Vigiados e cercados, manifestantes tentam sair de casa em Cuba

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - "É preciso que as pessoas que estejam acompanhando do exterior saibam que, se não pudermos sair para protestar hoje, não é porque as causas não são importantes, mas sim que nos estão encurralando, estão fazendo demonstrações de força nas ruas, desfilando com carros militares, vigiando nossas casas", disse num grupo virtual a jornalistas de várias partes do mundo a youtuber e influencer Dina Stars.

A atriz de 25 anos, que tem 44 mil seguidores no Twitter, foi presa na última manifestação, em julho, no meio de uma transmissão. Liberada, começou a armar programas por meio de stories do Twitter para contar o que vem acontecendo.

Desde cedo nesta segunda-feira (15), seu canal tem reunido depoimentos dos que estão tentando se mobilizar para sair. "Desta vez, estou transmitindo desde a casa da minha mãe, todos aqui têm medo, mas estão me apoiando. Por enquanto, acho que a mensagem mais importante que quero passar é que, se o protesto for fraco, não é porque nos acovardamos, é porque o regime não nos está deixando fazer nada."

Por meio de um chat de internet, manifestantes na ilha e apoiadores de outros países vinham trocando informações sobre como pretendiam atuar neste 15 de novembro.

A blogueira Yoani Sanchéz chamou a atenção para o fato de a cidade estar sendo vigiada e quase ninguém ter saído às ruas durante a manhã. "Já nos fizeram ver que o Exército armado está circulando, também os Boinas Negras circulam desde ontem. As casas dos principais líderes do protesto estão cercadas. Se não houver protesto é por pura intimidação. É impressionante como o governo se armou para derrubar até um simples smartphone da mão de um adolescente que estiver na rua em Havana hoje".

Alguns jornalistas ameaçados no dia anterior continuam com seu movimento limitado. É o caso de Abraham Jiménez Enoa, do Washington Post, que está em prisão domiciliar. Outros que não podem sair de casa são os jornalistas da agência espanhola Efe, que, por estarem sem suas credenciais, não podem circular sem o risco de serem presos.

O Comitê para Proteção dos Jornalistas pediu que autoridades respeitem os jornalistas que se colocarem contra a censura e o assédio. O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, afirmou que essas são "estratégias de intimidação".

Relatos de jornalistas que puderam circular um pouco por Havana dão conta de que áreas como as do Capitólio, o Prado e o El Vedado estão com forte presença policial e ajuda de grupos "revolucionários", cidadãos preparados para "defender a revolução".

Às 15h locais (17h no Brasil) teve início um tuitaço com as hashtags "Cuba Libre", "Cuba Vive y Renace", "Cuba 15N" e "Cuba é uma ditadura".

Logo depois disso, alguns manifestantes começaram a avisar que iriam sair de suas casas, mesmo cercadas por parte dos grupos de segurança. Saily de Amarillo foi uma das que conseguiram sair de casa e estaria caminhando neste começo de manifestações.

Os atos marcados para esta segunda-feira buscam dar continuidade às manifestações espontâneas e inéditas que ocorreram em 11 de julho e levaram milhares de pessoas às ruas para protestar contra os cortes de luz, a perseguição a dissidentes do regime e a falta de alimentos e remédios. A escassez desses produtos se agravou com a pandemia de coronavírus, que interrompeu a entrada de turistas --o turismo é a principal indústria do país-- e das remessas de dinheiro que chegam de cubanos no exterior.

Enquanto os protestos de julho tiveram início de modo súbito, desta vez os manifestantes buscaram apoio internacional ao pedir permissão ao regime para o protesto desta segunda. Trata-se, afinal, de um direito garantido na Constituição, e se o governo não permitisse daria sinais de que a lei é letra morta.

Foi o que ocorreu. A ditadura recusou a permissão, sob a justificativa de que, durante o período, haverá exercícios militares visando a promoção da reabertura da ilha e da chegada de turistas. A entrada de estrangeiros será permitida pela primeira vez desde a pandemia justamente a partir desta segunda.

Até aqui, a repressão ao movimento já levou à prisão 1.175 pessoas, de acordo com a associação Cubalex, que monitora temas relacionados a detenções políticas na ilha. Mais da metade deles continua atrás das grades e apenas cerca de 60 julgamentos foram realizados.

Segundo a ONG Human Rights Watch, em relatório realizado por meio de entrevistas com vítimas e familiares, as prisões são locais para tortura psicológica, como privação de sono e humilhações --dissidentes foram, por exemplo, obrigados a tirar a roupa e caminhar por horas gritando "Viva, Fidel".

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