'A vida invisível': crítica

Susana Schild

Duas irmãs separadas, mas unidas pela distância. Eurídice e Guida. Criadas com mão de ferro por um casal português no Rio dos anos 1950. Eurídice, a mais velha, sonha em ser pianista. Guida, dois anos mais nova, quer conhecer o mundo, viver grandes paixões. Ela tenta. Foge com um grego. As duas irmãs nunca mais se viram.

Definido pelo diretor Karim Aïnouz como um melodrama tropical, “A vida invisível” é pródigo em ingredientes do gênero: moças oprimidas pelos pais, fugas de madrugada, retorno de filha grávida, artista que sufoca a vocação, troca de identidade e outras reviravoltas. Com um inédito Grand Prix na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes e candidato do Brasil a uma vaga na corrida ao Oscar de melhor filme internacional (desbancando “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles), “A vida invisível” se oferece como um sensível painel sobre as opções da época: mulheres que lutam contra o destino e aquelas que o aceitam. Nos dois casos, o preço é alto.

Com um histórico de filmes bem-sucedidos como “Madame Satã”, “O céu de Suely” e “Praia do Futuro”, Aïnouz trabalhou com fortes contrastes para tratar da invisibilidade feminina na virada do século XX. Inspirado em obra de Martha Batalha, o roteiro de Murilo Hauser, com colaboração de Inês Bortagaray e do próprio Karim, procura um delicado equilíbrio entre o visto e o não visto em realização primorosa.

Como acerto principal, a escolha de Carol Duarte (Eurídice) e Julia Stockler, estreantes em cinema, ao mesmo tempo tão parecidas e tão diferentes, que oferecem atuações poderosas. No elenco, destaque também para Gregorio Duvivier, como o ambivalente Antenor, enquanto Bárbara Santos é uma forte Filomena.

A paleta de cores e o tratamento visual (fotografia de Héléne Louvart, francesa de vasto currículo, como “Pina”, de Wim Wenders, “As praias de Agnès”, de Agnès Varda, ) alterna tons ocre e borrados, como esboços de memórias, com a exuberância de mar e floresta. Nos ambientes domésticos predomina uma atmosfera sufocante, enquanto o calor das cores jorra da boemia carioca dos anos 1950. A cena da noiva na banheira merece um quadro. Muitas vezes, corpos e cabeças das irmãs aparecem cortados ou obstruídos por obstáculos, como o tenso “quase encontro” vislumbrado através de um aquário. Destaque também para trilha sonora.

Em trama de 2h20, uma certa morosidade de alguns episódios é quebrada por um vigoroso salto no tempo. Com a força de uma epifania, Fernanda Montenegro surge como Eurídice e consegue vislumbrar o passado de Guida, tão perto e tão longe nesta história de duas irmãs unidas para sempre.