Videoaula da rede estadual do Rio nega que haja racismo no Brasil; material foi apagado

Bruno Alfano
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RIO - Uma aula disponibilizada no aplicativo de ensino remoto da rede estadual do Rio negou a existência do racismo no Brasil. O professor, em uma aula sobre a formação do povo brasileiro, argumenta que não pode haver discriminação de raça no país por sua formação ter acontecido a partir de uma misceginação.

— Quando muita gente fala para mim sobre racismo, eu fico me perguntando: como (exsite) racismo se a gente é tão misturado assim? Nosso processo é diferente da grande maioria dos países. Não temos uma definição étnica bem formada. Somos um país miscigenado — afirma o professor de Geografia, que não teve o nome revelado, durante videoaula no aplicativo de aulas chamado Applique-se.

O vídeo circulou nesta terça-feira pelas redes sociais e acabou sendo retirado do aplicativo pela Secretaria estadual de Educação (Seeduc) do Rio, que pediu desculpas pelo material.

"A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) pede desculpas pelo equívoco, esclarece que não compactua com qualquer forma de preconceito e informa que já retirou o vídeo da plataforma", diz a nota.

Ainda segundo a pasta, um novo material audiovisual, "com conteúdo que condiz com a história e realidade brasileira acerca do tema", está sendo produzido e será colocado no aplicativo de educação remota Applique-se.

Frei David, diretor executivo da Educafro, explica que a miscigenação não isenta um país de ser racista.

— Se você pegar qualquer índice do IBGE e do Ipea, comparando a população branca da negra, vai ver que em 100% deles a população afrobrasileira está pior. Isso porque, no Brasil, não é levado a sério o respeito do direito de todas as etnias. A etnia branca, predominante, continua oprimindo e a lei para enfrentar o problema não é respeitada.

A lei que Frei David é a que determina a obrigatoriedade do ensino do provo negro em sala de aula. Segundo ele, o Educafro está trabalhando em uma ação cívil pública para obrigar secretarias e escolas privadas a cumprirem com o que ela prevê.

— A lei determina que haja formação dos professores em nível de fundamental, médio e superior, o que não está acontecendo. A consequência é que o professor vai dar aula no achismo e não com conteúdo científico. No tema do negro, os professores falam o achismo e reproduzem os seus vícios e seus racismos. Isso não acontece com a história do povo europeu. Os professores estudam com seriedade e transmitem o que aprendem. Já com o povo negro e indígena há um descaso por parte do estado. Se o professor não é preparado, eu culpo o estado que não tem formação adequada — diz.

O aplicativo de ensino remoto contém 4 mil materiais pedagógicos com videoaulas, podcasts e orientações de estudos. O acesso ao material não consome dados de celulares dos alunos, o que ampliou o acesso de estudantes da rede, e os professores da rede mediam aquele conteúdo.

De acordo com a secretaria, todo esse material foi elaborado por profissionais da rede e está em constante revisão e atualização.

"Toda a equipe da Secretaria reafirma seu compromisso com professores, pais e alunos por uma Educação mais justa e igualitária, e está à disposição da comunidade escolar e da sociedade civil, por diversos canais de comunicação, incluindo sua Ouvidoria, pelo telefone 2380-9055 e pelo Fala.BR no link: https://falabr.cgu.gov.br/publico/RJ/Manifestacao/RegistrarManifestacao", diz a nota.

As aulas da rede estadual do Rio estão sendo realizadas apenas pelo ensino remoto. As escolas, no entanto, estão abertas para que alunos que não tem acesso regular à internet possam acompanhá-las com os dispositivos e pacote de dados de conexão dos colégios.