Vitória do extremista Viktor Orbán na Hungria serve de alerta para disputa no Brasil

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Hungarian PM Viktor Orban and Brazilian President Jair Bolsonaro give a joint statement, in Budapest, Hungary, February 17, 2022. REUTERS/Bernadett Szabo
Jair Bolsonaro em encontro com Viktor Orbán em Budapeste. Foto Bernadett Szabo/Reuters

Se não ligou, a vitória de Viktor Orbán nas eleições parlamentares da Hungria, no fim de semana, deveria ligar o alerta a todos os que acompanham com preocupação o avanço da extrema direita. O primeiro-ministro húngaro, que acaba de conquistar seu quinto mandato com uma maioria folgada no Parlamento, é uma espécie de precursor do movimento que inspira populistas pelo mundo, inclusive no Brasil.

Em sua última viagem à Europa, Jair Bolsonaro fez questão de se encontrar com seu ídolo, a quem chamou de “irmão”.

Até outro dia, as eleições húngaras eram consideradas uma prévia do que as forças de oposição brasileiras deveriam fazer para enfrentar seu líder de inclinações extremistas. Lá a ideia de frente ampla realmente foi colocada em campo, com uma reunião de partidos, à esquerda e à direita, alinhados no enfrentamento ao adversário radical em comum.

Seria difícil, para Orbán, conseguir o novo mandato contra tudo e contra todos, mesmo tendo o controle dos veículos de comunicação estatais e privados. A “cupinização” institucional do país, termo usado recentemente pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia para resumir os riscos à democracia brasileira, começou anos atrás, com uma reforma para reduzir as cadeiras no Parlamento e beneficiar o partido de Orbán, o Fidesz, e o aparelhamento em diversas instâncias do Judiciário.

Embora sirva de inspiração para populistas de direita e seus pastiches, há diferenças fundamentais de contextos lá e cá, ao menos.

Orbán tem o controle do mesmo partido político há quase 30 anos, enquanto o bolsonarismo é um mero cavalo de Tróia das legendas que topam oferecer abrigo à espera de uma conversão improvável. Era o PSL em 2018 e hoje é o PL de Valdemar da Costa Neto. Por enquanto.

Mas, na busca por um candidato neutro que chegasse à disputa sem grande rejeição, a oposição húngara apostou as fichas em Péter Marki-Zay, um prefeito do interior sem sal e sem projeção nacional.

Em outubro, se tudo seguir como está, o principal desafiante no caminho de Bolsonaro é um ex-presidente com alto apelo popular e já experimentado.

Contra Lula, Bolsonaro deve lançar mão de ferramentas semelhantes às que foram determinantes para a vitória de Orbán no fim de semana.

Uma delas é explorar até a exaustão os medos mais calcificados do eleitor. O fato novo da disputa por lá foi a guerra na Ucrânia.

O primeiro-ministro martelou o tempo todo que uma eventual vitória da oposição significaria uma quebra do equilíbrio que mantinha a população local distante do conflito. Na sua versão, eleger o adversário era levar o país para a guerra. A conversa, por mais furada que fosse, funcionou.

Orbán é uma liderança alinhada à Rússia de Vladimir Putin, embora seu país faça parte da Otan e da União Europeia, com os quais vive às turras. O primeiro-ministro húngaro apoiou as sanções contra o Kremlin, desde que não afetassem o fornecimento de gás e petróleo ao país, conforme um acordo firmado entre eles em meados do ano passado. Ele se opôs, no entanto, ao envio de armas e tropas em defesa da Ucrânia.

Assim como Putin, Orbán faz da perseguição a minorias e opositores um ponto central de sua cartilha.

No mesmo dia em que foram às urnas, os húngaros participaram de um referendo que continha perguntas do tipo: “você apoia a exposição irrestrita de crianças menores de idade a conteúdo de mídia sexualmente explícito que possa afetar seu desenvolvimento?”

Não era difícil imaginar o que qualquer eleitor diria na hora de escolher “sim” ou “não”, e Orbán usou como pode o plebiscito para associar a oposição a um risco contra a população infantil. Em disputa estava a proibição de qualquer menção a temática LGBTQI+ a menores de 18 anos.

Aqui os movimentos extremistas europeus e brasileiro se encontram na mesma curva. Basta lembrar como apoiadores de Bolsonaro têm manipulado discussões do tipo, associando a oposição, e a esquerda em particular, a um risco contra as chamadas famílias cristãs e tradicionais –atacadas por fantasmas imaginários como a distribuição de mamadeiras com bicos estranhos para crianças, uma fake news que alvejou corações e mentes na última disputa eleitoral.

A vitória de Orbán animou movimentos nacionalistas, com pautas conservadoras e anti-imigratórias, em países como a França, que vai às urnas no próximo fim de semana, e a Itália. Marine Le Pen e Mateo Salvatti, respectivamente, vibraram com o resultado.

Não será diferente por aqui. É preciso levar em conta as diferenças de contextos na Hungria e no Brasil antes de qualquer conclusão antecipada sobre o que vem por aí.

Mas as lições do pleito, a começar pela manipulação do medo do eleitor como instrumento de perpetuação do poder, é um dos muitos flancos que precisam ser assimilados em qualquer disputa onde pastiches de Orbán estejam em campo para replicar a cupinização que por lá já tem mais de 12 anos de trabalho. Em outubro, é a resiliência das instituições e dos veículos que ainda não se dobraram ao poder que estarão em teste.