Vice realmente importa ou é só figura decorativa?

Pesquisas indicam que para 77% dos brasileiros o vice não importa ou importa pouco. (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)
Pesquisas indicam que para 77% dos brasileiros o vice não importa ou importa pouco. (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Ninguém quer ser vice. João Doria não quis, Eduardo Leite não quis, Simone Tebet não cogitou e Ciro Gomes nem dá audiência para essa hipótese. Isso só esse ano. É aquela história: “você não ganhou o segundo lugar, você perdeu o primeiro”.

Essa frase deve ter sido construída pensada na política. Mas vice importa?

Pesquisas indicam que para 77% dos brasileiros o vice não importa ou importa pouco. Eu discordo. E, fico me perguntando se essa é uma perspectiva viável depois de termos vistos vices como Michel Temer e o improvável Alckmin com Lula.

A escolha do vice-presidente voltou aos holofotes depois de Jair Bolsonaro, que já tinha dado como certo o general Braga Netto na campanha de 2022, cogitar a Ministra da Agricultura Tereza Cristina. Os motivos são óbvios: o presidente está estagnado nas pesquisas, tem alta rejeição entre as mulheres e alguém do agronegócio pode aumentar a arrecadação de sua campanha.

A importância na escolha do vice pode depender muito do ano eleitoral. Em alguns momentos o vice fica escondido, não aparece em debates, serve apenas para não atrapalhar. Mas não podemos esquecer que a redemocratização do Brasil começou com um vice.

Depois do mal súbito que se abateu sobre o então presidente eleito, Tancredo Neves, seu vice, José Sarney, acabou no Palácio do Planalto. Fernando Collor renunciou diante do impeachment e quem assumiu foi seu vice.

Marco Maciel foi o vice dos sonhos de Fernando Henrique Cardoso. O vice pode servir para angariar apoio de um determinado setor como, por exemplo, Lula quando escolheu José Alencar para suavizar a imagem de sapo barbudo que transformaria o Brasil numa sociedade comunista. Teve o vice Michel Temer que dispensa comentários. E todo ano eleitoral é a mesma coisa em torno de vices.

E, agora o presidente deixa de lado (por enquanto) os militares, sua base fiel, para dar mais destaque ao agro. A uma mulher? Mais ou menos. Diante disso cogita-se uma saída honrosa à Braga Netto. Ou seja: Bolsonaro não pensa por um momento em deixar as Forças Armadas de lado.

As Forças Armadas foram institucionalmente criadas em 1824. Na Primeira República eram chamadas de “o poder desestabilizador”. Existe pouco registro sobre isso, mas o genial Murilo de Carvalho identificou que até o final do Império mais da metade dos generais do Exército possuíam títulos de nobreza.

E, talvez nesse momento eu possa me dar ao luxo de fazer uma reflexão pouco científica, mas não seria esse um dos motivos pelos quais a maioria dos militares ainda se acham tão acima do bem e do mal? A lembrança ainda que frágil de um passado muito distante e glorioso? Pois é.

Isso foi mudando. O perfil dos recrutados para as Forças Armadas foi sofrendo alterações à medida que o Brasil deu seus primeiros passos “na forma de” República. A elite civil do país não aspirava mais por uma carreira nas Forças Armadas como “antigamente”. Em consequência foi-se atribuindo a elas um sentimento de marginalidade que tentou-se reverter na década de 1920 com o movimento tenentista.

O fim da ditadura militar no Brasil, em 1985, é um momento histórico importante para compreender as Forças Armadas hoje no país e como buscam um novo papel na sociedade por causa do distanciamento político que ocorre nesse período. Some-se a isso o fim da Guerra Fria as Forças Armadas atribuíram a si um papel de manutenção da ordem e da democracia.

E foi Bolsonaro quem os tirou desse papel e os colocou na política novamente. Agora manobra o posicionamento de uma mulher como vice, que pode parecer uma decisão de um Bolsonaro paz e amor, mas nada mais é do que um trunfo para reduzir a rejeição do presidente. Lula tem 49% de intenção de votos entre mulheres enquanto Bolsonaro, 23%. É mais do que o dobro.

Mas como eu já disse em outra coluna aqui no Yahoo, o importante não é governar, é vencer. Então o presidente deve deixar de lado por um instante sua tentativa de voltar à nobreza com os militares e dar às mulheres um espaço que elas nunca viram na política durante esse governo. Que não sejam meras figuras decorativas de novo.

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