinha contraído o vírus, isolou-se num hotel. Uma semana depois, precisou ser internado no Samaritano. O tempo todo me mandou mensagens, me deu instruções. Eu enviei vídeos, músicas e fotos para animá-lo. Por ser médico, sabia o que estava acontecendo, tinha a consciência de que o pulmão não estava respondendo ao tratamento. Escreveu o que eu deveria falar para os meninos, me pediu para tomar providências práticas e ainda disse: ‘Denise, eu vou... Evite constrangimentos’. Perguntei, aflita, quais constrangimentos. ‘Missas’, ele respondeu. Quando Ricardo morreu, meu filho André me falou com firmeza: ‘Eu sei que você está ficando viúva pela segunda vez, mas me promete que não vai sofrer?’ Respondi que seria impossível não sofrer, mas que ficaria bem. Vamos ficar bem, não temos outra opção. Eu sobrevivi da primeira vez. Não posso desistir.”