Vida de jornalista afegão espelha trajetória dos EUA no país após 11 de Setembro

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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Jawad Sukhanyar experimentou diferentes momentos cruciais do Afeganistão: cresceu nos anos de guerra civil e sob o primeiro regime do Talibã. Depois, aproveitou as oportunidades trazidas pela invasão americana e, anos mais tarde, teve de deixar o país às pressas após o grupo radical reassumir o poder.

Os conflitos estão presentes na vida de Sukhanyar desde cedo. Nascido em Cabul, em julho de 1986, ele passou o começo da infância em meio à guerra com a União Soviética, conflito que desembocaria no governo talibã, desmontado após os ataques terroristas do 11 de Setembro.

A ocupação americana trouxe oportunidades. Em 2004, três anos após o início da operação, quando Sukhanyar tinha 19 anos, começou a trabalhar como intérprete das forças dos EUA, o que abriu caminho para que conseguisse uma bolsa para estudar ciência política na Universidade de Goa, na Índia.

Ao voltar, em 2011, inscreveu-se para uma vaga na sucursal em Cabul do jornal The New York Times. Na função, “a oportunidade da minha vida”, o jornalista acompanhou as mudanças do país e os problemas que persistiam —sinal de que a presença estrangeira não resolveria grande parte dos problemas afegãos.

Entre 2013 e 2014, por exemplo, uma onda de afegãos deixou o sul do país durante o inverno em busca de abrigo e comida em cidades como Cabul e Herat, mas as condições eram péssimas. “Não havia quase nada para comer nem aquecimento nos campos onde eles ficavam. Crianças morreram de fome e frio.”

Também reportou os avanços dos direitos das mulheres. Com a queda do Talibã, elas puderam trabalhar e estudar, mas situações de violência doméstica e de casamentos forçados ainda continuavam a ocorrer.

No período, Sukhanyar também fez reportagens sobre o avanço do Talibã, que aos poucos reconquistava territórios e ganhava força contra o governo afegão apoiado pela Casa Branca. “Havia atentados em funerais e casamentos. Matavam pessoas inocentes que haviam se reunido para momentos em família.”

O trabalho no jornal americano viabilizou um período nos EUA. Em 2018, conseguiu uma bolsa em um programa de estudos em jornalismo e ficou dez meses em Ann Arbor, no estado de Michigan. Ao voltar ao país natal, no entanto, viu-se cansado da rotina e decidiu mudar de emprego. Como tinha contato com integrantes do governo do hoje presidente deposto Ashraf Ghani, ocupou uma vaga no Departamento de Comunicação da Vice-Presidência do país e, depois, em outros ministérios.

Logo passou a ter certeza de que o Talibã retomaria o poder, dado o avanço fora da capital. Com a certeza, vieram também o pavor de ser encontrado pelos extremistas, já que havia colaborado com militares dos EUA e trabalhado para um jornal do país, e as memórias da época em que o "Talibã micropoliciava tudo, o que você faz, como faz, com quem anda". "E era muito mais difícil para as mulheres", lembra ele.

Com a consolidação da tomada do país pelos extremistas, em 15 de agosto, Sukhanyar às pressas começou a estruturar uma forma de deixar o país, como muitos afegãos. No aeroporto de Cabul, testemunhou tiros disparados para o alto para tentar dispersar multidões e a corrida descontrolada na pista de decolagem, onde helicópteros e aviões eram cercados logo que pousavam.

Sem água nem comida e quase pisoteados pela massa que buscava fugir, o jornalista e sua família deixaram o terminal sem as bagagens, perdidas em meio ao tumulto —uma experiência traumática, "o pior dia das nossas vidas, pior até do que durante minha na infância com a guerra civil".

Após dias de incerteza, escondido na casa de um amigo, obteve ajuda do New York Times para embarcar em um avião militar até Doha, no Qatar. De lá, foi levado para a Cidade do México, onde aguardou parte dos trâmites formais de imigração serem concluídos. Agora, está em Houston, no Texas, antes de voltar a Michigan. O programa de jornalismo que o recebeu em 2018 concedeu um novo período a ele nos EUA.

Sukhanyar conseguiu partir com a esposa e os quatro filhos, dois meninos e duas meninas, com idades entre 3 e 11 anos. “Família grande, como no padrão americano”, brinca. Em Ann Arbor, pretende estudar como o Talibã lidará com a imprensa afegã. “Eles são totalmente contra as liberdades de expressão e de imprensa e não acreditam em direitos humanos”, afirma, desfazendo a narrativa de moderação que o grupo radical tenta emplacar mundo afora, em busca de apoio da comunidade internacional.

Ainda que ele tenha conseguido fugir com a família, sua mãe e seu irmão continuam no Afeganistão. Assim, Sukhanyar, cuja trajetória reflete o arco dos últimos 35 anos do país, entre ocupação soviética, guerra civil, primeiro regime do Talibã e o início e o fim da invasão americana pós-11/9, agora acompanhará de longe como será a vida dos familiares sob o controle dos extremistas outra vez.

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