Videogame e violência: cruzadas morais contra os jogos eletrônicos no Brasil e no mundo

Foto: Call of Duty/Divulgação

* Por Rubens Casara

Fantasias, por definição, são substitutos da realidade e exercem uma função mediadora do encontro do sujeito com o Real (na psicanálise, o Real é o registro do impossível, enquanto a realidade é uma trama simbólico-imaginária). Sem elas, viver seria insuportável. Historicamente, em todo momento autoritário, em que medidas de força substituem a inteligência e o conhecimento, investiu-se contra as fantasias. Livros queimados, peças censuradas, filmes proibidos, exposições de arte hostilizadas, bruxas nas fogueiras e sonhadores na guilhotina são exemplos de ataques contra a capacidade de vislumbrar uma alternativa à realidade, tentativas de impedir um mundo em que os sonhos e os desejos possam se realizar.

O detentor da personalidade autoritária não se permite sonhar, é pobre de imaginação. Não por acaso, elege como inimigo a fantasia, essa capacidade de, ainda que por um breve instante, afastar-se da realidade opressiva a que estamos submetidos. O pensamento autoritário, marcado pela ignorância e pelo medo da liberdade, não suporta a “experiência do impossível” propiciada pelo videogame. Sempre que há liberdade e utopia, a resposta protofascista se dá por meio de cruzadas morais e da criminalização da cultura.

É em defesa dessa liberdade de experimentar o impossível que Salah H. Khaled Jr., autor do livro Videogame e violência: cruzadas morais contra os jogos eletrônicos no Brasil e no mundo (Record/Civilização Brasileira, 2018), convida-nos a pensar sobre as estratégias autoritárias de proibição dos jogos.

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Em um texto delicioso e repleto de menções ao universo dos games, o autor (e gamer há mais de trinta anos) nos chama a refletir sobre a falsa relação de causa e efeito entre os jogos e a violência, a disseminação do pânico moral, o clima cultural produzido a partir do controle social, o tédio contemporâneo, a ambiguidade da violência, os discursos de ódio (inclusive, os presentes nos games). Além disso, leva-nos a ponderar se, por medo da liberdade, desejamos nos privar de experimentar as sensações que um jogo proporciona.

Agora uma advertência: este livro, mais do que necessário, pode causar uma irresistível vontade de experimentar vários jogos, aventurar-se no impossível e defender as liberdades em risco.  

Rubens Casara é Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais, Juiz de Direito do TJ/RJ e escreve a Coluna ContraCorrentes, aos sábados, com Giane Alvares, Marcelo Semer, Marcio Sotelo Felippe e Patrick Mariano.