Vídeos de vocalistas do ABBA circulam como se tratassem de fraude eleitoral

Urnas eletrônicas sendo preparadas para o primeiro turno das eleições, em Porto Alegre (RS), em 23 de setembro de 2022. Nas redes, usuários seguem espalhando boatos de fraude eleitoral (Foto: Reuters / Diego Vara)
Urnas eletrônicas sendo preparadas para o primeiro turno das eleições, em Porto Alegre (RS), em 23 de setembro de 2022. Nas redes, usuários seguem espalhando boatos de fraude eleitoral (Foto: Reuters / Diego Vara)

Dois vídeos de mulheres supostamente alegando que houve fraude eleitoral no Brasil circulam nas redes sociais com mais de 25 mil interações. Segundo as publicações, elas seriam uma suposta cientista política norueguesa Frida Ruzzo e uma "juiza renomada sueca Anna Ase". Mas isso é falso.

As entrevistas não tratam de irregularidades nas eleições nem de qualquer tema relativo à política brasileira. Além disso, a identidade das mulheres que aparecem nos registros é diferente, elas são as integrantes da banda pop sueca ABBA, Anni-Frid Lyngstad e Agnetha Fältskog.

Capturas de tela de conteúdos que tiraram de contexto entrevistas com integrantes do grupo ABBA para sustentar o boato de que fraude eleitoral (Fotos: TikTok / Reprodução)
Capturas de tela de conteúdos que tiraram de contexto entrevistas com integrantes do grupo ABBA para sustentar o boato de que fraude eleitoral (Fotos: TikTok / Reprodução)

Buscas reversas por capturas de tela das gravações direcionaram aos vídeos originais. O primeiro deles – que nas redes, atribuem à suposta cientista política norueguesa Frida Ruzzo – é uma entrevista com a vocalista do grupo Anni-Frid Lyngstad. A entrevista foi ao ar no programa de televisão Skavlan transmitido na Noruega e na Suécia. O conteúdo foi publicado no YouTube em 2014:

No trecho utilizado fora de contexto nas redes, o entrevistador Fredrik Skavlan perguntou à cantora quando seus fãs ouviriam novas músicas. Ela respondeu que não sabia quando lançaria canções e que estava diminuindo o ritmo por conta de sua idade.

Ela seguiu falando que ainda gosta de cantar e que fez um "pequeno experimento" em tributo aos 150 anos da primeira escalada no monte Matterhorn com o lançamento da música 1856. A montanha está localizada na fronteira entre a Itália e a Suíça. No lado suíço, ela fica na cidade de Zermatt.

Buscas no Google pelo nome atribuído à vocalista nas redes, "Frida Ruzzo", não encontraram qualquer referência a uma cientista política.

Já o segundo vídeo, que circula como se mostrasse uma suposta juíza sueca chamada Anna Ase, retrata uma entrevista do mesmo programa com outra integrante do ABBA, Agnetha Fältskog. Na conversa, que foi ao ar em 2013, a cantora explica que parou de escrever músicas para a banda pois sentia falta de casa e de filhos:

Em nenhum momento Agnetha fala sobre a política brasileira. Buscas por "Anna Ase" não direcionaram para resultados sobre uma suposta juíza sueca.

Há indícios de fraude nas eleições?

É falso que qualquer fraude nas urnas tenha sido comprovada. Ao contrário, instituições que atuaram como observadores nas eleições brasileiras reforçaram a credibilidade do sistema.

Uma delas foi a Uniore (Missão da União Interamericana de Organismos Eleitorais), que não identificou maiores problemas no funcionamento das urnas e considerou a eleição brasileira como exemplar para a América Latina.

De maneira semelhante, a Rojae-CPLP (Rede dos Órgãos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) afirmou em um relatório preliminar que a utilização de meios eletrônicos de votação "revelou-se segura, confiável e credível". O observador concluiu que as eleições brasileiras foram "livres, justas e democráticas".

O International IDEA (Instituto para a Democracia e Assistência Eleitoral) elogiou a imparcialidade do TSE e ressaltou a confiabilidade das urnas eletrônicas. A instituição defendeu que a democracia brasileira se fortaleceu com o processo eleitoral e classificou os ataques ao funcionamento das urnas como controvérsias "desnecessárias".

O TCU (Tribunal de Contas da União) realizou uma auditoria do sistema eletrônico de votação e não identificou qualquer divergência nas mais de 5 milhões de informações de boletins de urna que analisou.

Esses conteúdos também foram verificados pela Agência Lupa e pelo AFP Checamos.