Vigilante morto em fogo cruzado de policiais e traficantes no Morro dos Prazeres deixa cinco filhos; mais três pessoas morreram

Rafael Nascimento de Souza
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Diariamente – como vinha acontecendo nos últimos seis meses, após perder o emprego na pandemia – o vigilante Denis Francisco Paes, de 46 anos, deixava a casa onde morava, no alto do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, pouco depois das 8h, e seguia para o trabalho temporário na Praça Saenz Peña, na Tijuca. Como segurança de rua, ele trabalhava por mais de 10 horas por dia. Nesta segunda-feira, quando findou o expediente, pouco depois das 20h30, o vigilante seguiu para casa. O objetivo era encontrar a esposa e os cinco filhos – de 6, 10, 12, 15 e 18 anos. No entanto, ele não chegou na residência. Morreu baleado quando acessava a viela da Favelinha, uma das localidades que dá acesso a comunidade onde morava. Naquele momento a Polícia Militar trocava tiros com traficantes da região. Por conta do confronto, quatro pessoas morreram. Uma passageira de uma van – que passava no momento do confronto – está em estado grave no Hospital municipal Souza Aguiar, no Centro.

Na manhã desta terça, oito horas após o confronto, a equipe do EXTRA esteve na localidade. O que se viu foi um cenário de guerra. Carros destruídos, marcas de tiros por todos os lados e sangue espalhado pela viela.

A PM diz que foi atacada por traficantes quando passava pela rua Barão de Petrópolis. Já moradores dizem que “os PMs da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Escondidinho/Prazeres fizeram uma emboscada para matar o traficante Marcelo da Silva Guilherme, o Marcelinho dos Prazeres”, apontado pela polícia como chefe do tráfico no Morro dos Prazeres.

Uma testemunha que viu o tiroteio lembra do momento de desespero.

– Eles (os PMs) agiram de uma forma cruel. Foi uma cena de terror, uma maldade, um ódio neles. A gente não sabe o porquê. Eu estava sentada quando tudo aconteceu. O seu Denis estava voltando para casa quando foi alvejado – lembra a testemunha, que por segurança não será identificada.

Ainda segundo a testemunha, os PMs se esconderam na casa de um morador para atacar o bando de Marcelinho dos Prazeres. Para quem mora na localidade, tudo não passou de “uma emboscada”.

– Eles ficaram na casa do morador e montaram uma emboscada para matar os meninos (os traficantes). É um absurdo. Eles veem a comunidade como um campo de diversão, uma terra sem lei.

O EXTRA esteve na casa do morador que a testemunha informou. A pessoa confirmou a versão. Afirmou que, horas antes pelo menos 10 PMs da UPP Escondidinho/Prazeres estiveram na residência. Um deles teria pulado o muro e obrigado o morador a abrir o portão. Após isso, alguns militares entraram na casa e ficaram esperando o momento exato em que Marcelinho dos Prazeres passasse. O bandido teria passado na viela por volta de 21h30.

– Foi um momento de terror. Era muito tiro, muito tiro – diz uma segunda testemunha, que pretende procurar a Defensoria Pública do estado para relatar os abusos dos militares.

Durante o tiroteio, a atendente de caixa Bruna Barros Viana, de 39 anos, que estava numa van, foi atingida no pescoço e levada para o Hospital municipal Souza Aguiar, no Centro. Seu estado é considerado grave. Além dela foram baleados o mototaxista Thiago F. Silva, de 32 anos e um morador de rua que não teve a identidade revelada.

No tiroteio o traficante Marcelinho dos Prazeres foi morto. Um outro suspeito também foi baleado e morreu.

Procurado, o porta-voz da PM, o major Ivan Blaz, afirmou que uma equipe da UPP foi atacada quando passava pela localidade.

“Ele era meu parceiro de vida”, diz mulher do vigilante

Casado há mais de 25 anos com a dona de casa Carla Rodrigues da Silva, 45, o sonho de Denis era comprar uma casa para a família. Trabalhador, ele se dedicava atualmente a conseguir um emprego de carteira assinada. Considerado como “um paizão, amigo e companheiro”, ele amava os filhos e o que fazia: a vigilância patrimonial.

Nesta manhã, Carla lembrou os últimos momentos com o esposo. Horas antes dele ser morto por uma bala perdida, a dona de casa deixou um currículo do companheiro em um hortifruti do bairro.

– Ele estava trabalhando sem carteira assinada desde a pandemia. Há seis meses (meu marido) conseguiu um bico nas Tijuca. Ontem mesmo eu coloquei um currículo dele na loja de verduras – pois ele queria trabalhar de careteira assinada – conta Carla, que acrescenta:

– Ele sempre chegava nesse horário (22h) e tinha que passar por aqui, porque pela outra rua sobe muito. Então, esse é o caminho da nossa casa. Passamos aqui porque somos obrigados. Eu estava em casa com os meus filhos quando fiquei sabendo que ele tinha sido baleado. Quando eu desci, vi que tinha muito sangue. Fiquei desesperada. Eu vi ele entrando na ambulância, andando . Ele foi pro hospital bem. Ele ainda chamou pelo meu nome. Mas, hoje de manhã eles disseram que ele estava morto.