'Até a vida sempre', disse Chávez em sua última mensagem em público

Por Ramon SAHMKOW
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Presidente Hugo Chávez faz o sinal da vitória em Caracas, 24 de agosto, 2011

Com o punho cerrado para cima, Hugo Chávez parou no alto das escadas do avião e gritou "Até a vida sempre". Estas palavras, ditas pelo presidente venezuelano em 10 de dezembro de 2012, antes de embarcar para Havana para se submeter à quarta cirurgia contra um câncer detectado em 2011, se tornaram o último adeus do líder carismático, falecido na terça-feira aos 58 anos.

Intuitivo e grande comunicador, o presidente, que nunca mais foi visto, nem ouvido em público, inscreveu esta frase na História.

Uma infecção pulmonar surgida em consequência da cirurgia, que seus médicos nunca conseguiram curar, limitou seus últimos quase três meses de vida a hospitais, primeiro em Havana e depois em Caracas, após seu retorno à Venezuela, em 18 de fevereiro passado.

O todo-poderoso Hugo Chávez, de 58 anos, que ganhou todas as eleições que disputou e pretendia se manter no poder até 2031, encontrou na saúde seu calcanhar de Aquiles: um câncer diagnosticado em junho de 2011, durante visita a Havana, aonde viajou para tratar uma dor no joelho esquerdo.

"Que dor é essa?". Com este questionamento, o líder cubano Fidel Castro pediu ao amigo que fizesse exames. "Eu não via como me esquivar dos olhos de águia de Fidel, 'o que está havendo com você, que dor é essa', e começou a me perguntar como um pai a um filho (...) e começou a chamar os médicos e (pediu) opiniões, assumiu o comando", relatou Chávez em 1° de julho de 2011, um dia depois de tornar pública sua enfermidade.

Chávez foi submetido a duas cirurgias de emergência: uma devido a um abscesso pélvico e outra para extrair o tumor cancerígeno que, nas palavras do próprio presidente, era "quase como uma bola de beisebol".

Considerado por Chávez seu pai político, Fidel se tornou, segundo ele próprio, seu "médico superior", acompanhando-o durante as sessões de quimioterapia a que foi submetido em Havana.

O presidente venezuelano se tratou quase exclusivamente na capital cubana, onde encontrou segurança e sigilo, apesar de o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e sua sucessora, Dilma Rousseff, terem proposto que se tratasse no renomado Hospital Sírio e Libanês de São Paulo.

Em poucas semanas, a Venezuela viu seu presidente passar por uma mudança radical: Chávez aparecia em público com menos frequência, fazia discursos mais curtos e trocou seus horários noturnos por uma saudável atividade matutina e uma dieta com mais frutas e menos café.

Além disso, o lema "Pátria, Socialismo ou Morte", que tinha defendido por anos como um grito de guerra, se transformou em um otimista "Viveremos e venceremos".

Seu bom humor foi afetado, inclusive quando apareceu em agosto de 2011 com o rosto mais inchado e totalmente careca por causa da quimioterapia.

Enquanto seus seguidores celebravam dezenas de cerimônias religiosas por sua saúde, inclusive rituais indígenas e afro-venezuelanos, o presidente disse estar em "processo de renovação espiritual".

O chefe de Estado nunca deixou o poder, o qual exercia desde 10 de janeiro de 1999, e segundo seus colaboradores, até os últimos dias continuou passando instruções de governo de seu leito no hospital, transmitidas por escrito por estar impossibilitado de falar.

Sua doença, mantida em estrito sigilo, foi objeto de constantes boatos, que ora o davam como morto, ora o colocavam em tratamento em uma ilha venezuelana ou em outros países, enquanto a oposição duvidava das versões oficiais e reivindicava a verdade com cada vez mais veemência.

Tentando desmentir os informes negativos, dias antes de seu retorno a Caracas o governo publicou várias fotos de Chávez acompanhado de suas duas filhas mais velhas em um hospital de Havana.

Os altos e baixos de sua saúde marcaram a vida do país. Em outubro de 2011, Chávez declarou-se curado, mas os problemas reapareceram seis meses depois, quando anunciou que precisava retornar a Cuba para se submeter a uma cirurgia para extrair outro tumor situado na mesma região do primeiro, sem dar maiores detalhes. Antes de partir, afirmou que voltaria "com mais vida do que nunca".

Obrigado a se submeter a cinco ciclos de radioterapia, o presidente estendeu suas temporadas em Havana, embora tenha permanecido muito ativo, escrevendo mensagens em sua conta no microblog Twitter, cujo uso intensificou durante os períodos de convalescença.

Durante a última Semana Santa, ele retornou à cidade de Barinas (onde nasceu, no estado de mesmo nome, no sudoeste do país) e em uma missa transmitida ao vivo pela TV, comoveu os familiares que o cercavam e os telespectadores venezuelanos ao pedir a Deus mais tempo de vida.

"Digo a Deus que se o que a gente viveu e tem vivido não foi suficiente e me faltava isto (a doença), bem-vindo, mas me dê vida, embora seja vida candente (...), me dê vida porque ainda tenho coisas a fazer por este povo", pediu Chávez, que chorou durante a missa.

No entanto, no começo de junho passado, uma semana depois de inscrever sua candidatura para sua terceira reeleição, o presidente afirmou estar "livre" da doença.

Após uma campanha atípica para o líder enérgico, que caminhou pouco e fez discursos curtos - embora em uma ocasião tenha aparecido dançando e cantando com seus seguidores -, Chávez foi reeleito em outubro de 2012 para um terceiro mandato de seis anos, com uma vitória folgada de 55% dos votos sobre o opositor Henrique Capriles Radonski.

No entanto, após a vitória, admitiu que tinha sentido os efeitos da doença durante a campanha e que "fez 10% do que teria feito sem radioterapia".

"Na verdade eu fui boxear com a mão esquerda amarrada e com uma perna amarrada, pulando em um pé só", comparou.

Após se submeter a novos exames em Cuba, Chávez anunciou em 8 de dezembro que sofria uma nova recaída do câncer e que precisaria fazer a quarta cirurgia em Havana. A convalescença em Cuba o impediu de tomar posse em 10 de janeiro, como previa a Constituição.

Mas antes de partir, nomeou seu vice-presidente, Nicolás Maduro, como seu herdeiro político e candidato da situação às eleições que deverão ser convocadas dentro de 30 dias.

Depois, foram quase três meses de invisibilidade e silêncio.

Ele mesmo anunciou seu retorno a Caracas pelo Twitter e, naquela que seria a última mensagem aos seus seguidores, escreveu: "Continuo agarrado a Cristo e confiante em meus médicos e enfermeiras. Até a vitória sempre!! Viveremos e venceremos!!!". Sua conta disparou acima dos quatro milhões de seguidores.