De viagens a atitudes cotidianas, mães contam como conseguem tirar 'férias maternas'

Ao fim das apresentações da peça "“Mãe fora da caixa”, a atriz Miá Mello costuma bater um papo com a plateia. Numa recente sessão, em São Paulo, eis que uma mulher acompanhada pela filha adolescente pediu a palavra. Em seguida, contou que a jovem estava prestes a viajar e ficar, pela primeira vez, longe de casa por cerca de um mês. Como ela se sentia em relação a isso? “Muito feliz”, conta Miá, sobre a resposta que fez "o público gargalhar ao contrariar expectativas. “Mas ela estava certa. Sentia-se aliviada porque a filha ia fazer uma viagem, "ao mesmo tempo em que a mãe teria um tempo para si.”"

A maternidade, como se sabe, é cercada de tabus alimentados pelo imaginário da mulher superprotetora e incansável no cuidado com os filhos. Daí a surpresa da plateia. Por outro lado, conforme os debates de gênero ganham frente, muitas mães têm conseguido subverter essa ordem "e mostrar que zelar pela individualidade é uma experiência revigorante. Logo, por que não tirar férias dos filhos vez ou outra? A própria Miá, que é mãe de Antonio, de 5 anos, e Nina, de 13, já passou por isso. “Em 2021, antes da pandemia, viajei sozinha com o meu marido para a Jamaica. Foi incrível. Nos divertimos como criança, parecíamos pinto no lixo. Voltamos com a promessa de fazer isso mais vezes.”

A mesma sensação teve a empresária Gabriela Miranda, mãe de Benjamin, de 11 anos, e Stella, de 6. No caso dela, a experiência foi uma viagem de 15 dias pela Europa, acompanhada somente por uma amiga dos tempos de faculdade, enquanto as crianças ficaram sob os cuidados do pai, na casa onde vivem, em São Paulo. “Assim que cheguei lá, na primeira chamada de vídeo, os dois começaram a brigar diante da câmera. Na mesma hora, desliguei o telefone e acionei o modo avião”, conta, "aos risos, mostrando o quão a sério levou "o sentido da palavra “férias”. “Pensei: ‘Não vim para o outro lado do mundo para passar por isso’. Fiquei dois dias sem ligar para eles, mas, no terceiro, eu me senti culpada "e acabei fazendo uma nova chamada.”

"Culpa. Essa expressão invariavelmente aparece quando o assunto é maternidade, sobretudo num país em que, segundo o IBGE, quase metade dos lares são chefiados por mulheres. A própria Miá, "que no dia dessa entrevista havia acabado de entregar os filhos para que curtissem as suas próprias férias com a vó, admitiu se lamentar pela separação. “Eu "me pego pensando que podia ter passado mais uns dias com eles”, desabafou, antes de ensinar um macete para se livrar desse sentimento. “Começo, "então, a planejar uma próxima viagem para nos divertirmos juntos.”"

Não é fácil, mas ela sabe que esses intervalos são necessários, algo atestado também pela psicoterapeuta de adultos e casais e doutora "em psicologia social Vanessa Abdo. Segundo ela, absolutamente todas as suas pacientes mães "se sentem culpadas ou julgadas quando decidem “tirar férias” dos filhos. “Por isso, precisamos lembrar que somos multifacetadas, e não objeto de satisfação apenas de uma criança, do mercado de trabalho ou dos parceiros, que seja. Somos sujeitos e, como tal, precisamos delimitar os nossos espaços, mesmo que isso se dê por meio de atitudes microscópicas, como tomar banho de porta trancada. Afinal, nos é ensinado que devemos ir ao banheiro com o carrinho de bebê ao lado.”

Dar ênfase a atitudes menores como esta, ela diz, é importante porque nem todas as mães têm como fazer uma viagem ou contam com uma rede de apoio na hora de cuidar das crianças. Afinal, também estamos no país que registrou, este ano, o maior número de mães solo desde 2018, segundo levantamento dos Cartórios de Registro Civil do Brasil. Autora do livro “Equilibrosa — Histórias de uma mãe em construção”, Mônica Calderano é adepta das tais atitudes diárias citadas por Vanessa. Considera importante, por exemplo, que os filhos Bruno, de 10 anos, e Gustavo, de 7, durmam cedo não só pelo bem-estar deles, mas também "para que ela tenha um espaço para ver suas séries favoritas. Durante a pandemia, com a família em "casa em tempo integral, adquiriu também "o hábito de deixar a cama mais cedo para tomar o café sem a interferência das crianças. “Quando ouço essas histórias "de mães que viajam, penso que estamos buscando a mesma coisa, porém cada "uma com as suas possibilidades”, compara.

Ainda assim, quando Mônica decide viajar sozinha com marido ou precisa se ausentar por motivos profissionais, faz questão de ter uma conversa franca com os meninos. “Não invento história. Digo que preciso trabalhar ou "que quero tirar uns dias para namorar o papai. Assim, deixo claro que preciso de um tempo para mim”, conta. “Preciso que eles me enxerguem dessa forma e não cresçam achando que a minha função é exclusivamente a do cuidado, da qual gosto muito, mas não é a única.”

As elaborações de Mônica vão no cerne de outros tópicos salientados por Vanessa Abdo. A psicoterapeuta lembra que a mãe estar em dia consigo mesma é fundamental para o próprio exercício da... maternidade. “Quando estamos inteiras, conseguimos ter "mais sucesso em todas as nossas funções, não nos deprimimos nem ficamos ansiosas. É importante nos reconhecermos como nós mesmas.”

"Que o diga Gabriela. Tão logo voltou de sua viagem pela Europa, "a empresária percebeu que os benefícios da viagem foram muito além daqueles 15 dias. Seus filhos passaram a valorizá-la ainda mais "no cotidiano familiar, ao passo "que ela se reconectou com a importância de manter uma agenda social (uma nova viagem do tipo já está nos planos, assim como os happy hours com as amigas voltaram à rotina). “Não sabia mais quem eu era sem os meus filhos. Havia esquecido, por exemplo, o quanto é legal sair para beber com as amigas. Que maravilha é tomar um vinho "sem se preocupar com a ressaca porque tem que "cuidar de alguém no dia seguinte!”

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