Vice-líder do governo critica articulação do Planalto na CPI da Covid e admite investigar compra de vacinas

Julia Lindner
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BRASÍLIA - Membro titular da CPI da Covid, o vice-líder do governo no Senado, Marcos Rogério (DEM-RO), criticou a atuação do Palácio do Planalto em relação ao colegiado, que deve ser instalado na próxima semana. Para ele, o governo está totalmente desarticulado, perdeu o 'timing' na composição dos membros e agora está em minoria. O senador concorda que a comissão apure se houve falhas na aquisição de vacinas durante a pandemia, mas é contra incluir medicamentos sem comprovação científica no escopo das investigações.

- Em um tema mais sensível, como é uma CPI, seria necessário um pouco mais de articulação. O governo não tem que temer a investigação. Apenas fazer um esforço para garantir que ela seja justa e faça as apurações necessárias para chegar no problema. Porque uma coisa é certa: se o problema não está aqui, ele está em algum lugar. Porque faltou lá na ponta hospitais para atender as pessoas, faltou medicamento para as pessoas, faltou médico para atender as pessoas. Então teve erro. Quem cometeu esse erro? Foi o presidente da República? Governador? Ou foi o prefeito? A sociedade quer a resposta - disse Marcos Rogério.

Em sua estratégia de atuação, o senador acredita que é preciso manter no plano de trabalho da CPI apenas os temas que são consenso entre a comunidade científica, como a questão das vacinas. Sobre medicamentos sem eficácia comprovada, ele defende que ainda não há uma resposta sobre qual remédio é o mais adequado, já que não existe nenhum específico para a doença, e que a decisão do que deve ser administrado para cada paciente cabe aos médicos:

- Existem medicamentos no meio de todos esses que, se você for ouvir um especialista, ele vai dizer assim: esse corticoide faz explodir a carga viral. E aí? O que é mais grave? Estou querendo dizer é que se for por esse caminho, vai ser a CPI do Fim do Mundo. Vamos focar onde está o problema. Erros do ponto de vista da política, do palpite equivocado, ok! Mas quem administra medicamento é o médico. O resto é só opinião.

Como mostrou o GLOBO, governistas relataram que nem mesmo eles foram procurados pelo Planalto nos últimos dias para falar sobre Comissão Parlamentar de Inquérito. O governo não conseguiu conter avanços da oposição e da ala independente na indicação de membros, que são maioria. Isso também se refletiu nos acordos entre os adversários do presidente Jair Bolsonaro para conquistar os cargos de comando - a presidência deve ficar com Omar Aziz (PSD-AM) e a relatoria com Renan Calheiros (MDB-AL).

- Não houve por parte de quem faz a inteligência da política do governo uma cautela em relação às indicações para a CPI. Foi quem quis ir. Do ponto de vista de avaliação política, em relação à composição, o governo não teve o cuidado de tentar. Você tem os partidos políticos e qual o nível de ligação que o partido A ou o partido B tem com o governo? Se o partido A tem uma ligação do governo e em alguma medida ele tem uma vaga ou duas vagas e ele indica dois de oposição, tem alguma coisa fora do lugar - avaliou Marcos Rogério.

O vice-líder disse que o presidente Jair Bolsonaro tem o perfil de deixar a articulação mais solta no Congresso, e os parlamentares tiveram boa vontade com o governo até aqui em outras situações. No caso da CPI, entretanto, Marcos Rogério avalia que é diferente.

- Eu vou ser muito sincero. Se houve algum nível de articulação, eu desconheço, até agora. Acho que o presidente Bolsonaro, eu convivi com ele como deputado federal. Não é uma surpresa a maneira como ele verbaliza as posições dele, como ele se coloca diante, não é novidade, porque ele sempre foi assim. A coisa meio que ia fluindo. Tanto Câmara como Senado sempre tiveram boa vontade com o governo.

Responsável pela articulação política, a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, procurou apenas ontem Marcos Rogério, após saber que ele estava insatisfeito.

- Ela disse para mim que está começando e pediu ajuda nesse momento em que ela está no início, porque ela conhece muito a Câmara, mas o Senado ainda não. Ela disse que acabou de assumir e estava tirando o tempo dela e tal. Achei que a justificativa foi boa, eu entendi, mas o timing das coisas aqui dentro não aceita isso. O argumento não muda o cenário aqui dentro, mas eu entendi e espero que ela faça um bom trabalho - contou Marcos Rogério.

Reconhecendo que não é possível colocar governistas nos dois postos de comando da CPI, Marcos Rogério defende que, ao menos, haja um equilíbrio entre os dois principais cargos. Para o parlamentar, é importante ter pelo menos um nome independente na presidência do colegiado, o que deixa em aberto a possibilidade de um oposicionista assumir a relatoria.

- Você tem esse equilíbrio nos dois postos faz bem para a comissão. Depende de quem vai ser o presidente. A depender disso, você pode ter um relator mais à oposição ou mais próximo ao governo. Dizer que vai ser 100% não vai ter. Não tem nenhum que faria isso, eu não faria isso, outros não fariam, porque não há ninguém que seja ignorante acerca dos fatos, o que você não precisa ter é alguém que tenha um juízo formado e que queira apenas usar a CPI para confirmar o que ele já tem como posição.